Multidão de almas perdidas e encontradas no cotidiano da vida comum.

Multidão de almas perdidas e encontradas no cotidiano da vida comum.

“Quando tivermos escapado ao tumulto vital
Nos obrigam a hesitar: e é essa reflexão
Que dá à desventura uma vida tão longa.
Pois quem suportaria o açoite e os insultos do mundo,
A afronta do opressor, o desdém do orgulhoso,
As pontadas do amor humilhado, as delongas da lei,
A prepotência do mando, e o achincalhe
Que o mérito paciente recebe dos inúteis”
(Hamlet – William Shakespeare)

Minha identificação com Leonardo Padura, o ácido escritor cubano, é sem dúvida por ele descrever tão bem as mazelas do ser humano, sem nenhum heroísmo, pois a própria luta pela sobrevivência é o maior ato de heroico da humanidade. Recolher forças, não se sabendo de onde, para levantar todos os dias e olhar para frente, ainda que em condições extremas.

No fundo a vida não passa de uma eterna repetição de atos e fatos, 99% da população da terra vive sob fortes incertezas de como será o próximo dia. Somos Sísifos modernos subindo a pedra e vendo-a rolar de volta, para que mais uma vez façamos o mesmo exercício com as mesmas obrigações em que dificilmente alteramos uma vírgula, um pequeno detalhe, em nosso cotidiano.

É preciso louvar a capacidade humana de acreditar que em meio a essa trágica luta pela sobrevivência, encontre razões para continuar e até ser feliz, ainda que por breves momentos. Mais ainda, a incrível força dos que mantêm a cabeça erguida, a espinha ereta, sem se curvar diante da realidade e não se deixar vencer pelo pessimismo, desespero ou cair no cinismo, típico desses momentos de rupturas sociais, políticas e pessoais.

Nas grandes Crises econômicas os males e o peso delas recaem sobre essa maioria sofrida, com o aumento do desemprego, a desagregação social e aumento das incertezas. Normalmente as relações se tornam mais estranhadas, moralidade e o humanismo acabam sendo as primeiras vítimas nesses momentos críticos.

Solidariedade e dignidade acabam esquecidas, pois o que se exterioriza é apenas o que há de pior em nossas entranhas, o nosso lado animal irracional. O mal é apenas banalizado, não é à toa que regimes fascistas nascem e crescem dessas condições ideais em que desenvolvimento do ódio encontra campo fértil e funciona como motor de violência de classe, além de virar categoria política fundamental para esses regimes.

Padura descreve sua Cuba nesse modo contínuo de desesperanças das pessoas simples e suas microtragédias. O que não deve ser diferente daqui, ou nos EUA, na China ou no Japão, são sentimentos universais. A graduação da dor é diferente, mas o desassossego é mesmo para quem nada tem. A força das religiões, crendices e todo tipo de superstições alimentam esses espíritos desamparados, eventualmente alguns se desgarram da massa geral.

Também não se trata de um pessimismo momentâneo, que imobiliza, mas de uma reflexão sobre nossas terríveis mazelas, do acordar ao anoitecer, do que sempre fazemos e repetimos como se fosse absolutamente comum e que não se pode romper, ao contrário, deve-se.

Por fim não há receita alguma a ser seguida, nossa força de resistência interna e mental é o que nos guia sem baixar a guarda, sempre carregado com mais energia e sensibilidade, para mudar o que cada um vive, ao seu modo, como melhor lhe convier.

Bom dia, mundo (Real ou Virtual)