O Risco Chipre Faz Tremer a Europa

Jeroen Dijsselbloem, Presidente do Eurogrupo a cara de Yuppie reafirma suas posições ideológia (Foto EFE)

Poderia uma pequena ilha, Chipre, com economia incipiente, com seus bancos mais parecendo lavanderia, ser tão perigosa a um continente inteiro? A resposta é sim, não pela importância de Chipre, com seus 17 bilhões de Euros de PIB ou 0,2% do total da Zona do Euro e pouco mais de Hum milhão de habitantes, a questão é um pouco mais complexa, o risco Chipre é a Qualidade das medidas impostas ao pequeno país, tentou se matar uma mosca com um tiro de bazuca, literalmente isto. Mesmo o acordo de ontem, relatado Chipre 1 x 1 Troika – Gol Contra, é uma má notícia.

Senão vejamos, remontemos o quebra-cabeça para chegarmos ao ponto central. Uma crise bancária em Chipre, tão igual quanto as que aconteceram/acontecem, na Irlanda, Portugal, Grécia e Espanha (PIGS), com uma diferença, o remédio recomendado. Os PIGS foram duramente castigados pela Troika, com imposição de um duro ajuste, comumente chamado de Política de Austeridade, grosso modo, são cortes nos gastos sociais com Saúde, Educação e Previdência. Com exigência de venda das estatais e aumento de impostos, em alguns casos, a tutela do Banco Central destes países ao BCE, um dos componentes da Troika, esta submissão impede que o país participe livremente do mercado de títulos, suas emissões foram proibidas, seus títulos públicos viraram “lixo tóxico”.

A Irlanda e Portugal os  primeiros a aderirem a este regime, posteriormente a Grécia e parcialmente a Espanha, até hoje  não lograram qualquer melhora. A Política de Austeridade se provou um completo fracasso, num estudo de vários institutos de economia e da própria OCDE concluíram que sem as tais medidas os países estariam em melhor situação. Mesmo com esta constatação a Troika, insiste na prolongada dor, o aspecto central é ideológico, quebrar de vez, o já combalido Estado de Bem Estar Social, que nestes países, tinha menor força, mas serve de indicação aos demais membros da UE, de que o velho Estado TEM QUE MORRER.

Mesmo com estas políticas implementadas, em troca de um saneamento das contas públicas, ou resgate de suas dívidas, em nenhum momento, diretamente, a Troika usurpou a poupança de ninguém, os depósitos até 100 mil Euros, foram garantidos numa resolução de Bruxelas em Outubro de 2008, em plena crise dos EUA, o receio de houvesse saques massivos nos bancos, a UE fez uma cláusula em que se comprometia a honrar este valor, seria intocável. De certa forma e, com a injeção de 1,9 trilhões de Euros, a situação se assentou, dando uma sobrevida à Zona do Euro.

Porém, no final de 2009, a Irlanda, o “tigre europeu”, faliu, uma crise bancária e de sua dívida pública tornou visível os graves problemas da Zona do Euro, logo a seguir feito dominó caíram: Portugal, Grécia, Espanha e se sustentando à duras penas a Itália. Enquanto, a crise, estava em países com pouco poder de fogo na Zona do Euro, a situação foi sendo secundada, mas com queda dos países intermediários, como Espanha e Itália, o caldo entornou. A Alemanha impôs aos demais a política de Austeridade e terror, quem não cumprisse, seria punido. Um pequeno recuo na história nos lembrará que os países europeus perdoaram a dívida alemã nos pós-guerra, inclusive a Grécia, que ironia.

O aspecto ainda mais irônico é que a UE foi criada justamente para ser um amplo colchão de apoio e solidariedade entre os países do velho continente para que juntos buscassem a paz e a prosperidade. O que vimos de avanços em 50 anos do acordo de Roma, na década de 60, está sendo jogado por terra. Rapidamente a Alemanha, reforçada com os músculos do seu lado oriental, recém-incorporado, contando com a parcimônia dos parceiros, se tornou a força motriz da UE, os acordos comerciais e a moeda única, trouxe uma situação sem par. A desenvolvida Alemanha surfou a onda, produziu em menos de 10 anos um saldo de 1 trilhão de Euros diante de seus parceiros, apenas a Espanha tem um desequilíbrio de 280 bilhões de Euro com a Alemanha.

