Sucubêmcia de Cada Dia.

As dores que alma sente, que machucam, mas nos podem nos libertar.

“Que não me caiba em sorte essa próspera vida de dor, nem essa felicidade, que dilacera o meu espírito!” (Medeia – Eurípedes)

Há dias em que bate uma profunda tristeza, em que a falta de perspectiva é tão grande que você não enxerga mais a linha do horizonte. Por alguma razão (lógica ou não) raramente estive nesse abismo, nesse impasse, porém, nessas poucas vezes, surgiu em mim uma energia vital que me impulsionou a lutar, a dar pernada, a bater os braços, para não me afogar. Reagir ainda que não se saiba onde a praia estar, a bússola não funciona, mas você nada pelo instinto de sobrevivência, que parece ser maior do que a melancolia que lhe tomou o espírito.

As luzes se acendem ao longe, quase sempre lançadas pelas pessoas mais inesperadas, não espere pelos que não virão. O atoleiro ou naufrágio é seu, ninguém mais é responsável, pouco ou nada vai adiantar buscar um culpado, pode ser que uma situação tenha importância crucial, mas perder tempo para transferir para outro o que lhe diz respeito, não resolverá seus problemas. A sua força mental será a única aliada nos momentos cruciais em que a desesperança parece governar. Lute.

Algumas noções de filosofia, dialética, especialmente lógica, acabam por ajudar de forma fundamental para sua reconstrução, manter a cabeça erguida, olhar para frente, analisar cenários, perceber em qual deles posso encontrar saída e chances de retomar a vida, a dignidade perdida por eventos fáticos, que dificilmente alguém escapará de enfrentar. Entendo que a sua reação contra eles, no fundo, é que fará a diferença, não se nos deixamos cair em contemplação e derrota.

A vida é enfrentamento. Desde sempre, nascer é uma violência, rompemos o ventre e saímos para o mundo, ou se adapta ao porvir, ou não se vive, não há opção, em particular para quem nasce entre os 99% da população do planeta que tem que lutar pelo mais elementar para a vida. Tudo o que virá é luta, batalhas, pancadarias, vitórias ou derrotas, o importante é estar preparado, pois o resto é Silêncio.

Escrever, mesmo sem “engenho e arte“, é uma saída, uma espécie de terapia, de falar mais alto, quase a gritar. O que se envia ao vento, quem sabe dali encontremos uma perspectiva ainda não tentada, no exercício de encontrar palavras, quem sabe achemos ideias? É a ilusão de transpor os campos, das variadas leituras, para mexer com as letras unido-as num sentido de libertação, que pode ser literal.

Num lugar secreto devo pagar a outra parte, o outro lado, aquele escondido no cérebro, que em momentos assim, meio confuso, teima em funcionar na mesma batida, quando precisamos de uma nova, completamente diferente, para encontrar novos caminhos, sonhos, ilusões.

E assim seguir, frente e em frente, pois, ao contrário de Prometeu que dizia “Tenho presciência exata de todo o porvir e nenhum sofrimento imprevisto me acontecerá”, nada disso tenho ciência, é lutar e enfrentar a escuridão do incerto.

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