A invasão da sede do PT, um espetáculo farsesco.

A invasão da sede do PT, um espetáculo farsesco do Estado de Exceção.

“Do céu o Imperador, a rebeldia
Minha à lei castigando, não consente
Que eu da cidade sua haja a alegria” (Canto II – Infernum – Dante)

Lady Macbeth, atormentada pelos seus crimes, lava desesperadamente as mãos, pois as vias sujas de sangue de suas vítimas. O ato de lavar as mãos com muita água corrente serve para limpar a verdadeira sujeira, a da alma, aliás, a água como purificação é amplamente vista na Grécia antiga como no juramento pelas águas do Estige (rio do Hades – sem a conotação do “Infernum”) ou o mergulho reparador no Letes, o rio do esquecimento, que faz limpeza das faltas, culpas ou pecados.

A tal “mãos limpas” ou a “Lava-jato” guardam, em si, uma visão perversa de sociedade, pois acredita que fará a “limpeza” das mãos sujas (corrupção) com processos tocados fora da Democracia e da Política. Cerca de quatro anos fiz um pequeno levantamento do que houve na Itália depois de 1992, em que apontei que a economia vive em constante crise, que nem a chegada do Euro ajudou a romper o ciclo vicioso.

A queda da economia italiana se deu pela combinação de aspectos peculiares do seu desenvolvimento econômico e, em particular, pela crise de representação política, os dois fenômenos se retroalimentam incessantemente, pelo menos desde 1992, sendo acentuado com a deflagração da operação mãos limpas:

  1. A operação mãos limpas foi um amplo processo político e judicial de “limpeza” das instituições republicanas;
  2. Os partidos tradicionais – Democracia Cristã, Socialista e o Comunista sofreram duro golpe de credibilidade com a demonstração das suas relações incestuosas com a máfia e corrupção;
  3. O resultado imediato foi uma ampla reorganização no espectro político partidário italiano, mas que foi incapaz de evitar o pior: o ressurgimento burlesco do neofascismo;
  4. Reagrupados em torno de figuras exóticas, em particular o magnata corrupto Berlusconi, rapidamente chegam ao poder, galvanizando a descrença generalizada nos políticos tradicionais;
  5. A chegada da Zona Euro inicialmente amenizou a situação interna de perda de competitividade e importância da economia italiana;
  6. A necessidade de canalizar recursos e reestruturar as economias que aderiam ao Euro, em certa medida beneficiou a Itália a não ser foco de problemas;
  7. Mas a cambaleante economia local com altos índices de desemprego ou subemprego, larga precarização do mercado de trabalho jamais escondeu uma economia em crise acentuada;
  8. A combinação de governos bufos e economia baseada em grande endividamento público vão minando a Itália;

Fundamentalmente os atoleiros econômicos e políticos foram piorados com a intervenção dos “salvadores” e “justiceiros” sociais, a representação política decaiu a patamares inimagináveis numa sociedade tão politizada, o que levou a abstenção recorde de quase 40% nas últimas eleições. Além de Berluscone, o movimento de negação política do comediante Beppo Grillo teve a maior votação individual, suplantando a lista de esquerda e de Berlusconi, por meses ficou sem governo.

Uma reflexão se impõe: O caminho da judicialização da política, feita na Itália, com amplos poderes aos juízes e promotores, na tentativa de purificar a política, se mostrou um fracasso. Levou à “morte” da política, teve como herdeiro do processo um bufão midiático, sem ética, sem modos, corrupto e dado aos mais escandalosos bacanais, suas empresas amplamente beneficiadas com leis aprovadas no decadente parlamento.

A pergunta é clara: Será que é este o caminho, do Estado de Exceção, que se aponta no Brasil, com a sanha moralista de mídia (oposição), queda do Parlamento, Governo Golpista e na inação do STF?

As ações do consórcio de Curitiba (juiz/MPF/PF) transformadas em espetáculo que alimentam os boçais e as hienas sociais, para onde nos levarão? Pois, não acredito que o limite da perversão ficará no governo golpista de Temer, o pior ainda está por vir, nessa escalada louca.

Por fim, uma última reflexão sobre as águas purificadoras, mesmo Jesus, que veio ao mundo sem pecado original, no mito cristão, pois a virgem que pariu sem perder o hímen, precisa se banhar no rio Jordão e ser batizado por João Batista. Mais uma vez demonstrando a água, o líquido que limpa não apenas a sujeira do corpo, mas fundamentalmente a alma.