BRICS – Por um Mundo Mulitpolar

 

Foto Oficial da V Reunião dos BRICS

 

 

A reunião dos Ministros da Economia dos BRICS foi prévia ao grande encontro da V Cúpula dos BRICS, que se iniciou ontem, já provocando intenso barulho na mídia mundial. Os acertos dos Ministros, seguindo e detalhando as últimas reuniões de Nova Delhi, em 2012, relatei aqui no post Um Novo Tempo para os BRICS?. Agora entram em cenas os atores principais, ou presidentes, aqueles que juntos são responsáveis por 43% dos habitantes do planeta e 25% do PIB mundial. Desde 2009, agora chegam ao 5º encontro com objetivos ambiciosos e mais claros, mesmo com todos problemas adversos.

Como bem definiu a reportagem de capa do El País, cujo titulo não poderia ser mais explícito: “Os emergentes exigem sua cota de Poder”. A matéria explicita que “os líderes das principais economias emergentes, reunidos em um grupo conhecido como BRICS , inaugurou ontem na cidade sul-Africano de Durban um encontro cuja agenda não são apenas relações comerciais e políticas entre algumas das economias do mundo a crescer mais rápido apesar da crise internacional, mas também o futuro da ordem global“. Os desafios são gigantesco, fazer frente à ordem vigente, com dois carros chefes, primeiro, a criação de um banco para financiar seus crescimentos, quebrando a dependência do Banco Mundial e do BIS. Segundo, um fundo de reserva e estabilidade, parecido com o mecanismo de emergência Europeu (ESM).

 

A musculatura deste bloco é visível, os números abaixo não deixam dúvida, que, a vingar o bloco, fará um contraponto interessante aos EUA e a UE. Vejamos os dados compilados abaixo, publicados no El País

 

Fontes: FMI, OMC, ONU, Governo do Brasil e do autor. / PAÍS

Com este poder de fogo, é natural o questionamento dos velhos instrumentos da economia mundial, vindo do pós-guerra e nascidas em Bretton Woods, que seguem sendo mecanismo controlados pelos EUA, em primeiro lugar,  secundado pela UE.

 

O El País diz que, “os projetos BRICS certamente são ambiciosos, mas o diabo está nos detalhes. Embora haja vontade para criar o banco de desenvolvimento , persistia diferenças sobre  seu financiamento, a localização de sua sede e como ela deve ser gerenciado.”Há uma tendência positiva, mas ainda não fechou o acordo para a criação do banco”, disse Anton Siluanov, o ministro das Finanças russo, para agência Reuters. Cada uma das partes procura moldar a instituição aos seus objetivos de política nacional e internacional e garantiu um justo retorno sobre o investimento. Índia defende uma reciclagem de banco de investimento excedentes orçamentais nos países em desenvolvimento, enquanto a China gostaria de ver a empresa investir em projetos que maximizem o comércio”.

O Capital inicial aportado seria um depósito conjunto de 10 bilhões de dólares de cada parceiro, o que somará 50 bilhões, aparentemente é pouco, diante de outros bancos de fomento, mas é uma primeira remessa, que deve nortear a confiança e os projetos locais e interacionais. A África é o alvo de grandes projetos, principalmente da China, que pode ser partilhado com os demais membros do bloco. Como declara, ao El País a nova autoridade Chinesa, o Presidente Xi Jinping, que estréia no cenário mundial, nesta reunião, “Estou ansioso para discutir planos de cooperação com os líderes de outros países do BRICS e as nações africanas. Acredito que com os esforços concertados de todos os participantes, a reunião será bem sucedido e levar solidariedade e cooperação com os países em desenvolvimento a uma nova altura “. Este norte dissipa qualquer dúvida para onde caminhará a política comum do bloco. Bem observa, ainda, o El Páis , que Xi Jinping deu o tom para a reunião, enquanto ele parecia sugerir que há diferenças entre os cinco países membros. Xi ressaltou a importância de ter se tornado BRICS cúpula sobre o eixo de sua primeira viagem internacional como chefe de Estado. Uma falha na criação do banco teria sido um sério revés para os BRICS, como teria dado voz para aqueles que acreditam que os membros deste grupo têm pouco em comum. 

