Crise 2.0: Euro ou UE, o que se salvará?

 

Euro e UE, quem sobreviverá à Crise 2.0?

 

O caráter da Crise é grande questão que estamos debatendo aqui nesta série que denominamos de  Crise 2.0, neste último ano a crise se deslocou dos Eua para Europa, não saindo do eixo vital da Economia Capitalista, atingindo em cheio, primeiro os Eua, durante 6 longos anos, o início dela se deu no pico da superprodução em meados de 2005, explodindo à olhos nus em Setembro de 2008. A Europa, foi arrastada para o olho do furacão em 2009, tendo o ápice e sua centralidade, desde junho do ano passado, numa sequência de queda em cadeia, que atingiu Irlanda, Portugal, Grécia e finalmente Espanha.

 

Há cerca de dez dias o Senhor Charles Kupchan, que  é professor de Relações Internacionais na Universidade de Georgetown e colaborador sénior no Conselho de Relações Externas, Ex-diretor de Assuntos Europeus no Conselho Nacional de Segurança durante a primeira administração de Bill Clinton, entre 1993 e 1997, escreveu um artigo muito instigante sobre a questão do Euro e UE, intitulado: “The euro can be saved. Can the E.U.?” (The Washington Post, 1 June 2012). Hoje, publicado no jornal Estado de S. Paulo, achei relevante trazer para debate aqui neste espaço, pela relevantes informações contidas nele. Não se espantem com o liberalismo exacerbado do autor, ninguém vira conselheiro da presidência dos EUA  do nada, leiamos:

“Depois de mais de um ano em crise, os países da zona do euro ainda lutam para salvar sua moeda comum. Seu plano é o comprometimento com uma disciplina fiscal necessária para acalmar os mercados financeiros e, ao mesmo tempo, a introdução de medidas que estimulem o crescimento. E provavelmente terão sucesso. Independente de a Grécia sair ou não da zona do euro, a Alemanha no final fará o que for necessário para manter a moeda viva: o euro é forte demais para fracassar. A chanceler alemã, Ângela Merkel, e o presidente francês, François Hollande – líderes da parceria-chave que escora a União Europeia – parecem seguir na direção de um compromisso entre a austeridade, na qual Berlim insiste, e o estímulo, preferência de Paris”.

 

Apesar do otimismo econômico, que não concordo, mas de forma clara ele localiza as divergência entre Paris-Berlim dão o tom, mas aqui começa a mostrar qual o centro do problema na Zona do Euro “O aperto de cinto proposto pelos alemães, necessário para reduzir a dívida, está produzindo uma revolta popular contra a UE que pode ser sua ruína. Uma brecha perigosa foi aberta entre a governança coletiva que a Europa precisa para prosperar e as populações nacionais cada vez mais hostis ao projeto europeu. Salvar o euro é a parte fácil; restaurar a confiança na integração será muito mais decisivo e mais difícil”.

 

Depois prossegue com números sombrios e importantes do por que os trabalhadores e o povo em geral rejeita a condução econômica e política da UE: “A União Europeia apenas proporcionou anos sucessivos de dificuldades econômicas em nome da boa administração doméstica, mas, com isso, sufocou o crescimento. No final deste ano, o PIB da Grécia deve cair quase 20% desde 2009. Itália e Espanha estão de novo em recessão. O nível de desemprego dos jovens espanhóis está em 50%. A zona do euro, como um todo, registrou um crescimento zero no primeiro trimestre.Essas condições estão consumindo os elos que mantêm a UE unida.

 

O professor ainda percebe o tamanho do problema se expressa de forma decisiva nas eleições com derrota de 11 governos desde 2009: “Muitos dos principais partidos estão convergindo para o centro ideológico e firmemente comprometidos com a união. Mas os partidos políticos tradicionais estão perdendo uma fatia de mercado para partidos menores da esquerda e da direita, muito menos animados com a UE. Nas eleições gregas no mês passado, a porcentagem de votos obtida pelos dois principais partidos despencou de 75% conquistados nas eleições de 2009 para pouco mais de 30%. Os principais beneficiários foram partidos contrários ao pacote de medidas de austeridade que a Grécia deve adotar para permanecer na zona do euro. […] alguns políticos que defendem a austeridade estariam se abstendo de aparecer em público, preocupados com sua segurança física”.

