“Mãe”, a Minha Mãe na posse da Dilma

 

 

 

Máximo Gorki escreveu o romance Mãe em 1907, em que conta a estória de Peláguea Nilovna viúva e o jovem Pavel órfão, a trajetória do garoto que entra muito cedo para luta revolucionária  e por sua influência sua mãe acaba participando da luta. Bem, não me chamo Pavel, nem a minha se chama Peláguea, mas enfim, temos muitas coisas em comum.

 

Trajetória Estudantil


Aos 13 anos tive meus primeiros contatos com a luta da esquerda. Estudava num colégio em Fortaleza, o dono  um deputado do P-MDB, que era militante do PC do B(clandestino), então ele abrigava vários professores que tinham sido presos, torturados e alguns exilados durante a ditadura. Era um garoto crescido no interior, recém mudado para capital, muito curioso, meio nerd, minha maior diversão eram os livros, principalmente Monteiro Lobato e história. Lia os livros didáticos como se fossem romances. Aquele ambiente de reinicio do movimento estudantil, de liberdade, das faixas vermelhas, apesar de confuso me atraiu rápido.

Certo que em 1984 já na Escola Técnica Federal, já participava intensamente do Movimento Estudantil, não entrara em nenhuma corrente, era disputado pelos extremos PC do B e Alicerce (Convergência Socialista), resolvi por conta própria ler os clássicos marxistas, sem me filiar a ninguém

Em 1985 fizemos um amplo comitê de apoio a Maria Luiza Fontenelle,  a primeira prefeita do PT numa capital. Aquilo foi fantástico, me senti fazendo história. Nesta época, já com alguma base teórica me juntei ao CGB (Coletivo Gregório Bezerra) uma ruptura do antigo partidão, iniciada por Prestes, que optou por seguir Brizola. Estes pequenos grupos se mantiveram a margem do PT, dentro da CUT, no Movimento Estudantil, combatendo à esquerda.

Mãe


Aqui entra a importância da minha Mãe na minha militância, na infância ela me influenciou no gosto pela leitura, no incentivo em estudar, meu irmão mais velho seguia os passos do meu pai, adorava carros, caminhões e cedo foi trabalhar, enquanto optamos por estudar mais. Para desespero do meu pai virei de “esquerda” que para ele era sinônimo de agitador, comunista, vermelho, risos, acho que até de comedor de criancinhas, engraçado que hoje meu velho e eu damos risadas destas brigas homéricas, sem ressentimento algum.

Quando passei a me dedicar integralmente à causa, foi um rebu em casa, pai não aceitava, e a doce mãe, muitas vezes, secretamente, me ajudava com algum dinheiro para que sobrevivesse o dia todo fora (naquela época não existia dinheiro nas entidades estudantis, era dia com fome mesmo). Morava distante da Escola Técnica e tinha muitos compromissos no movimento, tornei-me o primeiro Presidente do Grêmio Livre pós-ditadura, aquilo era um assombro para aquela instituição, liberal, mas muito controlada, cheia de agentes do SNI.

Jamais esqueço quando assumi a presidência, aquela senhora chorando emocionada pelo meu feito. Várias vezes corri riscos de ser preso, ou sofrer violência policial em greves estudantis e de trabalhadores que nós apoiávamos, ela sempre rezando, pedindo para que me cuidasse.  Depois quando fui para UMES, derrotamos o PC do B, uma guerra, depois de greves estudantis gigantescas em Fortaleza que nós ajudamos a organizar.

Minha mãe passou a votar na esquerda muito por minha influência, todos os irmãos já votavam na esquerda, mas ela assumiu de forma mais forte, apaixonada, comemorando as vitórias de Lula, foi à posse dele em 2006, ficou emocionada quando esteve perto dele, mais ainda quando mandou presente para Marisa e esta lhe respondeu por carta.

Sofreu horrores nesta campanha da Dilma, me ligava aflita querendo saber como estavam às coisas, se tinha perigo, o que ela poderia fazer.  Assistia aos debates, ficava preocupada, vibrava com cada pesquisa, quase matou meu pai com a ansiedade dos dias finais, ele pedia que eu a acalmasse. Mas morreu de chorar com a dupla vitória: Dilma Presidente e Tasso fora do senado.

