Marina, A Terceira Via do Kapital rumo ao Estado Gotham City?

 

Candidata a Presidente Marina Silva, a serviço do Estado Gotham City (Foto: AP)
Marina Silva, uma candidatura a serviço do Estado Gotham City (Foto: AP)

 

“O que foi, torna a ser. O que é, perde existência.
O palpável é nada. O nada assume essência”. (Fausto – Goethe) 

 

Dando continuidade ao artigo Por que o Estado Gotham City não se impôs no Brasil?, desembocamos no processo eleitoral brasileiro e, como sempre,  é preciso estudar os movimentos do Kapital, em especial do Kapital Financeiro, para compreender quais as  suas relações com os Projetos Políticos apresentados na atual eleição. A providencial entrada de Marina Silva na disputa esta análise ganha maior relevância. Pois, sem ela, nos parecia que o projeto vacilante do PT se imporia mais uma vez, mesmo como alto grau de integração ao Kapital, o PT, nunca foi e nem será o projeto preferencial dele, aliás, em muitos sentidos emperra a integração do Brasil ao mundo e a Nova Ordem do Kapital e do seu Novo Estado, o Estado Gotham City.

Estas eleições em especial, totalizante e nacional, não é apenas para renovar governos e congresso, o que estará em jogo é o modelo de Estado, ou como resistir ao projeto de Estado que a fração mais destacada da burguesia quer impor ao Brasil. As contradições em luta, se ainda não visíveis, se tornaram mais amplas, a confusão ideológica é imensa, basta olhar que mesmo as forças que se contrapõem ao Kapital,  apresentam uma similaridade de análises e alguns pontos comuns e de objetivos com ele, em particular no que diz respeito à democracia representativa.

Os milhões que foram as ruas recentemente em várias partes do mundo, em justas lutas, muitos foram capturados pela lógica de negação do Estado e da democracia, principalmente contra os partidos, o que favorece claramente aos setores que querem “destravar o Estado” para que volte a funcionar em consonância com o “mundo”, mas claramente, os EUA. O que se pergunta é como se aplacará a ira e a necessidade de representação dos que exigem fim da “democracia de fachada”?

A forma de representação direta, líquida e imediata entra em contradição com a democracia representativa, o que faz com que em muitos lugares o próprio conceito de Democracia comece a ser questionada, pois a Estado/Democracia só sobrou a força e repressão como opção principal, ou a aprovação de leis, como Patriot Act Nº 1, ou as leis de imigração na França, dão o teor deste momento. O Estado é capturado por agências e burocratas que não respondem aos anseios populares, pois não passam e não responder  pelo crivo popular, os casos mais esdrúxulos são os do EUA em que o Presidente do FED, sem mandato popular é quem define o futuro do país, o Presidente Obama, efetivamente, não tem como intervir nos destinos econômicos, a modelagem do Estado não lhe permite margem de manobra.

Partindo desta análise e da realidade concreta podemos melhor entender os fatos e fados apresentados pelas grandes manifestações, aqui no Brasil, por exemplo, elas estavam diretamente ligadas à queda de expectativas na Economia em geral e particular no âmbito das ações governamentais, aqui entendida como responsabilidade, quase que única, do governo central (Dilma), o que de todo não é errado, os ônus e bônus são assim melhor distribuídos. Podemos destacar quais os aspectos mais relevantes das manifestações de junho de 2013 e aos três signos da revolta:

1) A Crise passou a ser sentida, em particular nas classes média e alta;

2) A tolerância com os governos do PT, era graças a sensação de estabilidade econômica, então agora os graves erros da época do Mensalão, acabou;

3) Todo o ódio de classe, mesmo que difuso, se liberou.

Os desdobramentos das revoltas e manifestações no mundo apontaram para algumas saídas políticas, pelos os mesmos que negam a “política” ou as eleições como campo de batalha, ainda assim se constituíram como “partidos”, ainda que os negassem como tal, a exemplo do “Podemos” (Espanha) ou da Rede( Brasil), 5S( Itália), Syriza( Grécia). Todos eles participando de eleições “burguesas” com resultados expressivos, agora mesmo a “Rede” dentro do PSB, terá uma candidatura presidencial. Obviamente que não são movimentos idênticos ou de mesma matiz ideológica, mas partem de um mesmo ponto, o questionamento da democracia representativa, mas ao mesmo tempo entram em disputa nos marcos desta democracia.

Podemos e Syriza nos parecem encarnar um novo momento, uma perspectiva política à esquerda com possibilidade de romper com as antigas forças políticas tradicionais, com resultados eleitorais surpreendentes, o Syriza foi a maior força política nas eleições gregas, saindo do nada. Assim como o Podemos se constituiu em poucas semanas obtendo a terceira votação nacional na Espanha. São ações positivas, de construção de alternativa Política ao Estado Gotham City, não é o caso do 5S, na Itália, que venceu as eleições com uma visão de apenas negar a política, pela negação destrutiva, sem consequências reais e transformadoras.

A Rede, no Brasil, se personificou como o agrupamento da ex-petista, Marina Silva, uma ex-líder seringueira, das lutas camponesas do Acre, de formação marxista, que foi abandonado e trocado pelo “Eco Socialismo”, seja lá o que isto venha a significar. A ruptura dela com o PT se deu ainda durante o governo Lula, em que ela foi ministra do Ministério do Meio Ambiente. Sua ida ao PV e sua posterior candidatura à Presidente em 2010 foi tutelada pelo bilionário dono da Natura, Guilherme Leal, seu vice. Depois uma nova ruptura com os “Verdes” e o seu caminho foi o da construção da “Rede” como partido, pois ela já existia como “RAPS( Rede de Ação Política e Sustentabilidade), uma  estrutura de “ONG/Fundação”. Agora transformado em “(não) Partido para tentar capturar o sentimento da revolta vindos das manifestações de junho de 2013.

