Crise 2.0: Austeridade x Crescimento

 

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Começamos o dia publicando aqui no Crise 2.0, um  novo artigo, Crise 2.0: França x Alemanha abordando as consequências imediatas das eleições francesas, é um esforço contínuo de entender o que muda no cenário europeu com a volta dos socialistas ao pode na França, a segunda maior economia da Europa, a única que pode, ainda, rivalizar com a poderosa Alemanha, que pode colocar em xeque a atual política de pensamento único, a Austeridade.

 

Aqui na América Latina, não nos surpreendemos com os planos de Austeridade, nos anos 80 e 90 éramos vítimas correntes do FMI, um dos tripés da Troika atual, que reuni ainda o Comissariado Europeu e BCE, para impor os velhos planos de destruição das nações soberanas, em nome e defesa dos grandes conglomerados, liderados pelos bancos. Ora, tudo o que vemos hoje, parece filme repetido, mas a novidade “nova” é que o quintal agora são os países europeus, o denominado “primeiro-muindo”.  Tratamos, amiúde, no artigo Crise 2.0: Austeridade(As Fúrias).

 

Agora proponho que leiamos juntos o brilhante artigo de Paul Krugman, publicado no Estadão de hoje, que já, no título, traz uma provocação “Esses europeus revoltados “, sigamos o mestre:

Os franceses vão se revoltando. Os gregos, também. E já não era sem tempo.

Os dois países realizaram eleições no domingo que foram, na verdade, referendos sobre a estratégia econômica europeia corrente, e nos dois países os eleitores viraram os dois polegares para baixo. Não está claro em que prazo os votos produzirão alterações na política real, mas o tempo está claramente se esgotando para a estratégia de recuperação via a austeridade – e isso é uma coisa boa.

Nem seria preciso dizer, não foi o que se ouviu dos suspeitos usuais nas corridas eleitorais. Na verdade, foi até um pouco engraçado ver os apóstolos da ortodoxia tentando retratar o cauteloso e polido François Hollande como uma figura ameaçadora. Ele é “bastante perigoso”, declarou The Economist, que observou que Hollande “genuinamente acredita na necessidade de criar uma sociedade mais justa”. Quelle horreur! O que é verdade é que a vitória de Hollande significa o fim de “Merkozy”, o eixo franco-alemão que aplicou o regime de autoridade nos dois últimos anos. Isso seria um desenvolvimento “perigoso” se essa estratégia estivesse funcionando, ou mesmo tivesse uma chance razoável de funcionar. Mas não está e não tem; a hora é de avançar. Os eleitores da Europa, como se viu, são mais sábios que os melhores e mais brilhantes do Continente.

 

O tom é jocoso, pois, parece piada, que os “mercados” depois de fracassarem seguidamente nos seus planos, insistam em pedir mais austeridade, traduzidos em política pela dupla “Merkozy”, que transformaram a Zona do Euro numa grande UTI, mas ao invés dos países em crise receberem doação de “sangue”, lhes é ministrados que doem o que sobrou do seu líquido vital. Na primeira chance de arrancarem os aparelhos de transfusão, o povo, assim o fez, deu categórico não à política atual.

 

Krugman, avança na análise do fracasso da política de austeridade dando exemplo da Irlanda, que aceitou passivamente todo o cabedal de medidas do plano, mesmo assim o resultado foi pífio: “Aliás, o desejo de acreditar é tão forte que membros da elite política europeia continuam proclamando que a austeridade irlandesa de fato funcionou, que a economia irlandesa começou a se recuperar.

Mas não começou. E embora não se saberia disso pela cobertura da imprensa, os custos de captação de empréstimos pela Irlanda continuam muito mais altos que os de Espanha ou Itália, para não falar da Alemanha”.

