Meu Primeiro Emprego, 24 Anos Depois.

 

ETFCE - aqui onde tudo começou.
ETFCE – aqui onde tudo começou.

 

Naquele distante 18 de setembro de 1989, acordei cedo, muito cedo, não dormi direito, era meu primeiro dia de trabalho, minha carteira de trabalho preenchida pela primeira vez, nem acreditava no salário oferecido para um cara sem nenhuma experiência, recém-saído da Escola Técnica Federal com diploma de  Auxiliar-Técnico, o diploma definitivo só receberia depois de 6 meses de trabalho/estágio e do relatório aprovado pela ETFSP e homologado pelo MEC, mas esta história começou uns dois meses antes.

No dia 15 de julho voltei à Escola Técnica Federal do Ceará, naquele mês de férias e fui conversar com o diretor, o Dr. César Alencar Araripe, que me aguentara por quase cinco anos, nos embates do Centro Cívico, depois Grêmio Livre, que ajudei a refundar e presidi por um ano. Naquela sala com meu diploma na mão, Dr. César, parecia aliviado, porque se livrava definitivamente de mim, além de encerrar o curso, sabia que estava indo embora de Fortaleza. Assinou na minha frente o documento, desejando boa sorte e disse que apesar de todos aqueles embates tinha apreço e respeito por mim. Um aperto de mão rápido, saí da sala e depois uma última volta pelos corredores da ETFCE, a sensação de dever cumprido.

Dois dias depois estava num ônibus rumo a Goiânia para conferência do PLP (Partido da Libertação Proletária – CGB) que definiria o apoio ao Lula ou voto nulo na primeira eleição direta depois da ditadura. O Partido tentara o registro no TSE e lançaria Geraldo Afonso Sampaio para presidência, por “sorte”, não obtivemos o registro. A conferência aconteceu entre 20 e 23 de julho, com a vitória do apoio à candidatura de Lula, minha posição. Ainda no domingo viajei de Goiânia até Piracicaba, onde ficaria por mais um mês.

No final de agosto vim a São Paulo e fui me matricular na ETFSP para cumprir o último estágio para receber o diploma definitivo de Técnico em Telecomunicações. Ali, no Canidé, a grande Escola Técnica de São Paulo, Nelson Vilela e Eu, andamos pelas alamedas até o local de matrícula, num painel havia anúncios de vagas para Técnicos e auxilia-técnicos. Anotei alguns telefones, lembro bem: Elebra, Daruma e Nesic (Nec). Totalmente sem dinheiro, tive que pedir a minha mãe um pouco para que pudesse me deslocar e procurar o emprego, sem que meu pai soubesse, afinal ele achava que não tinha para São Paulo para trabalhar, mas sim para fazer política.

Logo na primeira entrevista, na Nesic, uma subsidiária da Nec, a grande empresa japonesa de telecomunicações, que no Brasil disputava com a Ericsson e Siemens o posto de maior empresa do setor. Lá fui recebido por um diretor que devia falar umas 10 palavras em português, o Sr Yamaguchi, fumava e olhava a minha ficha e repetia: “tem que trabalhar, né”, dava nova baforada no cigarro e aquela nuvem de fumaça na minha cara e ele repetia:  “tem que trabalhar, né”. Esta tortura durou cerca de 30 minutos, ele fumava e repetia, depois falava com alguém ao lado em japonês e me encarava com as mesmas palavras. Ao fim, disse “passa em RH, primeiro andar”.

Nem entendi direito, ao chegar na sala do Recursos Humanos estava “contratado”, segundo a moça, “o Sr Yamaguchi parece que gostou de você” e emendou, “quer começar dia 04 de setembro? Pois senão, apenas dia 18, pois fechamos a folha de pagamento dia 15”. Por mais que precisasse começar dia 04, não tinha dinheiro nem para comer, faltavam vários documentos, além de nem saber o salário, mas o importante estava com emprego certo, algo inimaginável, dois meses antes. Tinha que correr atrás de documentos, principalmente CPF para abrir conta bancária. Saí do prédio feliz, mas sem entender nada do que se passara naquele dia. Ainda fiz entrevistas na Elebra e Daruma, mas optei pela Nesic por ser contratado como técnico, mesmo sendo ainda auxiliar, além de melhor salário, parte ruim, muitas viagens pelo Brasil.

Assim, se deu, no dia 18 de setembro às 8 horas, naquela manhã fria, cheguei ao endereço da Nesic na Mooca e comecei a minha história.

PS: Ao assinar o contrato fui recebido pelo Sr Daisaka, outro japonês que mal falava português, passou uns 20 minutos apenas para entender meu nome, que ele escrevia hipoteticamente na sua mão: Aro, aro…aronobio (あrのびお). Bem quanto ao salário era algo como 5,5 salários mínimos, que a inflação comia rapidamente, mas as diárias de viagens salvavam o mês.

3 thoughts on “Meu Primeiro Emprego, 24 Anos Depois.”

  1. Época boa Arnobio, fiz o mesmo caminho que você, quatro meses antes vindo de Barra Mansa/RJ. Meu primeiro emprego foi na Unisys ainda em Veleiros na Zona Sul, antiga Burroughs. Com 18 anos em SP que experiência, saudades daqueles tempos. Abs.

  2. Que emocionante meu querido , imagino quanta dificuldades passou, mas o mais importante, mais um Nordestino, cearense a vencer na “cidade grande”. Orgulho de você.

  3. Nobim, querido!
    Tudo é válido na nossa vida! Passar pelo Dr Cesar na ETFCE, a discrença de alguns, mas o fundamental é que você venceu e eu tenho muito orgulho de você. Não canso de dizer que vc influenciou toda a minha vida, todas as minhas escolhas profissionais. Te amo meu irmão.
    Bjos

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