O Messianismo Barato Ameaça a Democracia.

A Pitonista, a intermediária entre  Deus Apolo e os homens.
A Pitonista, a intermediária entre Deus Apolo e os homens.

“O deus soberano, cujo oráculo está em Delfos, nem revela, nem oculta coisa alguma, mas manifesta-se por sinais”. ( Heráclito)

O oráculo de Delfos era dedicado ao Deus Apolo, o exegeta nacional, ali, o onfalo, umbigo do mundo. O deus Oblíquo, através de sua pitonista, respondia às indagações de todos que buscavam sua ajuda. As respostas eram pequenas receitas de forma ambígua que davam margens a todo tipo de interpretação para estas mensagens cifradas, oblíquas. As consultas a Delfos eram quase obrigatórias aos reis, generais e políticos acerca de guerras ou disputas que as cidades-estados se envolviam, apenas a resposta/interpretação daria tranquilidade para prosseguir ou não as empreitadas.

Este aspecto místico da atividade pública e política vinda da Grécia até nossos tempos está gravado no nosso inconsciente coletivo, por isso gurus, xamãs e videntes ainda encantam e enfeitiçam as pessoas, não importando a classe social ou o grau de instrução. A fronteira entre o visionário e o charlatão é muito tênue, as fórmulas ditas, palavras e mensagens codificadas, que servem para qualquer resultado alcançado (mesmo parecendo, não estou falando de economistas do jornalismo da mídia, viu?).

Nos anos de 1960 e 70, as várias seitas de gurus orientais fizeram muito sucesso no meio da juventude “paz e amor”, hippies, com aquele linguajar rebuscado e místico. A esquerda não ficou imune a tais maneirismos culturais e muitos personagens, como Fernando Gabeira, Marina Silva, “incorporaram” não apenas a roupas e costumes destes gurus, mas também passaram a usar do mesmo tipo de relação esotérica com os seus seguidores. O deslocamento da luta política global para questões alternativas, mais palatáveis ao Kapital, como o Verde, ambientalismo, de certa forma dessacraliza o militante de esquerda, da luta de classes.

Ouvindo Marina, a agora candidata a Presidência da República, pelo SEU “não partido”, a Rede (via PSB), temos um problema grave: Ninguém sabe o que ela propõe. Sua forma oblíqua de falar, feito pitonista de Delfos, necessita de intérprete, como Tirésias. Das duas, uma; ou expressa um pensamento superior, muito sofisticado, coisa de divindades, ou um charlatanismo bem calculado.

Marina quer ser incompreensível, o linguajar meio Caetano, meio Djavan, é uma embromação. Coisa de guru dos anos 70, ex-hippie que não assumiu sua vida yuppie. Esta coisa de não dizer o que é e o que realmente pensa, me faz lembrar Collor, aquele produto de Marketing que jogou o Brasil no precipício. O personalismo de Marina, acima do bem e do mal, superior aos partidos e à Política, que governará com os bons, alguém acredita nisto?

A questão é clara: Se der Marina, é que o povo quer que o PT, PSDB sejam oposição, não serviçais dela, em que os bons, ficam comigo, os ruins, ficam fora. Isto desmoraliza os partidos e a própria democracia, como se militantes dos partidos não tivessem compromissos com eles e que basta então ouvir a Convocação “Divina”, eles irão aceitar governar acima das ideologias e dos programas. Para o bem da Democracia, o PT, por exemplo, deveria deixar bem explícito que se Marina vencer as eleições, o partido será oposição, pois foi a vontade popular que impôs a vitória de outro programa, diferente do seu.

Este messianismo barato é uma ameaça à democracia, o país não busca salvadores místicos, que publicamente demonizam a política, mas nos bastidores fazem política da mesma forma ou até pior do que os políticos “tradicionais”. Recebendo as mesmas doações de campanha, assumindo os mesmos compromissos, mas se comportando em público como vestais da ética, um papel hipócrita, onde levará esta aventura?

Vamos rasgar este véu de hipocrisia e acordar deste estado catatônico, esta tentativa tosca de enganar o país. Colocar na mesa as propostas e os programas, demonstrar os acordos e compromissos para que sejam executados, com respeito a Democracia, as instituições públicas e os poderes constituídos. Sem aventuras ou golpes.

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