Cerco ao Congresso, ameaça de invasão ao Planalto.

Cerco ao Congresso, ameaça de invasão ao Planalto.

 

“Apesar de ser loucura, revela método” ( Hamlet – William Shakespeare)

Nos últimos dois anos tenho me dedicado aos estudos da Economia Política mundial, retomando Marx, sob a Categoria Crise 2.0, escrevi mais de trezentos artigos que foi melhor sintetizado no meu livro Crise Dois Ponto Zero – A Taxa de Lucro Reloaded. Partindo da Crise no Centro (EUA e UE) e seus reflexos no Brasil, que trato no Capítulo dedicado ao BRICS.

Aponto diretamente que por volta de Julho de 2010 o Brasil efetivamente passou a sentir com mais força os efeitos da Crise, as políticas anticrese adotados entre 2008 e 2010, no Governo Lula, foram fundamentais para que o país não sucumbisse à hecatombe mundial, entretanto o fôlego  destas medidas não seria longo, caso a economia mundial não se recuperasse, o que realmente não aconteceu, ao contrário piorou. Assim descrevi:

“A aposta de Lula, seguida por Dilma, era de que EUA ou UE superariam a crise em três ou quatro anos, o que parecia plausível naquele distante novembro de 2008. O Brasil então soltou às amarras da economia para crescer e aguardar que um novo ciclo se iniciasse. O que percebemos é que o auge deste processo se deu até julho de 2010 – o ciclo virtuoso começava a ter problemas. Com a paralisia do mercado mundial, a inflação ameaçava o crescimento interno. Em agosto de 2010 começou lento processo de ajuste, uma tentativa de acomodação “suave” do Brasil diante da crise. Percebia-se que a crise econômica mundial seria mais longa. Os EUA e (muito menos) a Europa não davam sinais de que retomariam o ciclo virtuoso. Ao contrário, os constantes QE (expansão da base monetária) exportavam a inflação do centro desenvolvido para o mundo, o que dificulta em muito os ajustes locais”.

“Dilma recebeu o governo em situação bem melhor que a de Lula ao suceder FHC, mas sob turbulência mundial muito maior, na qual a crise na Europa, por exemplo, apresenta cenário de recessão longa. Os EUA, com sua tímida retomada, não garantem um novo ciclo de crescimento, principalmente porque a ameaça passou a ser Zona do Euro. São dois anos de voo baixo, lutando a duras penas para não pousar de vez. Ainda assim os resultados no Brasil são significativos, como o mercado de trabalho em expansão”.

Por fim disse diretamente: “A resposta, agora, parece clara: sim, a Crise 2.0 chegou aqui, por volta de agosto de 2010, mas o Brasil não vergou, o que é muito, muitíssimo. Mesmo num cenário pessimista como o da OCDE, o Brasil não recuará, mas o nível de compreensão e apoio terá que ser maior, muito maior”.

Feita esta introdução passemos ao entendimento do que assistimos nestes últimos 15 dias, uma rebelião, que guarda três signos 1) A Crise passou a ser sentida, em particular nas classes médias e alta; 2) A tolerância com os governos do PT, era graças a sensação de estabilidade econômica, então agora os graves erros da época do Mensalão, acabou; 3) Todo o ódio de classe, mesmo que difuso se liberou.

Mesmo com os números da economia em ordem, a sensação de que algo não vai bem se generalizou, o maior sintoma é na Inflação, que passa a pressionar o governo que caminhava firme na política de diminuição dos juros, mas recuou diante do velho fantasma, mesmo que de pouco vulto, ainda assombra. As várias desonerações e planos e mini-pacotes de combate à crise acabam trazendo poucos resultados palpáveis, combinado com uma péssima comunicação do que se está a fazer. As medidas acertadas de diminuição do preço da energia e os impostos da cesta básica foram espertamente incorporados ao lucro dos supermercados, sem que o governo reagisse.

O estopim desta revolta começou pelas passagens de transportes coletivos, que mesmo atenuados pelo corte impostos do Governo Federal, não foram suficiente para que eles não subissem. A pauta era simples e de fácil debate, cabia aos prefeitos e governadores (caso de SP e RJ que são responsáveis pelos trens e metrôs), tomassem mais medidas para evitar o aumento, ou atender a reivindicação elementar, daquele movimento ainda não massivo.