Entretanto, nem a quantidade mínima legal de assinaturas exigidas para fundar um “partido”, ela conseguiu, então o caminho tomado foi ainda mais contraditório com seu discurso de negação dos partidos e dos “acordos políticos espúrios”. Marina e sua “Rede” fez um acordo com Eduardo Campos, mais um ex-governista, que se candidataria em oposição ao PT, acreditando no desgaste (real) do governo com os idos de junho. Desta estranha aliança surgiu uma chapa, Eduardo e Marina, baseada apenas na imagem dos dois sem afinidades programáticas aparentes. A morte trágica de Eduardo Campos, repôs a candidatura de Marina na ordem do dia, voltando ao centro a Rede, o partido “não partido”.

O suporte do Kapital Financeiro ao projeto de Marina é inequívoco, banqueiros e figuras de proa do governo de FHC estão entre seus principais assessores e são os que elaboram seu programa de governo ( ou seria de Estado?), para que não reste dúvida, Maria Alice Setúbal ( Neca), a bilionária herdeira do Itaú, o maior banco privado do Brasil, é uma das mais entusiasta militante da Rede e coordena o “programa Econômico”, entre as principais medidas anunciadas está a “independência do BC” (alguém lembrou do FED de Reagan?).  Mais ainda e, não é por mero acaso, é que as equipes de Marina e Aécio (PSDB), os dois principais candidatos de oposição, têm não apenas a mesma matiz ideológica, mas também partilham dos mesmos princípios e construindo juntos, em duas barcas, o meio para derrotar o PT, pelo Estado Gotham City.

Os vetores visíveis destes dois projetos é o “Novo” Estado, boa parte dele gestado pelo neoliberalismo, com medidas bem definidas: o fim do conceito do Estado de Bem estar social, ou sua redução ao mínimo possível. Segundo, a ampla privatização, com o fim da intervenção direta do Estado na Economia. Terceiro, a Educação, Cultura e Saúde perde cada vez mais seu caráter de obrigação pública e gratuita, passam a ser geridos por entes privados, como os modelos propostos pelo Instituto Arapyaú, da Rede. Ou seja, o que sobrou para o novo estado é gerir as forças repressivas, aplicação de leis restritivas, quebra de direitos fundamentais, as demais funções são entregues aos entes privados ou com seus recursos vinculados à ONGS/Fundações/OSCIPs/Institutos/Coletivos, de cunho PRIVADO, mas sustentados pelo “Novo” Estado.

O projeto de Marina nos parece o mais sofisticado rumo a este modelo de Estado, não carregaria a contradição de partidos orgânicos, com os vínculos locais, as políticas antigas, que de certa forma ainda impedem a vinda do novo modelo, além dos vínculos orgânicos com o grande Kapital, como Itaú e Natura. Eles estão cientes de que a própria retomada de um novo ciclo do Kapital, depende vitalmente da implementação deste novo Estado, os governos seriam meros apêndices dos grandes bancos e grandes empresas, presidentes, primeiros ministros se comportam como executivos de corporações, em muitos casos, ao saírem dos governos vão efetivamente trabalhar nelas.

Por trás da Negação dos Partidos, do Estado e da Democracia há um projeto em gestação, cheio de malabarismo teórico, uma coisa meio de Guru, de defensores da natureza, um embuste irreal, pois o que se percebe na prática é uma articulação para um Novo Estado, “higiênico” e mais excludente, menos democrático do que o atual, em que se prescinde de qualquer intermediário, congresso, sindicatos, partidos, pois a ordem seria uma “Democracia Direta”, plebiscitária, mas feita e comandada por “sábios” (xamãs e gurus), aos demais, cabe apenas “votar”, nem que seja via web. Aqui os traços messiânicos de Marina casam perfeitamente à iconoclastia do Estado Gotham City, basta lembrar, como ela mesma disse que a “providência divina” a salvou da tragédia da queda do avião, agora cumprirá a outra “providência humana (do Kapital)” tentar ser algoz do governo do PT e da Democracia.

Alguns tópicos precisam ser bem explicitados:

1) O que nos separa de Marina é que ela representa no Brasil, algo como o Tea Party, o Ultraliberalismo, travestida de guru messiânica;

2) Mas no fundo, Marina é a personificação do Novo Estado, o Estado Gotham City, sem Política, sem Partido, sem Democracia;

3) a questão não é o pendor evangélico de Marina, mas o seu projeto político Reacionário, mistificador;

4) Marina vai unir os despolitizados, aqueles que odeiam o Estado, mas que vivem dele, os que odeia política, fazendo política dia a dia, mas alimentando ódio aos políticos;

A questão que se impõe, para a militância, é mais uma vez derrotá-los nas urnas e seguir em frente, reconstruir as pontes e formar novos quadros, respeitando os velhos, aceitando seus erros e acertos, porque a vida é bem mais complexa do que pensamos. A receita parece clara, de como agirá o Capital, minha dúvida é:

Como reagirá o outro lado?A Classe trabalhadora, o povo em geral mais massacrado, vai tolerar esta combinação de exclusão, repressão, sutil ou aberta, contra si, ameaçando, muitas vezes, em alguns países, até a sobrevivência mínima? O que faremos?

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