A Literatura nos Salvará.

Dante e Estácio bebem das águas do rio Eunoé, em companhia das ninfas que servem a Beatriz, no Paraíso Terrestre. (Canto XXXIII). Ilustração de Gustave Doré
Dante e Estácio bebem das águas do rio Eunoé, em companhia das ninfas que servem a Beatriz, no Paraíso Terrestre. (Canto XXXIII). Ilustração de Gustave Doré

“Os sonhos que hão de vir no sono da morte
Quando tivermos escapado ao tumulto vital
Nos obrigam a hesitar: e é essa reflexão
Que dá à desventura uma vida tão longa”. (Hamlet – W. Shakespeare)

Certeza que já falei sobre isso, mas não custará repetir: Só a literatura nos salva de nós. Ela nos protege dos nossos males, das angústias e do nosso lado obscuro, de nossa dualidade humano-animal. Os caminhos que percorreremos em nossa pouca história nesse planeta, só será melhor se buscarmos a humanidade, algum fio de psique ou de um arquétipo que nos adense espiritualmente e fortaleça nossa sensibilidade, nos afastando da bruta origem animalesca.

Todos os momentos críticos de minha vida, os meus melhores amigos, foram os livros, suas histórias, suas graças. As saídas apontadas estão ali, pois vieram antes, nos mostram aquela trilha seguida, os enfrentamentos e embates que foram vencidos, ou perdidos, permitindo que saibamos onde podemos pisar mais firmes.

Por mais modernos ou modernosos que achamos ser, nada supera o que foi dito, a verdadeira bússola humana, é o saber.

As trevas e as dores de uma ruptura que se avizinha, acendeu meu alerta para onde correr, o que guardar. Minha velha Divina Comédia, a Ilíada, o Hamlet, quem sabe o Fausto ou o Paraíso Perdido, ali vou encontrar alento e amor perdido na humanidade, que vai fundo na sua irracionalidade, a catarse animalesca, pronta para destruir ícones e histórias, num espetáculo dantesco, como se não houvesse amanhã, pior, como se não tivesse acontecido o ontem.

Obviamente não é uma fuga da realidade, mas um banho no Lete, com o incrível poder milagroso de voltar sem lembranças, pronto para renascer, recomeçar, reaprender, principalmente sonhar. Ou beber no Eunoé, cuja água nos dá a memória da virtude. A reconstrução de uma Utopia, de um novo paradigma humano. Por alguns instantes, voltar a ler é uma oportunidade histórica de se sentir humano, livre dessas mazelas que nos circundam.

Obrigado, poetas, aedos, bardos, de todas as épocas, que construíram com seus versos e prosas aquilo o que temos de melhor, a nossa verdadeira fronteira última contra a barbárie, de qualquer espécie.

Evoé!

Renaissance Ashes Are Burning

Imagem de Amostra do You Tube

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