Hipólito – castidade ou morte

Hipólito

Eurípedes

Mister seria que os mortais tivessem uma prova segura da amizade e o poder de enxergar, nos corações, qual o amigo sincero e qual o falso! Deviam ter os homens duas vozes; uma, a da retidão, e outra qualquer; assim, a que servisse em seus malfeitos seria confundida pela honesta e nós nunca seríamos logrados..”

Tema: Tragédia. Traição.

Resumo: Hipólito filho de Teseu é casto e só rende oferendas a Ártemis, Deusa da castidade e da caça,ao mesmo tempo Afrodite(Cípris), a deusa do amor sexual, que se vingará terrivelmente do jovem.

O Livro

Teseu já em idade avançada casa-se com Fedra filha de Minós a quem Teseu derrotara em Creta. De outro casamento anterior Teseu era pai de Hipólito, com a Rainha das Amazonas Antíope.  O jovem Hipólito era muito belo, mas optara pela castidade, prestando culto a Ártemis, deusa da caça e da castidade, irmã de Apolo, filha de Zeus e Leto.

A opção pela castidade, combinada com o desprezo a Afrodite, deusa do amor sexual, faz com que a ela sinta-se enciumada e quer a todo custo vingar-se de Hipólito.

Com sua arte de sedução, Afrodite, faz com que Fedra fique perdidamente apaixonada pelo enteado. A paixão é devastadora, aproveitando que Teseu, ficara um ano no exílio como castigo, Fedra se aproxima mais do enteado e com ajuda de sua aia, declara-se ao rapaz.

Hipólito fica espantando com tal revelação, renega qualquer possibiidade de romance com a bela madrasta, mas ao mesmo tempo jura que jamais revelará o segredo ao seu pai Teseu.

(…)

“FEDRA – Juraste bem. Examinando tudo, deveras descobri, neste infortúnio, um único expediente que assegure aos filhos uma vida sem desaire e a mim a salvação desta desonra. Somente por amor de minha vida não é que hei de infamar meu lar de Creta

nem de encarar Teseu no meu pecado.

CORO – Planejas algum mal irremediável?

FEDRA – Morrer; eu própria escolherei o meio.

CORO – Não profiras palavras agourentas!

FEDRA – Se queres também tu aconselhar-me, que seja um bom conselho. Se hoje mesmo abandonar a vida, darei gosto a deusa Cípris, que me está perdendo; eu terei sucumbido a Amor cruel. Porém, inda serei, depois de morta, a ruína de alguém, para que saiba não se ufanar de minha desventura e aprenda a moderar o seu orgulho,sofrendo o seu quinhão nesta desgraça.”

Porém, ao retornar do exílio, Teseu encontra Fedra morta, ela se suicidara, não sem antes deixar um bilhete acusando o jovem Hipólito de ser o culpado de sua morte. Teseu com muito ódio convoca o filho, este explica que nada tem a ver com o fato.

(…)

TESEU – Ai de mim! Como sofro! Foi esta, povo meu, a máxima das minhas desventuras. Ó destino, pesado te abateste sobre mim e meu lar, qual mancha misteriosa impressa por um gênio vingador; pior, como ruína que me torna impossível viver daqui por diante. Na minha desventura, contemplo um mar tão vasto de infortúnios, que nunca poderei salvar-me a nado, nem ao menos vencer esta vaga fatal que ora me assalta. Mulher infortunada, nem sei com que palavras definir teu destino cruel. (…)

TESEU – Já não posso conter no limiar dos lábios o mal insuperável que me arrasta à ruína. Ah! Povo meu! Hipólito atreveu-se a violar pela força meu tálamo nupcial, sem respeito ao supremo olhar de Zeus. Portanto, ó Posidão, tu que és meu pai e um dia me outorgaste três desejos, ouve o primeiro e mata-me esse filho! Se são certos os votos outorgados, que não possa escapar ao dia de hoje!

CORO – (horrorizada) Pelos deuses, meu rei, retira a praga! Dia virá em que hás de compreender que cometeste um erro; dá-me ouvidos.

TESEU – Não retiro; demais, vou desterrá-lo para que o fira um de dois destinos: ou Posidão, cumprindo o meu desejo, morto o enviará para a mansão de Hades, ou, expulso daqui, há de, no exílio, errante, consumir a vida em dores.

CORO – Bem a propósito, eis que surge Hipólito; é teu filho em pessoa. Ó rei, aplaca tua daninha cólera e resolve o que melhor convenha a tua casa.

HIPÓLITO – (entra com pequena escolta) Ouvi teus brados, pai, e vim a pressa. Não sei o que lastimas neste instante; quero ouvi-lo de ti. Mas, oh! Que houve? Vejo morta, meu pai, a tua esposa?! Minha surpresa é imensa! Ainda há pouco, quando a deixei, podia ver a luz! Que se passou com ela? De que modo veio a morrer? Quero de ti ouvir. Meu coração, ansioso de saber, mesmo ante uma desgraça não disfarça sua ansiedade. Porém, tu te calas? De que serve o silêncio no infortúnio? Aos amigos, meu pai, aos mais que amigos não é justo que ocultes teus reveses.

