A ruptura era inevitável diante da política hegemônica alemã.

A ruptura era inevitável diante da política hegemônica alemã.

Hoje finalmente foi anunciado o divórcio de um tumultuado casamento entre Grã-Bretanha e UE. O relacionamento sempre foi conflituoso, em que jamais houve vivência sob o mesmo teto, ambos mantiveram suas casas e escovas. O tratado de Roma, em 1958, não teve a Grã-Bretanha como signatária, a adesão só se deu em 1973, ratificado pelo primeiro plebiscito em 1975 (com 2/3 a favor da permanência).

Em todos os acordos firmados e nas novas adesões à Comunidade Econômica Europeia (CEE), em regra, gerava problemas e intensos debates com os britânicos, mesmo entre os líderes entusiastas da participação efetiva, havia desconfiança em ir mais fundo. O temor do humor de mídia e da população impedia que se avançasse, a “perda” de soberania era a desculpa pública, mas a questão sempre foi ligada à economia.

Os anos de 1980, sob o domínio de Thatcher, que contribuí decisivamente pela participação britânica na CEE, se consolidou também uma oposição interna, os eurocéticos, de variadas tendências, tanto à esquerda, como pela direita. Os acordos de Fontainebleau, em 1984, mas principalmente o Ato Único Europeu consolidou o bloco, ao mesmo tempo que houve adesão de Thatcher pelo potencial econômico, porém representava um avanço sobre a soberania dos países, o que desagradava os britânicos, mais uma vez.

Entre 1988 e 1992, o surgimento do Mecanismo de Taxa de Cambio e as políticas econômicas e sociais sendo definidas em sua maioria por Bruxelas, complica a situação dos britânicos culminando com a “quarta-feira negra”, em 16 de setembro de 1992, que quebrou o Banco Central Inglês, num movimento de especulação liderado por Soros. O evento foi decisivo para que os britânicos jamais aderissem ao Euro.

O tratado de Maastricht, em novembro de 1993, a verdadeira fundação da UE e do Euro, foi o momento da primeira ruptura formal dos britânicos, pois se mantiveram na Comunidade, mas não aderiram à moeda única, a pedra angular do Mercado comum. A situação se arrastou por décadas, mesmo com o primeiro governo trabalhista, Tony Blair, um entusiasta da UE, não houve a adoção da moeda única. Ainda em 2003, o tesouro britânico fez um estudo em que apontava que teria, sérias dificuldades caso houvesse uma crise no Euro, portanto a manutenção da libra era essencial.

A grave crise de superprodução de Kapital, de 2008, coincide com o amplo domínio alemão sobre os demais membros da UE, ampla dependência econômica e tecnológica, se aprofundou rapidamente, em poucos anos, o mercado comum, foi dominado pelas empresas alemãs. A crise 2.0, ajudou para que a essa realidade econômica, de dependência, fizesse a ascensão política da Alemanha de Merkel, irresistível.

Em 12 anos (1999 à 2010) , os países do bloco enriqueceram os bancos alemães em 1 trilhão de euros. Sistematicamente, Merkel impôs duros ajustes aos governos eleitos de Espanha, Portugal, Grécia e até da Itália, todos foram monitorados e tiveram seus planos econômicos previamente aprovados pelo técnicos do Ministério das Finanças da Alemanha. As reuniões de Bruxelas passaram a ser formalmente para aprovar os “papers” de Merkel.

O limite da imposição e intolerância de Merkel se deu em dezembro de 2011, com a aprovação das medidas mais duras da UE, o que inviabilizou a relação dúbia do Reino Unido. Sinteticamente as medidas: a) Disciplina fiscal rígida com intervenção mais direta da autoridade do UE em cada país, ou seja, a perda parcial de soberania. b) Punição aos que descumprirem – a segunda medida é a exclusão dos “pecadores” com mecanismo mais rápido, dando pouca possibilidade de países ficarem na Zona do Euro sem se adequarem às suas regras. c) Fundo de resgate em substituição ao fundo de estabilização, este “colchão” maior permitiria uma intervenção mais precisa na crise.

Na época, fizemos o seguinte comentário: “O que nos parece óbvio é que, o caminho para consolidação da Europa Unida teve seu fim hoje, a Crise atual já produziu a primeira vítima global. A Alemanha e a França impuseram uma nova dinâmica: Ou adesão, ou nada. O Reino Unido sairá desta cimeira como aquele que resistiu mais uma vez aos “tanques alemães”, mas não estamos mais em 1945”.

Quase cinco anos depois, o dia chegou, conforme o site Euronews nos informa que “Membro durante 43 anos, o Reino Unido tornou-se esta sexta-feira no primeiro país a votar pela saída do bloco. David Cameron reconheceu o resultado, anunciou a demissão e diz que sai de Downing Street no espaço de três meses, assim que for escolhido um novo líder. Levanta-se agora a questão de quem poderá vir a ocupar o seu lugar”.

Diz mais “Nas urnas, os resultados não deixam margem para dúvidas. 52% dos britânicos votaram a favor da saída da União Europeia. Em termos de distribuição regional de votos, Londres, a Escócia e a Irlanda do Norte votaram claramente em favor do sim.”

As consequências serão graves, tanto internamente pois “Reagindo ao resultado, a líder escocesa Nicola Sturgeon já veio a público para anunciar que um referendo para a independência do país volta a estar em cima da mesa”. Externamente, na UE, pode haver novas rebeliões, o que a longo prazo pode significar o fim do bloco, como hoje conhecemos.

O que realmente não nos espanta, a Crise 2.0 fez a hegemonia da Alemanha sobre a UE, tornar-se mais clara, mas, ao mesmo tempo, a crescente onda dos neofascistas se impôs como força política decisiva, o que prenuncia guerras e rupturas mais fortes.

A desfaçatez de Merkel é incrível: “golpe contra a Europa, um golpe contra o processo de unificação europeia” (O Globo, 24/06). Ela convocou os capachos, François Hollande, o primeiro-ministro italiano, Matteo Renzi, e o presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, para uma reunião em Berlim na segunda-feira, na nota do Globo, “Tomamos nota com pesar da decisão da maioria da população britânica”, declarou Merkel.

O que virá depois?