O Segredo Dos Seus Olhos

O Segredo dos Seus Olhos
Ricardo Darín e Soledad Villamil no fabuloso “O Segredo dos Seus Olhos”

Por uma feliz indicação do meu amigo Altair Freitas, grande professor de História e militante político, gravei e assisti ao majestoso filme argentino “O Segredo dos Seus Olhos” ( El Secreto de Sus Ojos), de 2009. Ver um filme na TNT é um parto, cortam constantemente a película e enchem de comerciais, o que torna a tarefa um martírio, mas gravando você tem a possibilidade de ir saltando os cortes, mesmo que a experiência continue sendo ruim, uma lástima de canal, só mesmo em ocasiões assim para suportar.

Dito isto, vamos ao que interessa, o filme é absolutamente lindo, uma obra de arte, intenso, tenso, sensível ao extremo cujo tema é a Paixão, que segundo um personagem especial, o beberrão Sandoval, “é a única coisa que não muda no homem, ele pode trocar de esposa/marido, de partido, de religião, de deus, mas nunca de Paixão”. Realmente é disto que trata de forma tão tocante o diretor, Juan José Campanella, durante mais de duas horas nos prende em sua narrativa humana extremada, a Paixão que nos move.

Benjamin Espósito (interpretado por Ricardo Darín), recém-aposentado de suas funções de oficial de justiça de um tribunal penal de Buenos Aires, resolve escrever um romance sobre um caso investigado por ele, ainda no início de sua carreira, a história de um assassinato passional, de uma jovem esposa por um amigo de infância que se apaixonara por ela, não se conformando dela ter casado com um “estranho”. O romance é a desculpa para Benjamin se reaproximar de Irene (a talentosa e bela Soledad Villamil), juíza auxiliar do caso e a eterna paixão dele.

A história da Argentina antes e durante a ditadura militar é o pano de fundo do filme, de como a sociedade foi se transformando violentamente, como a justiça contribuiu de forma decisiva para as barbaridades cometidas pelos militares e a relação perniciosa entre os burocratas do judiciário com o regime de exceção. Ali se tinha tudo, menos justiça. Tudo era permitido ao regime, mas a degeneração veio antes dos militares subirem ao poder, com eles,  apenas se tornou uma prática comum e pública da impunidade generalizada, das ameaças veladas a qualquer “inimigo” do sistema.

A delicada relação de Benjamin e Irene, uma paixão de toda vida, impedida pela hierarquia, depois pelos medos e por fim pelo regime. As possibilidades de se viver uma vida diferente da que cada um seguiu, de “como seria se”, atormenta os personagens, como atormenta a todos nós. A vida é o que se fez e o que se faz, raramente permite uma volta ao passado, como se fossemos retificar ou reparar um erro, ou a tomado de decisão “errada”, para que o presente seja diferente, para que haja outro futuro.

Tem como se rebelar contra o passado? Corrigir algo tão antigo, mudar o que já vivemos? Mais uma vez a resposta estar no que disse Sandoval, “mudamos tudo, menos nossa Paixão”. A Paixão não é algo abstrato, ela se concretiza nos olhos e nos seus segredos, como bem sabe Benjamin e Irene. Como bem sabia Morales, o jovem e apaixonado viúvo quando violentamente afastado de sua eterna Paixão.

Ricardo Darín é mais que um grande ator, talvez o melhor de sua geração, em certa medida o comparo a Benício Del Toro ou Javier Barden, para ficarmos em astros latinos. A vantagem de Darín é de ter permanecido na Argentina e se aprofundado em cada filme feito, ali ele tem espaço para exercer sua magia com tanto encanto, beleza e generosidade. Ganhou mais relevo quando recusou ir fazer cinema nos EUA ou não se interessar pelo Oscar. Assim resumido: “Hollywood não me tira o sono, o Oscar não me tira o sono. (…) Me criticaram muito porque dizer que não tinha vontade de ir ao Oscar, não porque não tinha vontade, mas “como vai dizer que não tem vontade de ir ao Oscar? Você tá brincando!’ Sim, não tenho vontade de ir no Oscar, qual é o problema? Por que tenho que ir ao Oscar? Por quê?”

Vale demais ver o filme, os atores, a excelente direção, filme que foi indicado ao Oscar de produção estrangeira, o que demonstra o quão estreito é o horizonte de Hollywood, reduz tudo a quase nada, diante de tão grande obra, um pequeno regalo, concorrer ao “filme estrangeiro”.

 

A recusa de Darin a Hollywood

Imagem de Amostra do You Tube

O SEGREDO DOS SEUS OLHOS

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