"O mundo é um moinho" – a política também

“Ainda é cedo, amor
Mal começastes a conhecer a vida
Já anuncias a hora de partida
Sem saber mesmo o rumo que irás tomar”
(O Mundo é Um Moinho –  Cartola )


Nestes dias, apesar dos graves problemas que tenho enfrentado li os post nos excelentes blogs e no Twitter dos companheiros Maria Frô (este inclusive da voz a Leandro forte para consubstanciar sua posição) e de Maurício Caleiro, aí esta música do Cartola não me saia da cabeça, não conseguia acreditar que valorosos companheiros que juntos demos o bom combate contra a Direita raivosa nas últimas eleições sucumbissem a coisas tão secundárias, do meu ponto de vista, claro.

Pensei em escrever um contraponto, pois respeito e admiro demais os meus amigos, mas vi que seria melhor relembrar o cenário pós-vitória de Lula em 2002, talvez ajude a baixar a fervura.

As grandes Expectativas em Lula e Dilma


As grandes expectativas que existiam na vitória de Lula, o ineditismo de um operário sem formação universitária chegou ao poder empolgaram toda uma esquerda de longa trajetória de luta, desde as célebres greves do ABC. Estas mesmas expectativas foram redobradas com o fim de um governo de mais acertos do que erros e que consegui mudar a cara do Brasil nos últimos 8 anos, com a vitória de Dilma, uma mulher que nunca tinha sido candidata a nada, vencer as eleições presidenciais foi algo formidável.

Passado dois meses um serie de polêmicas se estabeleceu no seio da esquerda organizada, e certa impaciência com os rumos de seu governo. Decidi relembrar um pouco do que foram os 2 primeiros anos, vejam não 2 meses, digo anos, do Governo Lula, apenas pra refrescar nossa memória e refletir melhor o momento.

Lula: o filho do ABC

Lula chega ao poder central depois de 25 anos das grandes greves do ABC que o projetara como grande líder de massas, não forjado em escolas tradicionais de sindicalismo comunista. Ele forja-se como peão que cresce dentro de uma fábrica num regime de exceção cujas liberdades sufocantes é a mola mestra do crescimento econômico, mas na segunda metade dos anos 70 os militares já não davam conta nem do crescimento econômico, bombardeado pela crise do petróleo, muito menos das demandas sociais por liberdade política. A esmagadora vitória do MDB em 74 e 78 prepara um novo ambiente.

As greves de 78/79 lideradas pelo metalúrgico até então desconhecido, são o tiro que faltava para deflagrar o grande movimento pela anistia, liberdade política. Em 80 a ultima tentativa dos militares foi liberar os partidos, com claro objetivo de dividir as oposições, daí surge a grande novidade política do Brasil, o PT.

Sem muitas delongas, este não é objetivo aqui, o PT se forja como a opção vinda da classe trabalhadora mais vitoriosa do país, desde seu inicio identifica a necessidade de chegar ao poder, e nove anos depois chega ao segundo turno da eleição presidencial deixando para trás lideranças expressivas como Brizola e Ulisses. Lula se consolidará como alternativa de poder nas próximas eleições, carregando consigo todo um simbolismo de lutas sócias e transformações.

Talvez lidar com estas grandes expectativas seja a parte mais complexa da montagem do governo inicial, como atender demandas reprimidas num ambiente econômico tão ruim?

2003-2005 Lula era um “traidor”?


Desde a montagem da equipe e de algumas medidas houve acertos óbvios e erros clamorosos inoperantes. A equipe econômica não poderia fugir da lógica do mercado, não havia qualquer espaço de manobra e as medidas tomadas foram coerentes com o momento para dar fôlego futuro: 1) Exportações; 2) controle da inflação; 3) aumento do salário mínimo acima da inflação (1,46%), nada mais podia ser feito de substancial.

Estabeleceu-se uma grande polêmica a ida de Henrique Meireles para o Banco Central. Meireles tinha sido Presidente do Bank Boston e depois eleito Deputado Federal pelo PSDB-GO, como todas estas credenciais uma área estratégica do governo foi entregue a um “adversário”.

A prioridade zero do início do Governo Lula foi a Reforma da Previdência II, um aprofundamento da primeira conduzida pelo Governo FHC, no movimento sindical e na esquerda petista houve grave comoção, inclusive Heloisa Helena, Babá e Luciana Genros foram expulsos do PT, vindo formar o PSOL.

José Dirceu que liderava a Casa Civil foi incensado pela imprensa como o homem forte do Governo, chegando a ser eleito a personalidade do ano. Era o interlocutor do grandes jornais, entrevistas nas principais revistas e TVs, a mídia estava apaixonada pelo governo que não lhe era hostil.

Do ponto de vista social o grande acerto foi o lançamento da “Fome Zero” era mais que uma marca, um compromisso para aquele tempo, mas faltaram gestores que entendessem profundamente como montar um programa social tão amplo.

Do ponto de vista político a não vinda do PMDB ao governo causou graves transtornos ao governo mesmo sendo vitorioso na eleição majoritária o governo era ampla minoria no congresso o bloco efetivo que venceu a eleição só tinha 192 deputado e pouco mais 20 senadores.

