São Paulo, o Mar virou Sertão.

Chuva em São Paulo, a alegria de ver água nova.
Chuva em São Paulo, a alegria de ver água nova.

“o sertão vai virar mar, dá no coração
o medo que algum o mar também vire sertão” ( Sobradinho – Sá, Zé Rodrix e Guarabira)

Quando era bem pequeno, tinha cinco anos, houve uma “cheia” no Ceará, o ano era 1974, o normal lá era ter “Seca”, mas naquele ano foi muito diferente. A “Estrada do Barro”, um bairro pobre, foi o primeiro atingido pela cheia do rio Acaraú que passava a alguns quilômetros de Bela Cruz, ele se aproximou rápido da cidade e começou a desabrigar as pessoas, suas casas invadidas pela água e pela chuva incessante.

Da minha casa assistia ao triste espetáculo, pouco depois nós também tivemos que nos mudar para uma casa num bairro mais alto, dali tenho boa lembrança, para nós meninos, tudo parecia festa, mudamos de casa, mudamos de bairro, mas a nossa escola também foi atingida pela água. De onde estávamos olhávamos a cidade embaixo d’água, sem escola, sem o mínimo conforto, aquela chuva que fez o rio invadir nossa cidade nos assustou por um mês, os mais velhos falavam em dilúvio, castigo de Deus aos pecadores. Senti-me culpado, por também ser pecador.

Esta lembrança de abundância de água foi o contraponto do que vivemos entre 1978 a 1982, uma longa estiagem, a Seca que nunca acabava e que o sertanejo desesperado juntava o pouco que tinha e ia embora para São Paulo, expulsos pela falta d’água, por não ter como produzir o mínimo de sua subsistência. Nada brotava, tudo era perdido, o milho, o feijão, a mandioca, a fome e a calamidade se espalhou pelo interior do Ceará, atingindo Fortaleza, que recebeu os retirantes nos bairros periféricos, que também sentia água acabar.

Em 1983, meu engajamento político se deu numa campanha para arrecadar alimentos para os atingidos pela grande Seca, foram cinco anos seguidos quase sem nenhuma chuva, precisamente ali comecei a tomar consciência de como a água era um assunto político e estratégico para as velhas oligarquias dos velhos coronéis. A expulsão dos pequenos agricultores para Fortaleza ou para São Paulo alimentava o latifúndio, seus pequenos pedaços de terras eram incorporados aos grandes latifundiários, tornando ainda mais injusto o preço da dor e fome que os atingia. Épocas distintas de fenômenos da natureza, que combinados à política pública produziu mais tragédias, principalmente aos mais pobres, mas tudo dentro de lógica perversa que enriqueceu ainda mais o velho poder regional.

Tudo isto me veio à cabeça, justamente hoje que a cidade de São Paulo experimenta três dias seguidos de chuvas, o que antigamente aqui se dizia que o “tempo está feio, vai chover”, o que para meus ouvidos nordestinos era uma heresia, pois lá sempre aprendemos a dizer o oposto, “o tempo está bonito, é provável que chova”, esta expressão de alegria e felicidade, pois sabíamos que seria “ano bom”, com chuva, com milho verde, com feijão de corda, com fartura. Aqui em São Paulo a chuva lembrava alagamentos, transtorno urbano, atraso de compromissos, congestionamentos, jamais está ligada à vida, ao sabor da água, pois não valorizamos o líquido vital da nossa existência.

A “longa” Seca que pegou o poder público de São Paulo de calças curtas, não por falta de aviso, colocou a cidade maior do Brasil em alto risco. Milhões de pessoas passaram a ver a água como ela é, a fonte da vida, não aquela usada para lavar calçadas, carros e desperdiçar como se nunca houvesse amanhã. Os canos velhos e sem manutenção pela (in) ação irresponsável da SABESP, que joga fora quase 25% da água, mesmo assim distribuiu gordos bônus aos seus acionistas privados, agora se faz de coitada e culpa as pessoas comuns.

Anos e anos de irresponsabilidade, sem campanha de conscientização do uso racional da água, de como o bem é finito, confiando nos céus às chuvas abundantes, mas não se preparando para que um dia se ela não vier, termos uma boa reserva, que nos permita viver dignamente, não se submetendo ao “Volume Morto” com sua água suja, barrenta e não apropriada. O racionamento generalizado, não oficial, jamais assumido pelas autoridades incompetentes e autoritárias que preferem esperar por chuva ou soluções inapropriadas, esta é a triste situação, “o mar virou sertão”, cumprindo a profecia dos poetas e profetas.

Hoje, ontem, a chuva lavando a alma deste velho nordestino, que ama tanto a água, a mesma que pode nos dar a vida, mas também pode nos tirá-la. Respeitemos a água, a natureza, o ciclo da vida, talvez não seja por nós, mas pelos nossos filhos, netos.

Sobradinho – Sá, Rodrix & Guarabyra

Imagem de Amostra do You Tube

One thought on “São Paulo, o Mar virou Sertão.”

  1. “… os mais velhos falavam em dilúvio, castigo de Deus aos pecadores. Senti-me culpado, por também ser pe(s)cador.”
    Não tenho a honra de ser Nordestina, mas vivi infância, adolescência, Juventude e dali por diante sonhando que um dia Deus iluminaria a mentalidade superior da Nação e se faria rolar água pelo Nordeste, modificando a vida daquele povo que eu amava sem saber como nem porquê, além da cumplicidade na secura, além da dor da seca, da fome, do cabresto dos coronéis, além dos filmes de Walter Salles e tantos outros, além daquela música que igual não há no mundo inteiro, senão pelos lados do Oriente, da Índia, onde a escala musical vai além de do-ré-mi-fa-sol-la-si.
    Passei décadas com esse sonho: um dia esse sertão verá um rio, um dia esse sertão vira mar…
    E já está virando… porque os sonhos dos inocentes puros e bestas são sonhados no próprio Céu.

    Isto aqui atormentava minha alma: “A expulsão dos pequenos agricultores para Fortaleza ou para São Paulo alimentava o latifúndio, seus pequenos pedaços de terras eram incorporados aos grandes latifundiários, tornando ainda mais injusto o preço da dor e fome que os atingia.”
    E eu sonhava, rezava e pedia. Vai Deus, põe água no Nordeste…

    Em contraponto como tu tão magnificamente, tão cheio de alma escreveu: “em São Paulo a chuva lembrava alagamentos, transtorno urbano, atraso de compromissos, congestionamentos, jamais está ligada à vida, ao sabor da água, pois não valorizamos o líquido vital da nossa existência.”

    E olha no que deu…”a triste situação, “o mar virou sertão”, cumprindo a profecia dos poetas e profetas.”

    Bate na boca, dizia minha tia-avó benzedeira quando falávamos bobagens… Por isso. Porque tudo tem um retorno, mais dia, menos dia, o mundo gira, o deus Mu dança e a gente dança com ele. A vida, ou a morte.

    Arnóbio. Muto obrigada por ancorar com tuas sábias e belas palavras minhas memórias vívidas de gente do Sul.

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