Carpideiras, Velórios e Luto Virtual Permanente

Chorar coletivamente a dor comum da humanidade.

A quantidade de mortes e exposição pública delas me trouxe à mente as Carpideiras, a nobre profissão de chorar no velório público alheio, uma arte em quase todas as culturas e praticada por mulheres, uma atividade profissional, Há registros na Grécia, Roma antiga, na Pérsia, na Mesopotâmia, no Egito, na Antioquia. Há também notícias dela no Japão e China.

Essa é uma prática milenar de chorar por alguém que morreu, em particular por aqueles com poder e dinheiro, pois as carpideiras eram pagas pelo serviço e pela comoção que causavam. A arte ainda sobreviveu até em épocas mais recentes em várias partes do mundo, inclusive no interior do Brasil, no nordeste ainda é comum em velórios e enterros observar mulheres de luto chorando, sem relação com a família do morto.

Nessa Pandemia com transmissão ao vivo, a publicização dos mortos, conhecidos ou não, claro que as figuras públicas causam maior comoção, os lamentos e os pêsames são constantes, em alguns momentos do dias, são tantas pessoas, amigos, ou amigos de amigos, parentes, que quase não dá tempo dessa solidariedade.

Estamos em luto permanente, posto que os velórios são permanentes, o aumento desenfreado, uma verdadeira escalada de mortes, nos deixa em estado catatônico, nem conseguimos respirar, absorver o impacto de uma perda, logo chegam mais e piores notícias. Isso sem falar da alarmante situação de colapso nacional do sistema de saúde, público e privado.

Na outra ponta, não se consegue enterrar, cremar ou outras formas de encomenda de corpos. Alguns lugares as câmeras frigoríficas de hospitais não dão conta da quantidade de corpos. O terror é que não há vala para todos os mortos.

As exéquias tão importantes para a religiosidade do morto e de suas famílias, entre elas, o velório, não são possíveis, o que torna ainda mais dolorido esse processo cruel em que vivemos. A elaboração do luto, aos rituais de passagem não são cumpridos, aumentando o desespero desse tempo cruel.

As despedidas, as condolências, agora se dão nas redes sociais, perdendo o caráter íntimo desse momento, até a privacidade das famílias com seus entes queridos ceifados pela Pandemia.

De certa forma, carpimos a dor alheia, em nossas redes, com o respeito e choro sincero, um rito comum de lágrimas digitais e registros através de mensagens.

Que fase cruel!!!

admin

Nascido em Bela Cruz (Ceará- Brasil), moro em São Paulo (São Paulo - Brasil), Técnico em Telecomunicações e Advogado. Autor do Livro - Crise 2.0: A Taxa de Lucro Reloaded.

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