 

Aqui ele faz a pergunta fatal: Há alternativas? vejamos o que nos conta, exemplificada na Islândia: “Uma resposta – uma resposta que faz mais sentido do que quase ninguém na Europa está disposto a admitir – seria o desmantelamento do euro, a moeda comum europeia. A Europa não estaria nesses apuros se a Grécia ainda tivesse seu dracma, a Espanha sua peseta, a Irlanda seu pint, e assim por diante, porque Grécia e Espanha teriam o que agora lhes falta: uma maneira fácil de recuperar a competitividade de custos e incrementar as exportações, a saber, a desvalorização.

Como contraponto à história triste da Irlanda, considere-se o caso da Islândia, que foi o marco zero da crise financeira, mas conseguiu responder desvalorizando sua moeda, a coroa (e também teve a coragem de permitir que seus bancos quebrassem e dessem calote em suas dívidas). A Islândia está seguramente experimentando uma recuperação que a Irlanda supostamente devia estar, mas não está”.

 

Entretanto ele concede que a simples ruptura do Euro seria desastroso, uma derrota ampla, então intuí que a saída é a própria Alemanha, não o que Merkel e seus ideólogos banqueiros, pois a lição interna é oposta do que pregam aos demais países, assim ele expõe: “Quando se conversa com dirigentes alemães sobre a crise do euro, eles gostam de apontar que sua própria economia estava na lona nos primeiros anos da década passada, mas conseguiu se recuperar. O que eles não gostam de reconhecer é que essa recuperação foi impulsionada pelo surgimento de um enorme superávit comercial alemão ante os outros países europeus – em particular, ante as nações hoje em crise – que estava se expandindo, e experimentando uma inflação acima da normal, graças às baixas taxas de juros. Os países da crise da Europa deveriam ser capazes de imitar o sucesso da Alemanha se enfrentassem um ambiente comparativamente favorável – isto é, se desta vez fosse o restante da Europa, especialmente a Alemanha, que estivesse experimentando um pequeno boom inflacionário”.

 

Depois, por fim, dá um ippon nos argumentos liberais, tão em voga no receituário da Crise:

“De modo que a experiência da Alemanha não é, como os alemães imaginam, um argumento para a austeridade unilateral no sul da Europa; é um argumento para políticas muito mais expansionistas alhures e, em particular, para o Banco Central Europeu (BCE) dar um fim na sua obsessão por inflação e se concentrar no crescimento.

Os alemães, é dispensável dizer, não gostam dessa conclusão, e os dirigentes do BCE tampouco. Eles se aferrarão a suas fantasias de prosperidade pela via dos sacrifícios, e insistirão em que dar continuidade a suas estratégias fracassadas é a única
coisa responsável a fazer. Mas tudo indica que eles não terão mais um apoio inconteste do Palácio do Eliseu. E isso significa, acreditem ou não, que tanto o euro como o projeto europeu têm agora uma chance melhor de sobreviver do que tinham alguns anos atrás”.

 

A velha questão de só se tem o amor verdadeiro com o a dor, é traduzida em economia política, para a solução de que só com austeridade se terá a verdadeira economia. Tanto num caso, como no outro, apenas os religiosos, tantos os de igrejas, como os de bancos, acreditam nestas bobagens, por um fato simples, os seus “fiéis” fazem os sacrifícios, enquanto autoridades religiosas e bancárias continuam vivendo na opulência.

 

0 thoughts on “Crise 2.0: Austeridade x Crescimento”

  1. Ótimo post, Arnóbio, e ótimo artigo o do Krugman. Gostei da referência ao processo da Islândia, em que o governo submeteu a plebiscitos as medidas recomendadas pela Tróika, recebendo um rotundo NÃO. Claro que é um pequeno país, com pouca importância econômica no mundo e mesmo na Europa, mas indicou caminhos que poderiam ser trilhados, assumindo a quebradeira geral dos bancos do país (antes a Argentina fez coisa similar, boicotando o pagamento da dívida e permitindo um alívio na economia – e pouco disso se ouviu por aqui, fora uns extertores mervais na época). E essa idéia religiosa das venturas dos sacrifícios sempre se mostrou uma grande furada, tanto histórica como teológica. Persistem,sempre, as mesmas questões: afinal, “crescimento para quem?”, “sacrifícios de quem?”.

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