Agonia do Coronavírus

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O Coliseu vazio, as ruas, as mortes, a agonia da finitude.

“Se fosse resolver
Iria te dizer
Foi minha agonia
Se eu tentasse entender
Por mais que eu me esforçasse
Eu não conseguiria”
(Agonia – Oswaldo Montenegro)

Depois de um ano e quase quatro meses, desde a morte de Letícia, em 18 de novembro de 2018, nesses últimos dias temi a morte. Parecia que estava curado desse temor, de que nada de ruim, inclusive a possibilidade de morrer,  poderia me atingir, dito melhor, a vida passou a ser secundária, diante de minha perda irreparável, então a antiga paranoia de fim, não me preocuparia mais.

Alguns momentos, desse período, bateu um destemor enorme, de enfrentar situações de alto risco como se nada estivesse acontecendo, por exemplo, caminha para frente de policiais atirando contra manifestante, no meio de uma “nuvem” de gás lacrimogêneo, ou entrar e sair em comunidades, que nunca tinha frequentado, sem que isso parecesse algo perigoso.

A conquista da liberdade de não mais estar preso aos medos, entre eles, o maior, o de morrer, é uma sensação incrível, ainda que estivesse/estou num momento delicado de vida, de expectativas, sem saber ao certo o que me resta, se há algum futuro, enfim, coisas que assombram normalmente as pessoas, passaram a fazer parte apenas da memória.

O que houve efetivamente de diferente nessa semana para que a vida voltasse a contar como algo grande?

Nas duas últimas semanas foram intensas de atividades, em que me envolvi, desde a brutal repressão policial na Assembleia Legislativa de São Paulo, passando pela tensão do ato do dia das mulheres e finalmente a reintegração de posse da área ocupada pelos índios Guaranis. Esses eventos foram pesados, mas não me abalaram, fui sem nenhuma grande preocupação, ou alguma reserva.

O que me chocou mesmo, aparentemente, é a tragédia do Coronavírus, talvez pelo cansaço, estresse vivido nesses 10 dias, senti fragilidade, tive medo de que pudesse estar contaminado, que poderia contaminar as pessoas próximas, isso me realmente me deixou abalado, meio para baixo.

Somatizei dores, lembranças, numa palavra: Agonia. Era o que sentia intensamente, desde quarta. Dias difíceis, vamos em frente.

admin

Nascido em Bela Cruz (Ceará- Brasil), moro em São Paulo (São Paulo - Brasil), Técnico em Telecomunicações e Advogado. Autor do Livro - Crise 2.0: A Taxa de Lucro Reloaded.

One thought on “Agonia do Coronavírus

  1. .”… eu sei que vou morrer um pouco à cada dia…” . Sabe, meu amigo, meu pai dizia, já com minha idade, “Estou na linha descendente da vida”. É isso. É as vezes, a agonia vem.

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