A demora de entender o que estava acontecendo, combinado com a repressão brutal da polícia fez crescer o movimento, mas não apenas ele, a sua pauta explodiu. Articuladamente aquele velho ódio aos Governos, aos Políticos e aos Partidos virou o combustível ideal para um novo ambiente. A pauta sem fim, perfeitamente desencadeada, sem um objetivo claro, parecia não encontrar alvo nenhum, no entanto, espertamente se mostra que quando se tem alvo específico, centra-se no principal, mesmo que não seja de sua responsabilidade, a Presidenta Dilma.

Este movimento encontrou eco enorme nas redes sociais, um ambiente de aparente informação, mas que se demonstra muito mais desinformado, a comunicação cifrada, rápida, pouco dar espaço a um debate mais coerente e estruturado, o grupo que liderou os primeiros passos foi usurpado por setores que pregam o ódio aberto “contra tudo e contra todos”, com uma fascistização que impede a menor abordagem. A selvageria contra os militantes políticos de partidos, sindicatos e depois do próprio MPL (Movimento Passe Livre), demonstrou que ali se perdeu qualquer controle.

Saiu do centro o debate das passagens e entrou uma certa “5 causas”, que surgiu aparentemente do nada, mas coincidia com o desejo do Ministério Público na sua luta contra a PEC37, que segundo eles era a PEC da Impunidade. A facilidade de transformar em bandeira “contra a corrupção” foi espantosa e eficiente, quase ninguém sabe o que realmente a PEC 37, mas todos aceitaram que ela é dos “corruptos”, dos bandidos, dos políticos. Uma visão rala, mas ideal para quem manipula um movimento sem norte público e aparente, sem rosto e com obscura face ideológica.

Este caldo de cultura levou os mais afoitos ao tal “Fora Dilma”, Impeachment, ruptura democrática e toda sorte de objetivos. Gente que sempre odiou greves passou a divulgar uma “greve geral” sem sindicatos, organizações políticas e os partidos. Por fora começa aparecer os surfistas da Tsunami, velhos políticos agora se apresentando como sendo “contra os partidos”, como Marina, Senador Cristovam Buarque, Bob Freira e acreditem até membros do PSDB. Todos apoiando firmemente que caminha para um emparedamento de Dilma, apeando pela força, uma Presidente eleita.

O papel nefasto da mídia nos últimos 11 anos em que fez oposição irrestrita aos governos do PT, agora tentam galopar este movimento. Televisão como Globo e Record sem nenhuma tradição democrática, aparecem como paladinos da ética e da moral. Buscam galvanizar o movimento, no limite não querem o impedimento da Presidente, mas ficaram extremamente satisfeitos com a inviabilidade de seus mais um ano e meio de governo. Uma polarização à la Venezuela, ou como chamo Venezualização do processo político parece ser um subproduto desta radicalização.

Repetindo o que escrevi ontem qual a maior tarefa do governo Dilma diante do quadro? para mim,  Dilma em pessoa deveria chamar estes manifestantes para sua porta e dialogar, depois ir com eles ao Legislativo e ao Judiciário para que cumpram sua parte. Momento é de passar o país a limpo, romper com velhas práticas, galvanizar para as mudanças toda esta força que se gerou nestes dias. Separar das garras dos oportunistas de sempre, dos golpistas, das pautas mesquinhas e dos canalhas que querem apenas destruir TUDO, principalmente o que se conseguiu de avanços nestes últimos 10 anos.

Dilma deve chamar o povo e sair da letargia, não há outra forma de combater um movimento articulado pelas mãos “invisíveis” de velhos golpistas, do passado e do presente, tática já usada largamente em vários países da América Latina, sendo o Brasil a “joia da Coroa” com suas imensas reversas do Pré-Sal, do imenso aquífero e de uma economia floresceu a despeito da crise. Pode existir tudo, menos “anônimos” nestas manifestações.

Outra questão que está bem nítida é que estes dias estão sendo o  outono de toda uma geração de quadros e de militantes políticos que, se refletirem bem, buscariam a aposentadoria honesta, principalmente aqueles que se acomodaram na burocracia sindical, partidária ou na do Estado. Outra conclusão que seria cômica, se não fosse trágica: Os militantes da esquerda mais radical do PSOL e PSTU que, corretamente, na sua lógica de fazer política, apontaram as baterias contra Dilma, foram expulsos do movimento, agora buscam unidade com os “traidores” do PT, PC do B.

Voltando, a Loucura sempre revela um método, cabe a nós verificar qual é e, assim, melhor combater.