 

O outro tema central, desta cúpula, este menos polêmico e já acertado pelos Ministros da Economia do bloco, é o mecanismo anti-crise em forma de fundo, que somará 100 bilhões de dólares, conforme tratamos no primeiro artigo,  Um Novo Tempo para os BRICS?.  O El País confirma ainda que “pouco antes do início da cúpula, China e Brasil assinaram um acordo para realizar o comércio em suas próprias moedas no valor de 30.000 bilhões de dólares por ano. Seu comércio bilateral atingiu, em 2012, para 75.000 milhões de dólares”. 40 % do comércio entre os dois não dependerá mais de dólares nas transações, o que alivia pressões sobre o custo da moeda americana, o que também assume um caráter simbólico, não se usar a “conversibilidade” universal.

 

Cabe ainda ressaltar como cada país tem entrado nesta cúpula, do lado russo, Vladimir  Putin deu um tom extremamente político e de certeza que ali se aglutinará um outro polo do tabuleiro mundial, segundo o El País ele disse que Os BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) não são um clube de Moscou, mas uma ferramenta política e econômica para mudar a ordem mundial estabelecida, começando com as finanças. Estes objetivos estão descritos em um documento divulgado pelo Kremlin, na véspera da reunião de chefes de Estado do quinteto[…] Segundo o site oficial do Kremlin, Putin aprovou a “concepção da participação da Federação Russa na parceria BRICS “. E parece claro, como descreve o jornal espanhol “na política externa de Putin, os BRICS têm uma vista privilegiada. Como parte dessa parceria, a primeira cúpula foi realizada em Yekaterinburg (nos Urais) em 2009, quando ainda estava em gestação, Moscou pretende reformar o sistema financeiro e as reservas internacionais para criar outro “mais representativo, estável e previsível.” A Rússia também apoia a criação de uma agência de classificação própria para dar “uma avaliação mais objetiva da situação dos bancos e empresas nacionais.” O Kremlin também quer institucionalizar os BRICS com um “secretariado permanente” e sugere, de fato, para congelar a admissão de novos membros para três ou quatro anos, durante o qual os membros atuais aprofundar a sua integração”.

Por fim, ainda sobre o que pensa a Rússia, “Putin chamou os BRICS como “um dos elementos-chave na formação de um mundo multipolar”, disse à agência oficial de notícias Itar-Tass. Essa parceria deve se tornar “um mecanismo de cooperação plena estratégica” que permite pesquisar ao longo do caminho para resolver os principais problemas da política mundial, disse o presidente. De acordo com o líder russo, BRICS rejeitam as pressõesa companhados pelo uso da força e de “erosão da soberania de outros países” e chamada para reforçar o papel central da ONU na política internacional. O documento validado por Putin considera necessário “evitar o uso da ONU, e, principalmente, o Conselho de Segurança, para cobrir política de regimes derrubados imposição desconfortável e forçada de variações unilaterais para resolver situações de conflito” . O presidente russo acredita que os países do BRICS têm o mesmo foco em questões como a guerra na Síria , a situação no Irã e no Oriente Médio”.

Se do lado russo, parece que há uma visão estratégica bem consolidada, a Presidenta do Brasil, Dilma Roussef, não fez por menos, num discurso inaugural( Íntegra do Discurso da Presidenta Dilma à Cúpula dos BRICS ) pôs na mesa os objetivos do Brasil. Pontuou de forma clara os ritmos e o que se fez até aqui em que diz que “Em Durban, nós estamos no 5º Fórum dos Brics. É um ciclo de reuniões que nos unificou e que já se realizou em cada um dos países membros. Portanto, temos condições de fazer um balanço do que acumulamos até agora, das conquistas e planejar o nosso futuro. Nós temos um sólido patrimônio de realizações. Os Brics foram criados diante da necessidade de nos reunirmos para fazer face à grave crise que se iniciou nos anos 2007-2008. Hoje, mesmo aqueles mais céticos reconhecem a contribuição que o grupo Brics ofereceu, seja no debate dos temas mais candentes da economia internacional, seja por ter colocado na ordem do dia a importância do crescimento da inclusão social e da preservação e conservação do meio ambiente, tais quais nós definimos na Conferência do Clima Rio+20”.

