Noturno (Puntetta della Chriciera Piotr Topperzer © Piotr & Co)

Noturno (Puntetta della Chriciera
Piotr Topperzer © Piotr & Co)

“Há mais coisas no céu e na terra, Horácio,
Do que sonha a tua filosofia” (Hamlet – Shakespeare)

Os mistérios da existência humana ganham algum sentido (será que realmente há?), apenas quando conseguimos nos abstrair do nosso cotidiano opressor e refletimos com mais apuro.  Nestes instantes libertamos nossa alma dos grilhões das obrigações da luta pela sobrevivência selvagem e viajamos nas ideias em busca do que somos, ainda que por pouco tempo.

“O que se tem é tudo que se precisa” (Gravado no Templo do Zen-budismo, Dragão em Paz (Ryoan-Ji))

Estas reflexões, desses intricados mistérios, nos levam às questões capciosas, não para fora, mas para dentro: O quanto somos? Quantos cabemos em nós mesmos? Ou de quanto precisamos para viver? Quais nossas atitudes diante de um todo que nos oprime? O que nos empurra e nos puxa para nossa vida real e contra? Qual a nossa temporalidade?

A vida (tempo e lugar que ocupamos) é breve demais e nem temos consciência de elaborar, ou dimensionar, o que cada um de nós é e o que deveria/poderia ser, pois ela se acaba num sopro, vivemos um tolo equilíbrio. Esta coisa nos assusta e nos impulsionar a fazer algo mais, ou nos paralisa para sempre. Muitas vezes a solução de continuidade é ignorar e não pensar com profundidade.

Shakespeare nos fala, via seu personagem mais filosófico, Hamlet, que “A vida humana não dura mais do que a contagem de um”.  Parece uma formulação tão cruel, realmente é, mas encerra tanta verdade nessa proposição que é impossível não ativar a mente e pensar sobre a totalidade do UM, único desse ser especial, o Homem.

As melhores viagens investigativas e filosóficas são as noturnas, pois nesse horário o barulho quase se foi, muitos dormem vencidos pelo cansaço da labuta da cruel luta de sol a sol. Sobram os poetas, os notívagos e os livres-pensadores que se inspiram e deleitam no silêncio da noite.

Inevitavelmente, antes de cair no sono, a solidão nos leva ao simples pensar e nos faz olhar em volta com mais detalhes até para aquilo que naturalmente não teria importância alguma durante o dia. Dos pequenos pensamentos às grandes interrogações, favorecidos pelo tempo mais lento, sem a pressa da correria diária.

Perdido no caminho, olho de fora e dificilmente não encontro uma resposta para seguir em frente, com a doce ilusão de quem amanhã sempre será um novo dia, ou pelo menos terá uma nova oportunidade de pensar ao anoitecer.

“Estou acordado e todos dormem todos dormem, todos dormem;
Agora vejo em parte, mas então veremos face a face”.
(Monte Castelo- Legião Urbana)