A evidente ruptura da República avançou perigosamente. Chega!.

A evidente ruptura da República avançou perigosamente. Chega! (Foto: Valery Pugatch)

Pouco, ou nada, vai acrescentar à vida  das pessoas e de militantes, pós golpe, dizer que três anos atrás tivemos bons insights sobre o caráter golpista e o significado de virada de conjuntura das tais “jornadas de junho”. Revisitei os meus escritos de junho e julho de 2013, para verificar o estado de humor e temor que assumi imediatamente naquela época.

Instintivamente percebi que o desastre se avizinhava, em especial, pela paralisia sofrida pelo governo Dilma e a conduta de seus assessores, que não se deram conta do tamanho do buraco que o pais estava sendo arremessado> Segue, abaixo, uma seleção desses post, para compartilhar a visão daquele momento:

  1. Outono Militante ou o “tiozinho mensaleiro”;
  2. A “Revolução Cultural” do Outono
  3. O Fora Dilma(??) – A Loucura tem um Método;
  4. O Bastismo de Sangue de Dilma;
  5. PT volta à Planície
  6. A Psicologia de Massas do Fascimo – Ou, o Gigante Acordou

Minha caracterização era de que estávamos diante de um fenômeno de ruptura com o PT: “assistimos nestes últimos 15 dias, uma rebelião, que guarda três signos 1) A Crise passou a ser sentida, em particular nas classes médias e alta; 2) A tolerância com os governos do PT, era graças a sensação de estabilidade econômica, então agora os graves erros da época do Mensalão, acabou; 3) Todo o ódio de classe, mesmo que difuso se liberou“.

E observei que, mesmo o alvo inicial não sendo Dilma, logo se virou contra ela“o estopim desta revolta começou pelas passagens de transportes coletivos, que mesmo atenuados pelo corte impostos do Governo Federal, não foram suficiente para que eles não subissem. A pauta era simples e de fácil debate, cabia aos prefeitos (ônibus) e governadores (caso de SP e RJ que são responsáveis pelos trens e metrôs), tomassem mais medidas para evitar o aumento, ou atender a reivindicação elementar, daquele movimento ainda não massivo”.

Porém com “A demora de entender o que estava acontecendo, combinado com a repressão brutal da polícia (governos estaduais – Alckimin e Cabral) fez crescer o movimento, mas não apenas ele, a sua pauta explodiu. Articuladamente, aquele velho ódio aos Governos, aos Políticos e aos Partidos virou o combustível ideal para um novo ambiente. A pauta sem fim, perfeitamente desencadeada, sem um objetivo claro, parecia não encontrar alvo nenhum, no entanto, espertamente se mostra que quando não se tem alvo específico, centra-se no principal, mesmo que não seja de sua responsabilidade, a Presidenta Dilma”.

Apontei que em determinado momento a direção das jornadas mudou de mãos, com a entrada da Direita: “Este movimento encontrou eco enorme nas redes sociais, um ambiente de aparente informação, mas que se demonstra muito mais desinformado, a comunicação cifrada, rápida, pouco dar espaço a um debate mais coerente e estruturado, o grupo que liderou os primeiros passos foi usurpado por setores que pregam o ódio aberto “contra tudo e contra todos”, com uma fascistização que impede a menor abordagem. A selvageria contra os militantes políticos de partidos, sindicatos e depois do próprio MPL (Movimento Passe Livre), demonstrou que ali se perdeu qualquer controle”.

Surgiu, no meio dessa virada, o oportunismo do MP que passa a agir em dobradinha com os fascistas e derrubam a PEC37 “Saiu do centro o debate das passagens e entrou uma certa “5 causas”, que surgiu aparentemente do nada, mas coincidia com o desejo do Ministério Público na sua luta contra a PEC37, que segundo eles era a PEC da Impunidade. A facilidade de transformar em bandeira “contra a corrupção” foi espantosa e eficiente, quase ninguém sabe o que realmente a PEC 37, mas todos aceitaram que ela é dos “corruptos”, dos bandidos, dos políticos. Uma visão rala, mas ideal para quem manipula um movimento sem norte público e aparente, sem rosto e com obscura face ideológica”.

Também os velhos e oportunistas políticos se transformam em lutadores contra partidos (na verdade contra a Esquerda – PT/PC do B), “Por fora começa aparecer os surfistas da Tsunami, velhos políticos agora se apresentando como sendo “contra os partidos”, como Marina, Senador Cristovam Buarque, Bob Freire e acreditem, até membros do PSDB. Todos apoiando firmemente o movimento que caminha para um emparedamento de Dilma, apeando-a pela força, uma Presidente eleita”.

Tudo isso azeitado pela Globo e aliados “O papel nefasto da mídia nos últimos 11 anos em que fez oposição irrestrita aos governos do PT, agora tentam galopar este movimento. Televisão como Globo e Record sem nenhuma tradição democrática, aparecem como paladinos da ética e da moral”.

Três anos depois, o processo ainda não se fechou completamente, mas é evidente que vivemos num país bem pior, a  Democracia sendo inviabilizada, um golpe aplicado no parlamento concluiu a “tarefa” de derrubar o vacilante governo Dilma. Fechando o circuito macabro, a Política, foi devidamente criminalizada, o lugar-comum de que nenhum político presta, se impôs. A “casta de puros” avança de forma inexorável sobre a nação.

A herança de junho de 2013 é terrível, ainda não chegamos ao cabo dela, a cada dia gera mais insegurança, com nenhuma saída alternativa palpável que possa significar um “ponto de retorno” para que as instituições e o poderes da República se realinhem imediatamente.

É imperativo que o Estado de Direito se reerga e possa enfrentar o brutal Estado de Exceção, que está sendo construído de forma avassaladora pelo judiciário e MP. O país não tem mais Presidência, Dilma vítima de um golpe, Temer, o usurpador, agora caindo diante de denúncias graves. O Congresso completamente desmoralizado, Câmara com Cunha quase cassado e Senado com Renan na corda bamba.

Parece que não há mais espaço de manobras, dentro de uma restrita legalidade, não restando outra saída que não seja eleições gerais, conduzidas por Dilma, num processo transitório de poucos meses, com renovação do congresso e fim da escandalização midiática.

Definitivamente, junho de 2013, não teve nada de progressivo para o Brasil, é como vejo.