Minha mãe sairá do interior do Ceará, ela mora perto de Jericoacoara e vai para fortaleza, pegará vôo de madrugada, sozinha, para ir à posse de Dilma, lhe perguntei se valia a pena, deixar o pai e os meus irmãos na noite do ano novo, ela disse: “quero fazer história de novo e na minha idade(ela tem 68 anos), ver uma mulher presidente não tem preço que pague”, me convenceu.

0 thoughts on ““Mãe”, a Minha Mãe na posse da Dilma”

  1. Que bonito Arnobio! Diga que o Maneco mandou um beijo pra ela! O Brasil precisa de MUITAS Mães assim, que acreditam no país e na esquerda!
    abração,
    maneco

  2. Chorei.
    Tá, eu choro à toa, vai…
    Mas, sério: lembrei de minha avó, da torcida pelas Diretas Já, em 1984, das greves de professores, nas quais minha mãe nos levava…
    Participei um pouco do movimento estudantil, em 92, me decepcionei, hoje vejo que muito era por culpa do machismo, presente mesmo nos movimentos de esquerda.
    Por isso, vejo como tão importante a vitória da Dilma.
    Não vou poder ir a Brasília para a posse. Mas, de longe, sinto que também fiz parte da história. Fizemos!
    Abs!
    E beijos para a sua mãe! Realmente, não tem preço que pague ver uma mulher presidenta!

  3. As nossas maes sao valiosas, como, e logico sao os nossos pais. A eleicao de Dilma e a coroacao de nossas maes. E eu agora tambem pertenco a este seguimento. Sou mae e avo.
    Eu tive umas lutas em casa tambem para me libertar e ao mesmo tempo usar as influencias de meus pais. E um momento muito maravilhoso quando vem a reconciliacao total com eles, e todas suas variacoes.
    Quero um dia poder escrever muitissimo sobre o papel da mae. nao aquela que da custodia e mantem o lar, mais seu exemplo de zeladora de ideias, de liberdade com cuidados, de carinho com justica, de brincadeiras com criatividade e alegria. Esta provedora, a que foi a materna de Lula, por exemplo: Aquela que lutou feito guerreira para dar aos filhos as estrelas, atravez de estudos e um lugar seguro onde acorar, nao o lugar fisico, mais o lugar de receptora.
    Auquela senhora Lindu que nao admitiu que espancasse seu filho. Que se recusou a dar lhe a outra e se sentir subalterna. As consequencias positivas para Lula destes atos sao pouco exploradas, mais na formacao do filho teve imenso valor. Poucos sabem como as criancas observan seus pais, e deles formam seu proprio ser.
    Que suas maes, e voces que sao maes possam aproveitar bem este evento. Que se divirtam, sintam suas emocoes, e ao longo dos anos carreguem este orgulho singular, que mesmo sendo meio feminino, transcende o genero e pode ser neutro, ou masculino.

  4. Lindo, lindo, lindo !

    Foi minha mãe quem primeiro votou no PT aqui em casa. Ela nos contagiou a todos, saia de bandeira no carro, toda faceira fazendo carreata. Grande beijo na tua mãe, ela com certeza é uma pessoa excepcional !

    Abraços

    Elenara

  5. arnobiorocha,
    Sua mãe é um exemplo de mulher moderna,não alienada e que acompanha a história do nosso País.Aliás ela faz parte dessa história.Também estou orgulhosa de ter uma mulher na presidencia,embora não tenha votada na Dilma, mas se ela conseguiu chegar aonde está, foi por merecimento.Vamos acreditar e acompanhar o seu trabalho que não vai ser fácil.Quanto a sua mãe gostaria de estar pertinho dela na posse da Dilma e ver seus olhos brilhando.Parabéns pela mãe, participativa e antenada. Feliz 2011 para toda a sua família,cheio de realizações.Uma delas está se concretizando: ver a posse da Dilma!bjs

