Grampos nos EUA, Bem-vindos ao Estado Gotham City

 

Edward Snowden e Bradley Manning – Dois lados da mesma notícia – Montagem da Reuters; Mark Wilson/Getty Images

 

A questão do Novo Estado, que denomino de Estado Gotham City, é uma parte do trabalho que mais me dediquei no meu livro sobre a Crise 2.0 ( O Livro: Crise Dois Ponto Zero – A Taxa de Lucro Reloaded ). Os elementos essenciais estão descritos em vários artigos, em particular no último ano, dentre estas características está o papel das “Agências” como definidora de modelo quase imutáveis, em que processos democráticos, como as eleições, não têm força alguma diante delas, um indício claro de que a face “Democracia” perde valor substancial.

A captura do Estado por elementos “fixos” cria um tremendo embaraço, pois o processo político, de vida, de pensamentos e dinâmico entra em choque com esta visão, o que impede qualquer mudança, ou, no limite, esvazia os projetos alternativos de poder/governo, estes seriam meros burocratas, sem poder ou função clara, em muitos casos seriam um estorvo ao “bom” funcionamento da máquina, que prescindiria do verniz democrático, esta engrenagem não admite “vida”, frescor. Assim define, no livro, o que caracteria o Estado Gotham City:

“O Estado que surge desta crise começou a ser desenhado no fim dos anos 80. Com a queda do Muro de Berlim, livre do contraponto do Leste europeu, reduzir gastos públicos virou obsessão do capital. A redefinição do papel do Estado, de seu tamanho, de seu alcance foi sendo paulatinamente trabalhada econômica, política e ideologicamente.

A própria retomada de um novo ciclo do capital, aparentemente, depende da implementação deste novo Estado. Os governos passariam a meros apêndices de grandes bancos e grandes empresas. Presidentes e primeiros-ministros já se comportam como executivos de corporações, e em muitos casos vão efetivamente trabalhar nelas quando deixam o governo. No plano político, a forma de representação entra em contradição com a democracia representativa – em muitos lugares o próprio conceito de democracia começa a ser questionado: força e repressão viram opção principal. Leis como Patriot Act, nos EUA, ou de imigração, como na França, exemplificam este momento.

O Estado é capturado por agências e burocratas que não respondem aos anseios populares, não passam e nem desejam passar pelo crivo popular. Os casos mais esdrúxulos estão nos EUA: o presidente do Federal Reserve, sem mandato popular, define o futuro do país, e o presidente Obama não tem como intervir nos destinos econômicos, pois a modelagem do Estado não lhe permite margem de manobra. Até a indústria armamentista, antes de composição majoritariamente estatal, foi terceirizada”. (Capitulo VI – O Estado Gotham  City – Crise 2.0: Taxa de Lucro Reloaded)

Por mera coincidência o denunciante das escutas indiscriminadas no EUA, Edward Snowden, era um funcionário da Booz Allen, uma empresa terceirizada da NSA( Agência de Nacional de Segurança) que cuida de um sistema extremamente sofisticado de espionagem, que pode acessar emails, conversas em rede sociais, de qualquer cidadão, não apenas estrangeiros, mas do próprio EUA, aparentemente sem ordem judicial ou processo legal. A mitologia de protenção às liberdades individuais caiu por terra de forma definitiva. Contraditoriamente uma pesquisa nos EUA mostrou que a maioria da população se mostrou favorável ao monitoramento, em nome da sua “segurança” contra o “terror”.

Estes sinais são inconfundíveis de que esta burocracia estatal permanente, fundida às empresas privadas, vence a batalha ideológica, de como o cidadão médio se tornou refém desta lógica perversa, em que prefere viver num “Estado de Exceção”, em que seus direitos e garantias fundamentais são constantemente violados com sua “aprovação”. Este Estado de Exceção ameaça se tornar permanente ao sabor da vontade das agências e dos burocratas sem controle político e social, com o salvo conduto de que estão “protegendo” o país.

Mais importante do que se ter certeza de que se é monitorado,  é a conclusão de que há apoio massivo à conduta dos agentes. Algo vai muito mal nos EUA e Europa,pois é este Estado que se avizinha, uma contradição com a propaganda deles contra os regimes “autoritários” como China, Venezuela, Cuba, Coréia do Norte, Irã entre outros. Em suma, Bin Laden colaborou decisivamente para que o Novo Estado se tornasse uma realidade concreta, num tempo recorde. A Crise 2.0 pariu este Estado em em todo seu explendor, em todas as suas fronteiras, política e economia. A violência não será mais sutil.

Um artigo de Daniel Ellsberg, que vazou as informações sobre os EUA na Guerra do Vietnã, no  “The Guardian” é elucidativo sobre para onde caminhamos, o título é uma provocação:  “Edward Snowden: nos salvando dos Stasi Unidos da América” . A corruptela “Stasi” com o nome dos EUA é perfeita, mas o artigo é trágico demais.  A entrevista de Snowden coloca a nu como o sistema funciona. Entrevista ao “The Guardian” na íntegra abaixo.

O Fim da história ficou cada dia mais longe.

PS: Em dois dias, a mídia local sumiu com o escândalo das manchetes, não é por acaso, ela não quer que este debate se aprofunde ou saia do controle. Poucos anos atrás a mídia brasileira fez um carnaval com um tal “estado policial” por parte do governo, sem uma prova concreta, agora se esconde de denunciar sua “Pátria-mãe””, os EUA. Seria cômico, se não fosse trágico.

NSA whistleblower Edward Snowden: ‘I don’t want to live in a society that does these sort of things ( The Guardian)

Imagem de Amostra do You Tube

One thought on “Grampos nos EUA, Bem-vindos ao Estado Gotham City”

  1. Muito importante e necessário este debate, senão em que Estado vamos viver? A população precisa se apropriar dessas reflexões para uma ação consciente e propositiva.

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