Os operadores políticos de Lula foram para tática de ganhar apoio no varejo e em bases partidárias que não tinham compromissos algum com o projeto, a troca de favores e futuros financiamentos de campanha virou a moeda de troca, notadamente com o PTB de Roberto Jefferson, que foi o partido escolhido para desembarcar estes “apoios”. A lógica traçada por Zé Dirceu deste tipo frágil de apoio desembocará no Mensalão, o valerioduto criado pelo PSDB mineiro, foi amplamente usado pelos operadores Petistas, a grande diferença é que, no caso mineiro não havia interesse em denunciá-lo. No caso de Brasília tornou-se o escândalo nacional, a mídia amplificou as denuncias, CPIs e toda sorte.

Por um erro tático de FHC e aliados, que achavam que Lula iria sangrar em praça publica e desagregar seu governo, ele não foram à frente com o impeachment. Por esta lógica qualquer candidatura de oposição bateria Lula no primeiro turno, este foi refresco melhor que Lula poderia receber.

Que conjuntura é esta?

“Ouça-me bem, amor
Preste atenção o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos”

http://www.vagalume.com.br/cartola/o-mundo-e-um-moinho.html#ixzz1EuBeYYiC
Vai reduzir as ilusões a pó

Em recente Post coloquei minha visão sobre o Governo Dilma e seus primeiros desafios, não pretendo ditar a verdade, mas abrir um debate sempre franco com esta parte da esquerda que pensa com mais com estrategia o futuro, que dar o bom combate, que não se furta de criticar, não diz amém. Mas ao mesmo tempo não é sectária e estreita, que sabe dos percalços de um governo de esquerda dentro da lógica capitalista.

Os desafios estão colocados, vamos abrir o debate, não acredito que depois de vencer a Direita agora abramos mão do Governo que nós elegemos, ao contrário do Maurício acho que a “primavera digital” nem se abriu no Brasil, temos muito a percorrer. Voltemos à razão cada um aqui tem sua importância política, mas não somos os donos da verdade, esqueçamos os excessos causados por um debate desgastante e sigamos juntos e em frente. Abr
aços fraternos e camaradas sempre.


0 thoughts on “"O mundo é um moinho" – a política também”

  1. Duas coisas me incomodam nessa discussão: esquerdistas hitóricos – sejam intelectuais, militantes, jornalistas -, se chamarem de burros e adjetivos afins… E por que não podemos criticar qualquer medida da Dilma? Por que não? O que é isso? Um grupo messiânico?

  2. Obrigado, Arnobio, pelo post que me fez refletir. Você sabe que o admiro e respeito muito e li com humildade a sua argumentação, torcendo no meu íntimo para que você esteja certo.

    Faço, porém, duas ressalvas: uma é que a situação herdada pelo Lula em 2002 era muito diferente, pois além da economia altamente deficitária e à beira da insolvência, ele herdou também a hegemonia intacta do ideário neoliberal. Agora, não. Ainda que existam problemas de caixa, a situação, do ponto de vista econômico, é consideravelmente menos grave e, do ponto de vista ideológico, Lula chegou a assinalar para uma forma de neokeyseanismo nos dois últimos anos de governo. Era de se esperar que Dilma buscasse soluções mais negociadas e menos ortodoxas no contexto dessa nova orientação. Mesmo porque, ao contrário do que Lula fez durante a campanmha de 2002 (Carta ao Povo Brasileiro), foi isso que ela assinalou na campanha.

    Não sei exatamente o que você quis dizer ao considerar “secundária” a razão para o meu afastamento da militância virtual da esquerda pós-lulista, mesmo porque ele se deve a uma série de fatores: as vicissitudes da blogosfera, o comportamento inicial de Dilma em relação ao MinC e à Folha e, sobretudo, a questão econômica – que para mim é central, jamais secundária. Na verdade, esquerda que defende neoliberalismo, para mim, não é esquerda.

    De qualquer modo, obrigado pelo contraponto.

    Um abraço,
    Maurício.

  3. Acho que as divergências tem que ser tratadas da forma como o Arnobio sugere nesse post: sem desqualificações, argumentando as suas opiniões, de forma ponderada e sem fechar a porta para o contraditório. Parabéns.

  4. Sei dos percalços mas, como vc já sabe, é impossível para mim acreditar e aceitar as decisões do governo Dilma. Entendo seu ponto de vista, porém, para mim não dá: 1)Pela minha formação intelectual e social; 2)Por ser membro do PT e ter nele apostado; 3)Pela campanha para eleição da Dilma; 4)Pelos objetivos que tracei para minha vida. Minha “implicância” é, portanto, de viés ideológico e social. Não creio que a política seja reduzida aos ditames da economia.

    Continue escrevendo! Vc sabe da minha admiração pelo seu trabalho e a pessoa que vc é.

    Abraços

  5. Seu pensamento veio ao encontro dos meus próprios pensares e sentires.
    Com relaçao ao posicionamento no blog de mariafrô,nem pensar que ela abandonaria
    o empreendimento. Jamé! Ela colocou firmemente sua opiniáo porque julgou oportuno, creio,
    e para muitos, como eu, isto foi favorabilíssimo, pois refrescou a minha memória quanto
    aos tantos e muitos e incontáveis desgovernos da Foia de SPaulo.
    Inclusive eu soube de coisas sobre o jornal da Baráo de Limeira, que eu desconhecia,
    (sáo tantos, que eu me perco no lixáo).

    Todavia, quero aproveitar para penhorar minha aprovação a Dilma no evento FoiaSP.
    Vi com outros olhos. Apenas isso. Olhares diferentes formam pensamento crítico.
    Mas náo incidem sobre minha Confiança, que para mim é Confiar.

  6. Sua visão política dos períodos que abordou é bastante clara e esclarecedora. Parabéns.
    Visite meu recém criado blog: campusaleixo.blogspot.com

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