“O segredo por si só aumenta o valor daquilo que se aprende”.(Plutarco)

 

Alimentação e Sexualidade

A mortal princesa tebana, Sêmele, que seria uma Avatar da Grande-mãe, recebe de Deméter o coração de Zagreu, antigo deus da Ilha de Creta, conhecido como Dionísio Antigo. Ela come o coração ainda “vivo”,  pulsante, ficando assim grávida de Dionísio. Noutra variante é Zeus quem a fecunda.

O ato de comer, neste caso um coração, está ligado à questão de alimentos e sexualidade, muito presente nos mitos gregos, bem como na cultura popular de qualquer parte do mundo. Os sacerdotes e sacerdotisas de Deméter, em Elêusis, se coroavam com ramos de romãzeiras, como símbolo da fertilidade, não sendo permitido aos iniciados comer-lhe os frutos, pois, se assim o fizessem, sua alma não penetraria no corpo cárcere.

Como nos ensina Junito de Souza Brandão, no seu Mitologia Grega: “A semente de romã, que condenou Perséfone às trevas, por uma contradição aparente do símbolo, condenou-a também à esterilidade. Paradoxo realmente aparente, porque a lei permanente do Hades prevalece sobre o prazer efêmero de haver ela saboreado uma doce semente de romã.

Dois pontos se devem destacar nessa desdita de Perséfone, que comeu, e à força, uma semente de romã. O primeiro é o poder de fixação que possuem, em muitas culturas, determinados alimentos e o segundo, a repressão exercida pelo homem sobre a mulher, através da alimentação.”

Nas cerimônias religiosas de casamentos, antigamente determinados alimentos faziam parte da garantia de felicidade e conseqüente fertilidade do enlace. Tanto na Grécia como em Roma, comer o bolo nupcial era o ponto alto do rito.

“O fecho da cerimônia, τέλος (tò télos), “término, fim”, simbolizava a mudança de lar e a fixação da noiva em seu novo domicílio, mas o ato representativo dessa transferência era comer com o noivo um pedaço de um bolo especial feito de gergelim e mel, bem como um marmelo ou tâmara, símbolos estes últimos da fecundidade.”

Claro que ainda hoje o bolo é símbolo do casamento, e os pequenos pedaços de “bem-casados” são distribuídos aos convidados que compartilham da felicidade dos nubentes.

Mas a relação mais implícita de sexualidade e alimentação é o ato da amamentação, vista do ponto de vista psicológico e analisado por Havelock Ellis: “A mama inchada corresponde ao pênis em ereção; a boca ávida e úmida da criança corresponde à vagina palpitante e úmida; o leite, vital e albuminoso, representa o sêmen, igualmente vital e albuminoso. A satisfação mútua, completa, física e psíquica da mãe e da criança, pela passagem de um para o outro de um líquido orgânico e precioso, é uma analogia fisiológica verdadeira com a relação entre um homem e uma mulher no ponto culminante do ato sexual”. Mais ainda diz Roger Caillois : “A semelhança de conformação entre as extremidades orais e vaginais, animal, é um fato devidamente estudado”.

A fêmea devoradora e o complexo de castração

A ligação da sexualidade e alimentação, em algumas espécies, leva a fêmea a devorar o macho, como no caso do Louva-a-deus, a borboleta. A aranha-rainha, após o coito, decepa o pênis e mata seu macho no extremo orgasmo. Muitas mulheres dão a “dentada da morte”, um simbólico e inconsciente ato de devorar o homem.

Aliás, este é o maior receio do homem, ser devorado pela mulher, como diz Junito “É o interior da vagina dentada, identificada com a boca, suscetível, por isso mesmo, de cortar o membro viril, no momento da penetração. O desenho da coletânea de poemas de Charles Baudelaire, Les Fleurs du Mal, que estampa uma mulher com a epígrafe Ouaerens quem devoret, “buscando a quem devorar”, é muito sugestivo a esse respeito”.

Consubstanciando uma nova questão o complexo da castração, nas culturas antigas os noivos eram substituídos por presos ou estrangeiros pelo receio de, de ao deflorarem as noivas o sangue do hímen os matasse. Noutros casos os maridos no ato de defloramento das esposas gritasse durante o todo o ato pela deusa Pertunda (Vara de lado a lado), atestado por Santo Agostinho em sua obra De Ciuitate Dei.

No Rigveda, da cultura Hindu, eles consideram venenosas qualquer peça ensangüentada vinda do rompimento do Hímen, além de afastar do convívio social as mulheres menstruadas, ela são como um tabu, mas no fundo é o receio da castração.

Lembra-nos ainda, Junito, sobre a questão da castração e fêmea devoradora:

“No mito são muitas, já o vimos, as figuras femininas devoradoras, cuja projeção é a Giftmädchen, quer dizer, a donzela venenosa: Lâmia, as Harpias, Empusa, Esfinge, as Danaides, as Sereias. . . E não é este também, em última análise, o sentido do mito de Pandora, que trouxe como presente de núpcias a Prometeu uma jarra ou uma caixinha, que, aberta, deu origem a todas as desgraças que pesam sobre os homens?

Ora, caixa, caixinha, em grego diz-se pyksís, pyksídos que o latim clássico simplesmente transcreveu por pyxis, -idis. Do acusativo singular do latim popular buxida, de buxis, simples alteração de psyxis, -idis, temos o francês boiste e depois boîte, caixa, cofre pequeno e trabalhado e também cavidade de um osso, bem como o português arcaico boeta e o clássico boceta, caixinha redonda, oval ou oblonga que, na linguagem chula, passou a ter também o sentido de vulva.”

É o mecanismo de defesa que ativa o cérebro do homem de perder sua força para mulher “devoradora” que após o ato sexual os torna mais fracos suscetível aos inimigos. No dizer do tabu nordestino apanhado por Câmara Cascudo: “Cangaceiro andou com mulher, abriu o corpo”.