 

Mas não é só nos países em crise profunda que há um desprezo pelos partidos tradicionais de sustentação da política pró-UE: “No primeiro turno das eleições presidenciais na França, em 22 de abril, aproximadamente 30% dos eleitores votaram ou em Marine Le Pen, cujo partido de direita defende que a França abandone a zona do euro, ou no candidato da extrema-esquerda Jean-Luc Mélenchon , que frequentemente ataca o liberalismo econômico da UE e suas medidas que violam a soberania da França.[…] A história é a mesma na Itália. Em eleições locais no mês passado, um partido liderado por um cômico, Beppe Grillo, conseguiu avançar de modo importante frente às principais agremiações políticas. Grillo também defende que a Itália abandone o euro”.

 

O professor escorrega quando avalia erroneamente a a questão alemã “A economia alemã vem se saindo razoavelmente bem, mas os social-democratas e os democratas-cristãos estão perdendo espaço para os partidos alternativos. O apoio à UE continua sólido entre os eleitores alemães, mas eles estão cansados de pagar a conta dos pacotes de ajuda para países em dificuldade econômica dentro do bloco – e exatamente por isso Merkel está tão determinada a impor a austeridade a seus vizinhos”.

É senso comum dizer que os alemães pagam as contas da Europa, quando na verdade foram os de fora que elevaram a Alemanha a este patamar lhe proporcionando amplos superávits, conforme já tantas vezes escrevemos aqui e com os números apresentados. Merkel que impor mais austeridade, para retirar dos mais endividados os últimos centavos que lhes devem, não porque queira “salvar” o Euro ou UE.


O articulista se mostra preocupado com o baixo apoio à UE:  Em muitos dos países pesquisados, o apoio à UE caiu drasticamente nos últimos cinco anos, com apenas 28% dos checos, 30% dos britânicos e 43% dos gregos acreditando hoje que a adesão foi boa para seu país. Por toda a união as pessoas estão se revoltando contra Bruxelas e sua governança. Depois de décadas de complacência pública com a entidade, a questão da unidade há muito tempo tem sido tema de debate público: as pessoas discutem o assunto nos pubs, nos cafés, nas cervejarias, nas tabernas. Infelizmente para Bruxelas, a União Europeia tornou-se objeto de escárnio, não afeição.

 

E por fim um momento
de lucidez, quando afirma que “O euro provavelmente sobreviverá, mas a Europa corre o risco de se salvar apenas na forma, não no espírito. As instituições coletivas que dão vida à UE de nada servirão se os cidadãos considerarem essa união irrelevante, ou pior, ilegítima e ineficaz.Compensar os cortes draconianos com medidas que produzam o crescimento certamente vai ajudar. Perspectivas econômicas melhores deverão reduzir a hostilidade. Mas o crescimento não será o bastante. As bases políticas da UE estão muitíssimo corroídas”.

E distribuiu conselhos:  Para reverter essa erosão, os líderes europeus precisarão moldar a opinião pública, não só satisfazê-la. Foi somente no fim do ano passado que Merkel ousou repreender os eleitores alemães, advertindo-os de que a Europa “passava seu pior momento desde a 2.ª Guerra”, acrescentando que “o desafio da nossa geração é concluir o que iniciamos na Europa: criar, passo a passo, uma união política”. Cabe aos líderes europeus companheiros de Merkel agirem da mesma maneira e fazer com que seus concidadãos entendam que a Europa só poderá competir num mundo globalizado como um ente coletivo. Seus cidadãos podem se sentir mais tranquilos vivendo em Estados-nação autônomos, mas devem confrontar a realidade, de que uma União Europeia fragmentada cairá no oblívio geopolítico”.

 

Um texto longo, mas que demonstra como a inteligência acompanha a crise na Europa, suas preocupações sua firme torcida que Merkel imponha-se todos, um modo peculiar de ver comum aos liberais, dos EUA ou do Brasil, que constantemente citamos aqui.

 

 

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