Ode aos Poetas


Odisseus e as Sereias.

E como quem o anélito esgotava
Sobre as ondas, já salvo, inda medroso
Olha o mar perigoso em que lutava
(Inferno – Divina Comédia – Dante Alighieri)
Por vários aspectos da vida, não apenas o tempo cronológico e a idade que chega para todos de forma inexorável, a sensação do poeta florentino toma conta de nós, isso significa consciência dos que somos e nossos limites temporais. Perceber-se no “meio do jornada” é fundamental para que possa traçar a parte final com dignidade e dever cumprido.

Assim como o bardo maior latino, nos encontramos na mata escura e tenebrosa e acossados pelo leão e a loba, o que nos empurra para um caminho único rumo ao desconhecido, ainda que não saibamos ao certo como naquele ponto chegamos, nem como de lá sairemos, se é que haverá saída, ou ponto de retorno, cercados estamos pelas duas feras famintas.

Os poetas trazem a beleza da construção metafórica da vida e dos momentos em que nela estamos, isso nos ensina a compreender a nossa própria encruzilhada, como alguma graça e arte, mesmo que estejamos à anos-luz da força inventiva deles.

Através deles encontramos um alento para nossas dores e males, uma cura possível para o pessimismo, para desesperança e uma luz que alumiará os nossos labirintos, com o risco de encontrar a criatura de Minós e seus excessos.

A literatura é o fio de Ariadne, o cordão umbilical que nos guia no ventre, aquela que nos salvará de todos os  monstros, reais e imagináveis, das criações de nossa psique, hoje tão atormentada, e que parece que nem um arquétipo poderoso quer nos conduzir ao outro lado do mar vermelho, ou que teremos o mesmo destino de Moisés, condenado por D’Us por suas falhas tão humanas.

A viagem da literatura nos leva para os ciclos do inferno, ou os voos pelos campos do Dr Fausto, a corrida por Elsinor do príncipe louco, a solidão do Rochedo no Cáucaso daquele que prevê, ao exílio do cego rei em Corinto e suas reflexões sobre o seu metron. O mundo pequeno do Condado em oposição à terra média, entre anéis, anões, elfos e peregrinos.

Muito antes de qualquer tecnologia, a sofisticada mente humana e seus Aedos já cantavam Ilion e a rainha sequestrada, tinha criado Calipso, imaginando um barco que pode sucumbir porque seus marinheiros se encantariam com a sedução do canto das sereias. A deusa maior envolveu o pais dos deuses e dos homens em névoa e o retira das disputas terrenas, salvado os seus devotos, não os dele.

Mergulhar nos livros é encontrar a vida.

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