Vivemos a Derrocada Humana?

Paraíso Perdido, Gustave Doré.
Paraíso Perdido, Gustave Doré.

“Em vez de nós, expulsos, exilados,
Criada já existe a prole humana,
Prazer novo de Deus, e este amplo Mundo
Para morada deleitosa dela.
Foi-se a esperança… e não regressa nunca!…”

( Paraíso Perdido – John Milton)

Que ninguém se compare comigo ou viva o que vivo, mas, independente disso, o mundo anda muito chato e terrivelmente perigoso. Nosso maior delito é o de opinião, de ideias, na verdade, o contrário, a total ausência delas. O excesso de informações (opiniões passadas como informações) está nos tornando idiotas, bombardeamos intensamente as pessoas, o dia todo, a todos os instantes, sem nenhum filtro, nem compromisso com alguma verdade.

Bilhões de pessoas publicando, republicando, respondendo, atacando ou defendendo num caótico falso debate, que tem exatamente este objetivo, dá uma aparente ideia de que há liberdade de expressão e de opinião. Sobre qualquer tema, assunto, as enxurradas de publicações vão pontuando uma “verdade”, mesmo que distante da “verdade objetiva” (aquela que independe de nós e está fora de nós), criando um monstro de senso comum dos mais rasos e cheio de razões.

São tantas frentes de batalhas e de centros de distorções, que muitas vezes temas aparentemente já apropriados como de “domínio público”, viram alvo de controvérsias das mais estapafúrdias, uma insanidade completa, como se houvesse um centro de controle que incita aos questionamentos das questões mais elementares, gerando uma insegurança generalizada em tudo, contra todos, em especial contra qualquer “poder” estabelecido, quer seja governo, religião, ideologia, universidade, futebol, absolutamente tudo vira, nada.

A desconstrução de tudo é a melhor maneira de tornar qualquer debate num labirinto sem saídas, como se nada pudesse ser definido, conceituado. É uma vida sem norte, sem sul, ou seja, debates que não têm direção alguma, cansando a todos, para chegar a uma conclusão de não que há possibilidade de se saber quem pode está certo ou errado.

Este vazio, em breve, nos levará a acharmos que sabemos TUDO ou, pior, ninguém sabe de NADA. O que está em jogo é a ciência, a matemática, mais ainda a filosofia, a política, o que tornará inviável a Democracia.

O que me parece um grande risco para sociedade, pois quando ela não chega a nenhum consenso sobre qualquer coisa, o grau de animosidade e de violência aumentará de forma exponencial, o que nos remeterá algum tipo de imposição, os baixos instintos, a força bruta. O Estado só funcionará mediante uso da Força, de sua forma coercitiva e repressiva, abandonado a sua capacidade de mediação de conflitos através da busca pelo convencimento, mesmo aquele (consenso) que seja imposto por uma maioria, essa conquistada na sociedade.

A atomização social que vem sendo tecida a fio está nos levando a esse liberalismo canalha, que não reconhece nenhuma “verdade”, quer seja científica, menos ainda a social e, no limite, desmontará a vida humana. A pergunta que nos fazemos diuturnamente, nesses últimos anos, é: Para onde descambará a convivência humana, que prescinde de urbanidade mínima e elementar para sua sobrevivência?

Os ódios se sobressaem, em especial nas redes “sociais”, povoada de sociopatas, autoritários e donos de “verdades únicas”, as suas, que são a cada vez mais inegociáveis, como se a vida fosse apenas o seu próprio umbigo. 

A tese que venho advogando nesses últimos três anos sobre o Novo Estado, o Estado Gotham City, vem se consubstanciando a olhos nus, a desagregação social é parte fundamental do processo, como se fosse uma tática usada pelos velhos generais das antigas guerras, “dividir para conquistar”.

 

As últimas caravelas foram queimadas, as últimas pontes sendo destruídas, para que não ousemos olhar para trás, para que não resgatemos os sentidos humanos, os valores e patrimônio ético-cultural construído através dos séculos, dessa nossa curta existência terrestre.

O texto parece apocalítico? Sim, é. Até quando vamos nos desestruturar?

“Para o ar, e o que pareceu sólido

Dissolveu-se, como o suspiro no vento”

 (Macbeth – W. Shakepeare)

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