Traição, Temer e o Nono Ciclo do Infernum

Nono Ciclo, dos traidores, mergulhados no rio gelado Cócito (Gravura de Gustav Doré)
Nono Ciclo do Infernum, traidores, mergulhados no rio gelado Cócito (Gravura de Gustav Doré)

“Tu, que, de ódio tão sevo possuído,

Te encarniças feroce no inimigo,

 “Dize — exclamo — por que foi produzido.

 “Se eu souber que a justiça está contigo

E houver da culpa e réu conhecimento,

No mundo a compensar-te ora me obrigo,

Se não perder a língua o movimento”

(Canto XXXII  – Traidores da Pátria e dos Partidos –  Inferno – Divina Comédia – Dante Alighieri)

 

Dante Alighieri, era poeta, escritor, político, viveu numa Itália extremamente dividida e em permanente guerra civil, na idade média, as cidades mais poderosas viviam em luta pelo controle do “país”. Ele, por suas atividades políticas, acabou exilado de Florença, sua cidade natal, sua grande resposta aos inimigos pode ser lida na Divina Comédia (objeto de vários posts desse blog, um apaixonado pela grande obra de Dante). O autor distribuiu seus inimigos pelos seus pecados capitais no Infernum, segundo a geografia celeste imaginada por Ptolomeu.

Para cada um dos setes pecados capitais , há um enorme castigo nos ciclos infernais, culminando no Nono ciclo, onde reside Lúcifer, o maior dos traidores, que atentou contra Deus. “Os traidores distribuem-se em quatro esferas diferentes, dependendo da gravidade da traição cometida. As esferas chamam-se: Caína, Antenora, Ptolomeiae Judeca” Resumidamente, com ajuda da Wikipedia:

  • Esfera da Caína: É onde são punidos os traidores de seus parentes. Aqui as almas permanecem submersas com apenas o tórax e a cabeça fora do gelo. Seu nome tem origem no personagem bíblico Caim que matou seu irmão Abel por causa de inveja.
  • Esfera da Antenora: Aqui são punidos os traidores de sua pátria ou partido político. As almas ficam submersas até a altura do pescoço, com apenas suas cabeças fora do gelo. O nome foi tirado de Antenor, o príncipe troiano que traiu o seu país ao manter uma correspondência secreta com os gregos.
  • Esfera da Ptoloméia ou Toloméia: Aqui são punidos os traidores de seus hóspedes. As almas estão presas no gelo do lago apenas com o rosto para fora de forma que, quando choram, suas lágrimas congelam e cobrem seus olhos. O nome origina-se do personagem bíblico Ptolomeu, onde o capitão de Jericó convida Simão e seus dois filhos ao seu castelo e lá, traiçoeiramente, os mata a sangue-frio: “pois quando Simão e seus filhos haviam bebido bastante, Ptolomeu e seus homens se levantaram, e sacaram de suas armas, e chegaram até Simão na sala de ceia, e o mataram, e seus dois filhos, e parte dos seus servos.” Aqui está o Conde Ugolino della Gherardesca e o Arcebispo Rogério.
  • Esfera da Judeca: Aqui estão aqueles que, em vida, traíram seus mestres e reis. Eles sofrem intensamente por estarem submersos totalmente no gelo do Cócito, conscientes, para a eternidade; segundo Dante, alguns estão deitados, outros encolhidos e outros de cabeça para baixo. Aqui reside Lúcifer, também preso no gelo até o meio do peito, peludo, com enormes asas que possuem membranas como a dos morcegos no lugar de penas, provoca um vento sentido por toda a esfera, ele tem três cabeças e com cada uma delas, morde um dos três maiores traidores da história: Judas, Brutus e Cassius. O nome vem de Judas, o traidor de Jesus Cristo.

Os maiores castigos são destinados aos traidores, não tive como não pensar em Michel Temer, vice-presidente, que, aliando-se ao pior dos mundos, Eduardo Underwood Cunha e Serra, traiu a pátria e a república. Essa parceria “ponte para o futuro (sic), para juntos “governarem”, sem nenhuma preocupação com leis ou justiça. O castigo é bem claro, como demonstra a frase inicial, por um dos condenados da Antenora, enquanto devora o cérebro de seu parceiro de infortúnio.

Ainda em dezembro último, analisei aqui a tal “carta Temer” (Carta de Temer é seu Passaporte para Líder do Golpe.), sei que virou motivo de piadas, mas preferi tratar como algo sério demais, assim descrevi:

“Depois de refletir bastante, sem o calor do momento, volto atrás no que escrevi, a Carta de Temer é brilhante e extremamente eficaz para o objetivo a que se destinava: Ele se mostrar como Líder e alternativa à Dilma, e encabeçar o processo de Impeachment, em curso. Esqueçam todas as infantilidades, as passagens com erros, confusas, a carta não era para nós, ela era para o “Baixo Clero” do Congresso, quanto mais estúpida, mais perfeita.

Michel Temer fez a carta(?), não para Dilma, mas para dialogar com seu público, típico de novela das 8, que adora uma futrica, uma fofoca, uma cena de ciúme (mesmo que fingida), que se compadece com alguém diminuído, exatamente a mentalidade da base que Cunha dirige no congresso. NENHUM deles tem qualquer dote intelectual, formação crítica ou moral que vá além da consciência das novelas globais.

Ouso dizer que a carta é o Programa Temer, ou melhor, o Passaporte de Temer para liderar o Golpe. Tudo muito bem calculado, pois Cunha pode cair a qualquer momento, mas se consolidou um substituto, sem o peso ruim de Cunha. Em menos de 24 horas ela já produziu estragos enormes, de uma só vez, inspirado por ela, Temer se fez líder de 272 votos na câmara, causou a queda de Picciani da liderança do PMDB, que era o aliado principal de Dilma contra Cunha, deu a confiança aos Golpistas de que ele, Temer, é um dos nossos, diria mais: O General”.

Ainda alertei que, “Temer, e seus aliados, devem estar rindo de nossa cara, bem feito, em política real, pouco importa a velocidade das coisas, da modernidade, o que conta mesmo é como você se comunica, a carta pode ter um efeito muito mais explosivo do que todas as hashtags juntas dos últimos anos”.

Infelizmente não o levamos à sério, cabe agora correr atrás do prejuízo, pois do lado dele, todos os fios estão bem amarrados, do nosso lado, apenas um corrida louca para evitar o desastre total, que se aproxima cada vez mais rápido.

Por fim, momo nos lembra o grande político gaúcho, Leonel Brizola, “a política adora uma traição, mas não perdoa o traidor”.  

É confiar nesse vaticínio e no castigo dantesco. Mas é pouco, muito pouco.

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