  6. E eu aqui chorando e olhando uma fotinho do camarada pai, que foi o “mãe” da minha história, um pouco diferente da sua, mas com a mesma intensidade emotiva.
    Fecho os olhos e vejo o sorriso enorme do camarada na festa da vitória da Erundina, única recompensa que teve por toda a luta e sofrimento. Mal sabia ele que era só o começo…
    Arnóbio, quando encontrar a mãe, de-lhe um abraço bem apertado e um beijo bem grande em meu nome.
    Ah sim, se a mãe já tiver twitter, por favor, me indique, eu sou a @urbeslz .
    Grata pelo texto – bj

    1. Mamãe,

      Tá treinando internet com os netos, ela mora numa fazenda no interior do ceará e graças a Lula a “mudernidade” também chegou lá, com luz, celular e agora em breve internet, ela já tem um notebook e vai ter twitter, se deus quiser,

      Valeu o comentário,

      Feliz 2011,

      Arnobio

  7. arnobiorocha,rsss. saiu meu nome errado!
    Sua mãe é um exemplo de mulher moderna,não alienada e que acompanha a história do nosso País.Aliás ela faz parte dessa história.Também estou orgulhosa de ter uma mulher na presidencia,embora não tenha votada na Dilma, mas se ela conseguiu chegar aonde está, foi por merecimento.Vamos acreditar e acompanhar o seu trabalho que não vai ser fácil.Quanto a sua mãe gostaria de estar pertinho dela na posse da Dilma e ver seus olhos brilhando.Parabéns pela mãe, participativa e antenada. Feliz 2011 para toda a sua família,cheio de realizações.Uma delas está se concretizando: ver a posse da Dilma!bjs

  8. Emocionante, Arnobio, lindo texto, de arrepiar.

    Não pude deixar de pensar que há uma dupla ilação na história que nos conta: entre a trajetória de sua mãe e a de Lula, que deixa o poder, e ao significado do esforço de sua mãe para prestigiar a posse da primeira mulher assumir a Presidência.

    Um abraço,
    Maurício.

  9. Essa é a mamãe com suas paixões! Minha mãe é de grandes paixões. Compartilho alguns dessas. O Arnóbio (meu irmão que mudou o rumo da minha vida), o Lula(meu ídolo) a Dilma(esperança) e meu pai. Na posse do Lula fomos juntas! Foi um grande sonho realizado dela! Pena que esse ano não vou. Quem sabe em 2015!!!

  10. Nobim,

    Sou testemunha ocular, há 23 anos, desta maneira de ser da Fáti Rocha, e posso te dizer que toda que vez ela falava da Dilma, nos causava emoção intensa, pela maneira apaixonada, convincente, e que ia muito além da visão política.

  11. Meu querido irmão..estou aqui, sentada desde ‘as 14:00, acompanhando passo a passo a posse de Dilma..falar da mamãe é impossível..as palavras faltam, mas falar da mulher determinada, que quando diz que pau é pedra tem que ser é muito fácil.Fiz nesse mês de dezembro uma atividade com meus alunos e cada grupo ficou com uma revista,e claro, não podia deixar de ter uma com o titulo:Dilma,A PRIMEIRA MULHER PRESIDENTE DO PAÍS, e foi uma arraso, meus alunos fizeram hora dizendo:professora não precisa chorar.. .Quando eles passaram a conhecer realmente a história dela, foram uânimes em dizer que eu tinha razão em tudo o que falava sobre Dilama e sempre dizia a eles vocês precisam ver minha mãe falar, defender Dilma mais uma vez diziam ta explicado o seu jeito, vcs não sabem da missa um terço e meu irmão esse sim, conhece a historia, é apaixonado e de quebra inteligentissimo, eles faziam hora ,diziam ta explicado vem do sangue a politica, aí lembrava do vovô ,eles diziam pode parar…e por aí vai.Sem dúvida alguma é uma emoção muito gde ver minha mãe diexar nosso pai(meu santinho) como ela chama para ir a Brasilia assistir a posse. Essa é minha Mãe, forte, lutadora, convicta daquilo que acredito.Não tenho sua eloquencia para falar dela, mas..mas é isso aí.beijos te amo.

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