Expôs ainda que, “em nossa diversidade os países do Brics estão unidos pela capacidade de enfrentar grandes problemas mundiais, pelo fato de serem países continentais com populações elevadas, com grandes desafios pela frente. Essa comunhão de similaridades também contempla uma ampla diversidade e uma ampla diferença que permite que as nossas economias sejam complementares. E após esses cinco anos de intensa cooperação, nós somos uma instituição que reúne quase a metade da população do planeta, a quarta parte do PIB global, 4,5 trilhões em reservas internacionais. Temos força suficiente para responder a responsabilidade que pesa sobre nós, a responsabilidade de suprir as deficiências que nossas populações, nos últimos séculos, foram condenadas. E ao mesmo tempo, avançar no rumo do desenvolvimento e do crescimento, e muitas vezes substituindo em dinamismo as economias mais avançadas. Hoje, nós temos a honra de ter a presidência do G-20 sendo constituída por um dos países integrantes do Brics, a Federação Russa, que certamente tem todas as condições para levar a pauta do crescimento, do emprego, da infraestrutura para a reunião dos 20 países que se agrupam no G-20, para esse fórum de cooperação econômica”.

E entrou direto no cerne da questão estratégica, para que servem os BRICS, bem em sintonia com o que defende Putin, Dilma diz que “os países Brics atuam juntos, em prol do crescimento inclusivo, de um crescimento que garanta o bem estar de suas populações, que torne as pessoas e os integrantes dos nossos países o centro do desenvolvimento. Para isso, eu tenho certeza que a presidência russa do G-20 vai impulsionar mais uma vez a agenda fundamental da superação da crise econômica. Nós defendemos também instituições multilaterais de governança econômica e política, tais como o Conselho de Segurança Nacional e o Fundo Monetário Internacional, por exemplo. E, nesses fóruns é importante que reflita-se o peso específico dos países Brics e dos países em desenvolvimento em geral, para que a representação e a governança sejam mais democráticas”.

Complementado que a agenda, do grupo, é complexa, num ambiente de crise, precisa de uma ” agenda da cooperação um passo à frente com contornos concretos como duas das iniciativas importantes que são: o banco Brics e o arranjo contingente de reservas. Além disso, a ênfase dada na questão da infraestrutura logística, energética e de conexão de comunicação dada pela agenda dos Brics mostra claramente o nosso compromisso com o desenvolvimento cooperado dos nossos países e também com a expansão da atividade econômica internacional. Nós estamos construindo mecanismos que nos ajudarão a enfrentar os desafios colocados a cada uma de nossas economias. Esses desafios – repito mais uma vez – consistem, sinteticamente, no crescimento econômico, na inclusão social e na proteção do meio ambiente”.

Os BIRCS, segundo Dilma, “tem também dando uma grande contribuição para a recuperação da economia internacional, devido ao dinamismo dos nossos países e das nossas economias.Hoje temos de ter em mente que se as economias avançadas se contraem, devemos fazer todo o esforço para ampliar as nossas próprias economias, os nossos próprios mercados. Se faltam investimentos nas economias avançadas, se faltam oportunidades de investimento, vamos ampliar os nossos próprios investimentos; e se há escassez de financiamento vamos criar fontes de financiamento de longo prazo” . E arremata dizendo “se há uma afinidade entre todos os Brics é a consciência da importância para os nossos países do investimento em infraestrutura. Seja infraestrutura econômica, logística – como eu disse – infraestrutura social. O investimento em infraestrutura, além de ser uma alavanca na inclusão social, é um excelente instrumento para nossa competitividade reduzindo custos, ampliando a capacidade produtiva, eliminando gargalos, sendo, portanto, um importante mecanismo anticíclico de estimulo às economias”.

Por fim, complementa a dirigente maior do Brasil “Desafiando céticos, a África é hoje uma região em processo de transformação política e econômica, que vem construindo sua estabilidade, um continente a cada dia mais rico em possibilidades e realizações. Segundo dados internacionais, dos 10 países com maior crescimento previsto até 2015, sete são africanos, o que é uma ótima notícia para o mundo e para a redução das desigualdades entre as regiões do mundo. […] Estou certa de que o século XXI será de afirmação do mundo em desenvolvimento. Nós vamos reduzir a distância econômica e social que ainda nos separa dos países mais avançados. Seremos, Brics, África e América do Sul, protagonistas decisivos deste novo cenário histórico de uma cultura de paz, de solidariedade, de justiça social e de cooperação fraterna. Alegra-me muito pensar que poderemos fazê-lo juntos”.

Mesmo com todas as dificuldades e diferenças, eles ousaram construir algo diferente, que esperamos que vingue e floresça, uma esperança para um novo mundo, multipolar, como tão bem pede, o Presidente Russo, Putin.

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