Um Novo Tempo para os BRICS?

 

Abertura da reunião dos BRICS em Durban. Foto: Roberto Stuckert Filho/PR

 

 

Os blocos comerciais definidos no mundo, acabam trazendo em dentro de si uma certa identidade regional, proximidade territorial e algumas vezes proximidade cultural. Os maiores como UE ampa e UE restrita(Zona do Euro) e Nafta restrito( EUA, Canadá e México), Mercosul (Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai), tiveram uma longa história para sua consolidação, mesmo assim alguns ainda capengam, por uma melhor definição de acordos. O Caso BRICS era quase uma ideia abstrata, uma sugestão cunhada pelo economista Jim O’neill, da Goldman Sachs, que em 2001, viu neste imensos territórios uma possibilidade comum de se unirem.

Passados 12 anos, formalmente apenas em 2008, efetivamente houve uma busca de por a termos os encontros e os acordos bilaterais no incipiente grupo. A liderança do Brasil, em chamar o G77, depois G20, que efetivamente esvaziou o antigo clube dos ricos, o G-7, foi o combustível político ideal. Mas, o que realmente os aproximou foi a luta para não caírem na Crise 2.0, que arrastou os EUA e a UE para o limbo. Algumas políticas comuns, acabou impulsionando a ideia mais formal de um grupo associado, com intervenções a mais próxima possível, nos órgãos mundiais como FMI, OMC e Rodada de Doha. A África do Sul foi incorporado ao grupo, neste período.

As imensas diferenças culturais, as distâncias e os múltiplos interesses, longe de servir de entrave, uniu mais estes países, pois na grande crise criaram oportunidades de maior integração, mais reuniões formais e decisões mais concretas, como o próprio O’neill diz numa entrevista para revista Der Siegel, que em pouco mais de 10 anos o PIB destes países saltou de 3 trilhões para 13 Trilhões de Dólares, que os acertos comerciais entre eles, os salvou, em grande medida de não mergulharem na crise, que ali via uma estratégia vitoriosa, claro com vário problemas, mas com ótimas soluções.

Ano passado um grande passo foi dado na reunião de Delhi, em Junho de 2012, algumas ações concretas foram tomadas, a mais importante um fundo comum e a ideia de um banco de fomento, pois o BIS, banco de investimentos da UE, tinha fechado as torneiras para os empréstimos fora do bloco, o que prejudicava enormemente China e Brasil, que tomavam 25% e 15 % respectivamente, de financiamento para seus investimentos anuais. Conforme escrevemos no post Crise 2.0: Brasil e o alerta do BIS. Ali, também anunciamos o acordo mútuo, Brasil-China de 60 bilhões de Reais em conversibilidade direta de suas moedas, formalizado ontem em Durban.

Logo a seguir, no México, os BRICS tiveram decisiva participação na reunião do G-20, com várias propostas comuns, agindo como bloco. Em setembro do ano passado no artigo Crise 2.0: Como Combater a Crise? UE/EUA x BRICS, apontei os dilemas que atingiram os BRICS e algumas soluções que tinha decidido, que precisavam por em movimento, assim descrevemos:

“O ambiente geral é complicado, se em 2007/2008 os EUA caíram economicamente, mas a Zona do Euro se manteve, com um detalhe a mais, a Zona do Euro é a maior financiadora da China, cerca de 25% do investimentos gerais, 15% do Brasil. Com a Crise de 2011 houve um fechamento de torneiras dos financiamentos externos, tão essenciais a estes países, devido a baixa poupança interna. Além disto, as importações da UE da China caíram 7% em 2012. O mesmo se deve repetir com o Brasil. 

Os BRICS têm sido aguerridos  e por mais que tenham sobrevivido a atual crise, não estão imunes, recentemente se reuniram na Índia, buscando uma maior convergência de ações e intercâmbio, para que possam, de forma mais efetiva, protegerem suas economias e manter o crescimento econômico dos últimos anos. As duas políticas acertadas neste recente encontro são: 1) No comércio entre os BRICS, usar as próprias moedas; 2) Criar um banco de investimento do grupo; São medidas que dinamizam o comércio entre estes países, pois em parte não se precisa usar Dólar/Euro nas transações. O banco comum ajuda na questão de financiamento, diminuindo a dependência e do humor do mercado mundial.

 Mais ainda, os BRICS se unem contra a chuva de trilhões imposta pelos EUA(FED) e UE(BCE), mais duas QE ( emissão massiva de moedas) que incentiva a especulação com as moedas locais, impondo sua valorização, causando um desequilíbrio das contas e tornando os produtos destes países mais “baratos” diante da produção local. O fluxo de capital com caráter especulativo desarruma as contas públicas de países como o Brasil”.

Finalmente nesta semana, em Durban, a reunião de cúpula dos BRICS, precedida de uma reunião dos Ministros da Economia do bloco, decidiu de forma mais direta: 1) O Fundo comum anti-crise de 100 bilhões de dólares ( 41 bilhões da China, 18 bilhões de Brasil, Rússia e Índia, 5 bilhões da África do Sul); 2) Indicação da criação do Banco de Fomento dos BRICS( os Ministros não superaram a diferença com a Rússia, que se opõe), esta decisão precisa de aprovação dos Presidentes dos países do bloco;3) Brasil-China assinaram a cesta de moedas de 60 bilhões de reais, para não depender de outra moeda no comércio bilateral.

Assim começa a tomar corpo, de forma efetivamente, o bloco econômico, erroneamente noticiado pela Folha de SP como o “FMI” dos BRICS , o fundo anti-crise, é mais similar ao Fundo Emergencial Europeu, que é usado entre os membros da UE, pouco lembrando o FMI, até no caráter e no modo de usar o tal fundo, o saque é livre até o limite de 20%, acima deste valor os demais membros farão auditoria, este fundo pode chegar a 500 bilhões, podendo ser incorporado ao futuro banco de fomento comum.

Recomendo a leitura de dois artigos publicados no blog Redecastorphoto, sobre o caráter destas reunião histórica de Durban, o primeiro a entrevista com Jim O’neill para Der Spiegel que eles traduziram , Jim O’Neill, do banco Goldman Sachs: “Os BRICS ultrapassaram todas as expectativas” e o segundo o artigo de Pepe Escobar “BRICS conseguem furar o cerco”, São duas ótimas referência, fora das bobagens da mídia doente do Brasil, põe em outros termos o que estar por vir, uma dimensão bem mais positiva e real.

Diante da pasmaceira geral, são ótimas notícias, vindas dos BRICS um novo alento.

2 thoughts on “Um Novo Tempo para os BRICS?”

  1. É uma felicidade ter este blog à mão!!! Quando encontro meus amigos sou a sabe-tudo sobre desemprego, medidas da Troika etc. Noutro dia um veio elogiando a Merkel, soltei pra cima dele tudo o que aprendi na Crise 2.0, o pobrezinho pediu o link do seu blog, hahahahahahahahaha! Essa aliança dos BRICS tá na gavetinha do meu cérebro desde o ano passado, com esse texto que vc retoma! Seus leitores somos os mais bem-informados do país! Beijo estalado!

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