A Importância da Leitura na Formação Intelectual

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Ao voltar a escrever sobre Literatura, com a indicação de um maravilhoso livro, A Cidade Antiga, de Fustel de Coulanges (post A Cidade Antiga – Grécia e Roma ), fiz uma viagem de mais de 20 anos da minha vida, uma história dentro de outra história, certo que já contei algumas vezes, mas alguns detalhes sempre escapam.

É quase um roteiro de formação intelectual e humana, pelo menos foi o meu, quem sabe ajude alguns que buscam estudar, mas nem sempre sabem por onde começar, se é que tem por onde, pois, para mim, TODA leitura é válida, naturalmente podemos refinar e achar um caminho. É preciso identificar o contexto da minha jornada, para entender o meu mergulho.

Por volta de 1991, com a certeza de que o muro de Berlim não significaria uma “nova revolução”, como sonhavam os trotskistas, muito menos que Gorbachev/Yeltsin era um novo alento ao socialismo real, como chegamos a pensar, a esquerda entrou em crise geral, no mundo.

Aqui, no Brasil, não poderia ser diferente, a crise foi mais acentuada pela baixa formação política e intelectual dos partidos e grupos. O momento poderia/deveria servir para uma profunda reflexão não apenas sobre a experiência do leste, mas sobre que tipo de sociedade efetivamente nós buscávamos.

Vários de nós, em pequenos grupos e círculos intelectuais, voltamos aos estudos dos clássicos, não apenas os escritos de Marx, mas de toda a tradição humanista, especialmente a ocidental. Fomos revisitar os filósofos gregos, os cânones literários, as fontes únicas do pensamento humano.

Esta dolorosa tarefa no meio militante organizado sempre foi muito complicada, cheia de barreiras, parte dos dirigentes despreza a ampliação do conhecimento, pois as tarefas diárias se impunham, criando uma contradição entre teoria e prática. A baixa compreensão, da formação política e intelectual também se torna adversário deste “mergulho”, tendo o estudo individual, a única saída. Assim o fiz.

Particularmente, entre 1991 e 1994, foram anos gloriosos, pude estudar e ler muito, boa parte da minha formação se deu ali, nos anos 80 já tinha participado de grupos de estudos e leituras, sempre ligados aos clássicos marxistas, fruto da luta ideológica da época. Porém, no início dos anos 90, a leitura foi direcionada de forma ampla, fui aos clássicos em geral.

Acredito que deva ter lido por volta de 250 a 300 livros naqueles quatro anos. O roteiro da aventura foi longo, mas não aleatório, segui um caminho, um método, que já tinha usado nos anos 80, ler tudo de determinado autor ou movimento literário.

Por esta lógica, recorri aos gregos: Sófocles, Eurípedes, Ésquilo, Aristófanes, Homero, Hesíodo, Tucídides, Platão, Aristóteles, depois aos romanos: Plauto, Terêncio, Suetônio, Sêneca, Virgílio. E por aí segui, visitando as escolas, a literatura e filosofia até o século XX. Passei por Dante, Boccaccio  Shakespeare, Goethe, Gil Vicente, Camões, Balzac, uma infinidade de autores, numa busca de conhecimento e humanidade. Era uma verdadeira aventura, sem cansar, cheia de prazer e significados.

Daquela época, guardo, ainda hoje, os livros rabiscados, marcados e comentados. Alguns deles com fichários, bem simples, como um resumo de busca aos temas, com páginas, frases. Mas o que mais me marca mesmo é, ao pegar determinado livro, lembrar o dia, lugar e até os cheiros dos lugares onde os li. O Decameron, por exemplo, devorei em quatro dias, li-o quando trabalhava numa fábrica de produtos farmacêuticos, dava manutenção num PABX, o cheiro era de cataflam, a produção ficava ao lado da minha sala. A fábrica era em Taboão da Serra, o percurso de casa para lá demorava quase duas horas,  aproveitava e ficando lendo.

Repetir o que fiz, entre os 22 e os 25 anos, talvez, seja meio impossível, tem que ter muita força de vontade, dedicação e disciplina, principalmente ficar longe de computadores, celulares e das redes sociais. No meu caso, foi um escape, como não tinha ido para universidade, compensava com estudos e dedicação de autodidata, era o que podia fazer na época, pois, não concebia ficar sem estudar, mesmo que não formalmente.

Tudo aquilo que estudei me serviu/serve na vida, nas minhas atividades práticas, as soluções de engenharia, exigem não apenas conhecimento técnico, mas principalmente abstração, imaginação. No Direito, que vim a estudar bem depois, é a mesma coisa, sem leitura e criação não se consegue muita coisa.

Ler, ainda é a maior aventura, não importa o meio ou o que se leia, o que importa é o desejo e o prazer da leitura.

admin

Nascido em Bela Cruz (Ceará- Brasil), moro em São Paulo (São Paulo - Brasil), Técnico em Telecomunicações e Advogado. Autor do Livro - Crise 2.0: A Taxa de Lucro Reloaded.

7 thoughts on “A Importância da Leitura na Formação Intelectual

  1. Parabéns por este post em particular Arnóbio. Muito bem escrito como todos os outros que leio diariamente. O que me chamou mais a atenção é que eu por motivos e razões um pouco diferente tomei as mesmas atitudes. Semprei adorei ler, no caso história, Grecia, Roma, Egito, Imperios Inca, Maia, Asteca, formação dos EUA, revoluções burguesas e claro Industrial que deram origem ao capitalismo e a exploração de um homem pelo outro. Ler Maquiavel é fascinante e passado 500 anos ainda se mantém atual. Dai fui estudar Ciencias Sociais, o resultado é que fazer trabalhos e tcc foi facil demais. Por isso é que como dito no post ler é tão importante.
    Valeu.

  2. Parabéns pelo artigo, lembrei da minha infância, antes de ser alfabetizada, quando ficava de castigo,fazia desenhos imaginários na parede; alfabetizada lendo qualquer coisa que tivesse por perto. Daí, castigo para mim era diversão. Com o tempo ler tornou-se um prazer.

  3. Nobim,
    Como te admiro, respeito e me deleito com suas crônicas e prosas. Te amo! Saudades de nossas conversas me levam a viagens incríveis! Parabens!

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