TESEU – Ó homens, vós, que tantos erros vãos viveis a cometer, vós, que ensinais ciências incontáveis, vós, que tudo descobris e inventais, por que será que uma coisa ignorais, nem buscais nunca aprender, que é ensinar sabedoria àqueles que carecem de razão?”

(…)

Teseu o expulsa do palácio e irrefletidamente pede aos deuses que puna o filho com a morte. Hipólito sofre um acidente e morre. A Deusa Ártemis conta a Teseu que o jovem era inocente.

(…)

TESEU – Acaso algum flagelo inesperado as cidades irmãs terá ferido?

MENSAGEIRO – A bem dizer, Hipólito morreu. Inda contempla a luz, porém exala os derradeiros hálitos de vida.

TESEU – Quem o matou? Talvez alguém que o odeia, por lhe ter, como ao pai, violado a esposa?

MENSAGEIRO – Causou-lhe a morte a sua carruagem e mais a maldição com que invocaste contra teu filho o deus do mar, teu pai.

(…)

VOZ – Nobre filho de Egeu, convido-te a escutar-me. Sou Ártemis, a filha de Leto, que te chamo. Por que, infeliz Teseu, te rejubilas? Deste morte sacrílega a teu filho; a mensagem falaz de tua esposa te fez acreditar no que era incerto e agora tens tua desgraça certa. E não vais esconder tua vergonha afundando na terra até o Tártaro? Ou, mudando de espécie, não te evolas fugindo da miséria pelos ares? Já não deves prover a tua vida entre os homens de bem! Eis, Teseu, um balanço de teus males. Deveras, não adianta e te magoa, mas venho tornar clara a inocência da alma de teu filho, cuja morte quer glorificar, e a paixão louca – ou nobreza, talvez – de tua esposa. Sim, pois, pungida do aguilhão da deusa que entre os seres divinos mais odiamos quantas nos comprazemos em ser virgens, estava apaixonada de teu filho. Tentou com a razão vencer a Cípris, mas sucumbiu, mau grado seu, às artes da ama, que a teu filho, sob penhor de juramentos, tudo revelava. Ele, por ser honesto, repeliu as propostas da ama e, por piedoso, não traiu o segredo que jurara, mesmo quando o trataste ignobilmente. Temendo a convicção de seu pecado, Fedra compôs essa falaz mensagem, que arruinou a vida de teu filho. Era um embuste e nele acreditaste.

TESEU – Que desventura a minha!

Pequeno Comentário

Esta tragédia traz a luz vários sentimentos e casualidades próprias da vida humana, Junito de Souza Brandão nos lembra, acertadamente, “motivo Putifar” que é acusação infundada de adultério, tramada por uma mulher com a qual o injustamente acusado e, quase sempre punido, se recusou a ter relações sexuais. Este fato é em Gênesis 39,7-20, a re
speito da inteireza, caráter e temor de Deus por parte de José.

De qualquer forma, o motivo Putifar representa sempre um situação crítica para o herói, conjuntura essa que se resolve ora tragicamente, com a morte, no caso de Hipólito e Eunosto, com a cegueira, como na punição de Fênix; ora de maneira menos violenta, como prova superada através de riscos tremendos, como a exposição de Tenes; com o exílio e a vida ameaçada, no caso de Belerofonte ou, eventualmente, a vítima se vinga mais tarde, de modo cruel, de quem o caluniou, como Peleu, que esquartejou Astidamia”.

O ciúme de Afrodite por que Hipólito não lhe presta culto deve ser entendido também do ponto de vista reprodutivo, pouco natural que um jovem príncipe, futuro Rei, recuse-se a fecundar, tarefa obrigatória ao cargo, que inspira crescimento, fertilidade e longevidade, o ciclo “‘natural” da vida.

Lição dolorosa é a de Teseu que não verificando os fatos, julga e condena o próprio filho, o amaldiçoando. Mas aqui também há o germe da tensão própria do choque de gerações que se sobrepõe a sucessão da casa real, o velho rei que terá que ceder o trono ao jovem príncipe.

Hipolito – Euripedes

0 thoughts on “Hipólito – castidade ou morte”

  1. Casos de psicopatia intelectualizada. Um desejo de filicida e patricida com seus complexos. E como comida para o intelecto, que a filosofia ppode aproveitar. A literatura pode aproveitar a antropologia pode aproveitar, a teologia pode aproveitar. Dilemas humanos com resolucoes psicopaticas. A mente em delirion nao suportando o estado de nao saber, nao ter aquela resposta moral definitiva

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