Com sua forte indústria, tecnologia e seus bancos dominantes, a farra do Euro, fez com que a Alemanha exportasse capitais, à prazo, enquanto não havia crise, amplos créditos eram entregues aos países e às famílias europeias, numa falsa sensação de prosperidade. Estes Euros, retornavam aos mesmo bancos alemães, nas compras feitas à sua empresas de tecnologia, produtos e serviços. Era uma farsa de que espanhóis estavam ricos, apenas endividados, com a o advento da crise, as parcelas vincendas, são compradas de forma imediata, com todos os pesados juros. Esqueçamos a solidariedade, união, qualquer coisa, o que os banqueiros querem são os juros dos empréstimos, até porque a parte principal já retornou com a balança de pagamentos, extremamente deficitária.

Ouso dizer que, nenhum país ou família deve nada aos banqueiros, principalmente os da Alemanha e França. Porém,  a Alemanha, através de sua Chanceler, Angela Merkel, uma mera burocrata a serviço dos banqueiros, impôs uma dura política aos demais países, que nem sua Alemanha cumpre. Como tem o poder econômico ela exigiu a pele de irlandeses, portugueses, gregos, espanhóis e cipriotas. A dura conta está sendo paga com desemprego, desespero e miséria. O fato novo, é o confisco direto, a mágica é simples. Até então, todos os regastes era “dinheiro novo” com prazos a serem pagos,  com os compromisso de venda de estatais, corte nos gastos sociais para que no tempo se chegue ao pagamento destes novos empréstimos.

O caso de Chipre muda radicalmente a premissa, ou seja, primeiro se arrecada os dinheiro depositado nos bancos, faz-se um caixa, que já antecipa um “pagamento” de um novo dinheiro que nem saiu dos cofres da Troika. Assim teremos para emprestar 10 bilhões de Euros para Chipre, se exigiu uma garantia prévia de 5,8 bilhões, que seria confiscado das poupanças bancárias. O que temos na prática é um empréstimo de 4,2 bilhões. Mas, com a exigência principal de um plano de Austeridade igual ou pior aos demais mais países resgatados. Enfim uma humilhação terrível, uma punição injusta, que, nem em nome de dizer que o dinheiro é “sujo”, justifica, pois, antes, sempre foi tolerado.

O Risco Chipre, passou efetivamente a assustar a Europa, voltando ao início, não por sua importância, mas pelo método inaugurado, a Austeridade, agora, não é o limite da exigência da troika, o confisco, direto ou indireto, também será usado, como bem apura o El País, dizendo que o caso cipriota é o novo guia dos resgates  “o presidente do Eurogrupo, o holandês Jeroen Dijsselbloem … que adverte que a crise bancária cipriota vai servir como um guia, como um modelo extensível a outros países que precisam de ajuda para problemas causados por um fraco sector financeiro ou de grandes dimensões. Se Chipre serve como modelo e venha ver problemas em um banco deve pagar, nesta ordem, os acionistas, os detentores de dívida ruim e da mais alta qualidade, e os depositantes com mais de 100.000 euros.Nunca antes na crise do euro , ter pago ou dívida sênior (a melhor qualidade) ou depósitos. Que é novo diabólico do que ontem provocou um choque em primeiro lugar no sector bancário”.

Aliás, esta conclusão, de que a Solução Chipre servirá de paradigma, venho afirmando desde a semana passada, agora confirmado pelo insuspeito presidente do Eurogrupo, que reúne as autoridades e ministros das finanças do Bloco Europeu. O que temos em síntese é, O Risco Chipre, vai ser a ameaça aos demais países que pedirem resgate, o primeiro da fila é a Espanha.

Um castigo a mais aos trabalhadores e o povo, que pagarão a conta, mais uma vez.

2 thoughts on “O Risco Chipre Faz Tremer a Europa”

  1. “O aspecto ainda mais irônico é que a UE foi criada justamente para ser um amplo colchão de apoio e solidariedade entre os países do velho continente para que juntos buscassem a paz e a prosperidade.” Assustador! O método inaugurado é a inexorável natureza de escorpião do capitalismo.

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