Faetonte – A Queda

 

A Queda de Faetonte, 1604, Rubens

“não corras rasteiro à terra, nem levantes voo até o céu. Caso contrário, incendiarás o planeta ou abrasarás o céu. Voa no meio e correrás seguro!” (As Metamorfoses – Ovídio)

As várias interpretações que cabem num determinado mito, são as coisas mais interessantes no estudo da mitologia grega, neste aspecto, busco conhecer estas variantes e trazer aqui no blog, sempre que possível a riqueza das muitas analises, umas viagens cheias de sentido e imaginação, o que torna a vida com mais sentido, rica e mágica. Fugimos assim, da crua realidade, passamos a sonhar e, quando possível, a interpretar estes mundo fantástico, que é nossa psiquê, nosso outro Eu.

Tratamos do mito de Faetonte no artigo – Faetonte – O Brilho Fugaz – agora passamos a entendê-lo sob vários ângulos, o mais simples é a questão do Métron, a palavra grega que define a medida, os nossos limites, quando ultrapassamos, o castigo é a dura queda. A hybris do herói, de já falamos no post A questão do Herói – Grécia sopra sobre nós, de como ele por sua força e explosão perde a razão e o sentido, como Ajax, tomado de ódio mata todo o rebanho grego ( Ájax – Herói e sua Hybris ).

O paí mítico de Faetonte, Hélio, uma divindade solar, dividia com a Apolo a cosmogonia da representação do Sol, cabendo a Hélio a força da natureza, o Astro-Real, sua luminosidade que fertiliza a terra, que regula as estações e a produtividade. A Apolo cabia a harmonia da criação a luz criativa, espiritual, até porque sendo filho de Zeus e Hera, os deuses olímpicos, ultrapassa a divindade telúrica, filho de titãs, ou velha divindade ou ordem social política dos deuses e  dos homens.  Como nos dá conta Junito : “O sol, entretanto, não é adorado somente como astro real, que ajuda a provocar a eclosão dos frutos da terra. A simbolização mítica é caracterizada por uma tendência geral em transpor a produtividade exterior e vegetativa para um plano psíquico e moral. Desse modo, os frutos da terra convertem-se no símbolo dos ‘frutos’ da alma, dos desejos e de sua espiritualização-sublimação. Sob esse enfoque, o sol transmuta-se em índice da produtividade da alma, da harmonia das aspirações. Ora, o mito grego retrata a força suprema do espírito e da alma, a verdade e o amor através de duas divindades supremas: Zeus e Hera. Como conseqüência, miticamente falando, os filhos dessas qualidades excelsas são a sabedoria e a harmonia, estampadas em Atená e Apolo”.

Dito isto,  o herói Faetonte, por sua ascendência paterna é ligado à natureza, à força, mesmo sem ter a verdadeira força, sua busca pela Luz, no sentido psíquico e esotérico, não se dá pela construção de valores morais  e harmonia, adjetivos dos descendentes de Apolo, mas num processo de conhecimento e vaidade da alma. Quando procura o pai, ele quer provar aos outros sua natureza divina, para receber o devido reconhecimento. O ato da luz, fecunda, que ele deseja espalhar pela terra, simboliza a ambição tola de produzir, ele próprio, humano-deus, um ato que é divino, sem o dom da divindade. A sua natureza é externa, não interna, espiritual.

Mais uma vez Junito nos ajuda a entender mais a fundo a motivação do herói: “para Faetonte a busca do ‘Pai’ não obedece a motivação alguma interna, mas à indignação contra aqueles que o censuravam de vangloriar-se inoportunamente, dizendo-se ‘filho do Sol’, homem-espírito. O herói visa à ‘produtividade’, tentando comprovar sua identidade. Não é, pois, uma decisão interna, o amor por seu pai-espírito, que lhe fundamenta a decisão, mas esta, desde o início, é movida pela necessidade de brilhar e de impor-se. Faetonte se apressa em tornar-se espiritualmente produtivo, a fim de provocar a admiração por sua origem e seus feitos. A vaidade o espreita, desde a partida”.

O que conclui : “Todo o intuito secreto de Faetonte está condensado no simbolismo deste pedido e a tradução da imagem é a chave para se compreender o caráter do herói e, por conseguinte, a explicação psicológica do mito. A solicitação do jovem filho de Clímene não possui a obscuridade analógica habitual dos símbolos, mas parece, à primeira vista, conter a nitidez de uma simples metáfora poética”.

O que vai além do Mito de Faetonte, com lições duras para toda a humanidade, numa brilhante argumentação de Junito:  “Esse tipo de vaidade que ambiciona iluminar espiritualmente a vida, quer dizer, combater o erro a ponto de pretender salvar o mundo, é um dos aspectos mais freqüentes da exaltação, relativamente ao espírito. À medida em que se remexe a psiquê doente até os recônditos da motivação secreta, essa tarefa exaltada pode ser detectada em diversos níveis de intensidade e de disfarce em um bom número de estados de deformação psíquica e encontra sua explosão manifesta em certas formas megalômanas de vaidade delirante[…]No mito do filho de Hélio, cujo tema, consoante seu sentido oculto, é a elaboração vaidosa, que transforma a verdade em erro, o culpado não é o único a ser punido. A chama devoradora se espalha e atinge todos os mortais”.

 

 A reflexão máxima da vaidade, da ambição, da construção de vida baseada no resultado imediato e material, cujo “sucesso” é apenas o reconhecimento exterior de feitos, nem sempre heroicos, será que estas frases e comportamento estão distantes do mundo que vivemos hoje?. O Sentido da vida, é do que nos fala os mitos.

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: