O Outono de Lula?

Lula e o nobel da paz Esquivel em recente encontro em São Paulo.
“Pois saibas sem sombra de dúvida
que eu não trocaria minhas misérias
pela tua servidão; acho preferível
estar escravizado a este penhasco
a ser o mensageiro fiel de Zeus teu pai.
A injúrias responde-se assim, com injúrias”
(O Prometeu Acorrentado – Ésquilo)
Inconscientemente, Lula, busca sua condenação.

É uma questão da psiquê, mas com conteúdo Político extremo, sua prisão ao rochedo curitibano nos remeterá à Prometeu, aprisionado no Cáucaso. As condenações foram por razões torpes, acusação de roubar o “fogo”, ou melhor, a razão fundamental deles, foi a ousadia de enfrentar um Poder despótico, estabelecido, o Estado/Zeus. As condenações dizem mais sobre os seus algozes do que sobre eles, eis a terrível derrota dos “vitoriosos”.

A última entrevista de Lula, ainda que cortada/editada (digna de um Procusto moderno), mostra a plenitude de conhecimento do seu papel (Gnóthi s ‘aftón – Γνώθι σ ‘αυτόν – Conhece-te a ti mesmo) e consciência de quem é o maior personagem da história do Brasil, goste-se ou não dele, impossível ficar indiferente ou imune à paixão (pathos) despertada pelo herói. (A Questão do Herói)

Ele tem uma profunda consciência de quem é, do que fez, do seu papel, assim como constata, melancolicamente, seu outono, uma incrível clarividência do porvir, tudo isso por  pura intuição de que é um arquétipo de um herói, pois ele não leu ou ouviu os caminhos e histórias de um herói, nem se considera como tal, mas em si, carrega o peso e a responsabilidade de um, isso é fantástico.

Se o herói tem um nascimento difícil e complicado; se toda a sua existência terrena é um desfile de viagens, de arrojo, de lutas, de sofrimentos, de desajustes, de incontinência e de descomedimentos, o último ato de seu drama, a morte, se constitui no ápice de seu páthos, de sua “prova” final: a morte do herói ou é traumática e violenta ou o surpreende em absoluta solidão.

A compreensão do homem Lula vai muito além de nós mesmos, da Política ou filosofia, de nossos conceitos (preconceitos), partidários ou inimigos, pois, traz em si, algo de sobre-humano (mas não divino), maior, um lugar, como bem define Platão, um “intermediário entre mortais e imortais”.

O mais interessante é viver num mesmo espaço-tempo de personagem tão grande, ao mesmo tempo tão próximo, acessível, o que assusta demais aos que lhes devotam ódio ou profunda inveja. Ele não cansa de esbanjar superioridade intelectual e generosidade, como na saudação à pré-candidatura de Boulos.

Gênio, craque.

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