Brasil e a luta para não retroceder

 

Dilma, na Rio+20, desafio de continuar crescendo - Foto - Oglobo

Às vezes fico impressionada com a nossa incapacidade de ligar os fatos externos aos que vivemos no Brasil, a série Crise 2.0, que teimosamente escrevo, serve, pelo menos para mim, para dar um norte e enxergar mais detidamente o movimento do Capital, sua articulação e o atual estágio de crise, como ele age no Brasil, qual a resistência e as contradições locais. Os limites de um governo de uma esquerda, com baixa formação ideológica e seus estreitos campos de visão, quanto à ruptura com o Capital.

 

Este é um mais um texto que retomo a questão da conjuntura nacional, como fiz antes nos textos anteriores Brasil e seus desafiosConjuntura Política 2012, que norteiam minha visão do que acontece no Brasil e como deveria a atuação militante. Em particular, este texto busca dialogar com alguns companheiros que apressadamente, por uma questão particular, acham que tudo está perdido, perdendo a noção do todo que envolve o Brasil e o mundo. Tenho me mantido longe das disputas locais, economiza energia para ampliar a perspectiva maior, e pensar melhor a relação geral e particular.

 

De onde viemos?

 

Óbvio que houve um avanço político, social e econômico com Lula, o país foi entregue aos frangalhos, ou melhor, apenas por isto, efetivamente um partido de origem na Esquerda, não marxista, mas com base radicalizada, chegou ao Governo Central de um dos 5 maiores países do mundo, não é pouca coisa. A imensa crise político-administrativa, em particular no segundo mandato de FHC, fez com que Lula vencesse a eleição, o ápice da trajetória política dele e de seu partido. As condições políticas e sociais, bastantes peculiares o levaram ao governo, não ao Poder.

 

O retrocesso ideológico com a queda do muro de Berlim, impôs uma dura derrota e confusão política na esquerda mundial, praticamente toda a Social democracia abraçou o ideário neoliberal vigente, abandonando qualquer perspectiva até de contraponto ao consenso de Washington, a ideologia do pensamento único, se consubstanciou na formulação de FHC “Esqueçam o que escrevi”. O intelectual vindo da academia com vínculos  com a social democracia europeia, seguiu os passos dos seus mestres, fazendo um governo horroroso do ponto de vista nacional, submisso completamente às demandas do capital internacional, rifando, inclusive qualquer produção nacional. Quase arrebentou o país, culminando com os apagões generalizado, fruto de uma privatização selvagem, sem projeto.

 

A vitória de Lula, com o PT já bastante adaptado, inclusive se refletindo nas suas alianças, sua inexperiência administrativa global, conspirava contra, a possibilidade de sucesso era baixa. O carisma de Lula foi inicialmente o sustentáculo, mas ainda o pragmatismos de mudar poucas coisas na economia e rumos lhe deu fôlego para que não caísse imediatamente. O escândalo dos financiamentos ilícitos de campanhas, atingiu em cheio as principais lideranças do PT, no que se chamou de Mensalão, maculando sua aura de partido diferente. Em meados de 2005 era dada como certa a derrota futura.

 

Um rearranjo no governo, com a ida de Dilma ao centro de decisões mudou radicalmente a administração do caótico governo Lula, desde ali, a ministra se tornou uma espécie de primeira ministra, dando ordem e coerência gerencial, ligando os programas de governo, as ações passaram a ser coordenadas, um estado todo quebrado, com poucos quadros, movido pelas nomeações políticas, dificilmente funciona a contento, exceto se for minimamente centralizado e cobrado, o que tão bem fez Dilma. Com isto, Lula, passou a ser o garoto propaganda de seu governo e ações, um craque na comunicação, no debate e articulação. Venceu em 2006, o que parecia improvável.

 

O Segundo mandato já se dá em novo patamar político e administrativo, mesmo com a explosão da Crise de 2008, Lula conseguiu segurar às rédeas, não deixou o país descambar, cresceu, se tornou influente no mundo, houve mais avanços, construção de universidade, IFES, Escolas Técnicas, aumento de renda, crescimento do emprego, uma sensível melhoria das condições gerais, mas vários nós continuaram atados, difíceis de serem efetivamente mudados, como a questão do Estado, seu papel, seus órgãos, as reformas políticas que levam um presidente eleito em maioria, ser minoria no parlamento, por exemplo.

 

O que mudou pós-Lula? Precisava mudar?

 

 

A terceira eleição Petista, num ambiente de crescimento interno, mas que externamente, a crise só recrudescia, levou objetivamente a uma mudança de rumos, recuos necessários e claros, para um longa transição econômica local, quase que isolada por um mundo em queda. Esquecer este “pequeno” detalhe é imperdoável para qualquer posicionamento sério. Dilma recebeu um país infinitamente melhor do que Lula recebera, mas os desafios colocados são bem mais complexos, o mundo inteiramente interligado facilitou uma ampla expansão de exportações com Lula, mas agora se restringe com a Crise.

 

A economia é a centralidade do governo, não é economicismo, é a realidade, renegar isto, ou partir para “aventuras” pode nos levar de volta ao passado, basta ver o nosso vizinho-irmão, a Argentina, não adianta fazer estripulias, depois o país não ter saída. O Brasil hoje é a sexta maior economia, tem mais responsabilidades, é uma economia muito mais complexa, que enfrenta uma crise externa terrível, que me ler no Crise 2.0, sabe bem do que se trata. Aqui, não é absolver o modo Dilma de governar, mas entender o que se passa, o que se pode fazer neste momento.

 

As lutas, greves, exigências são normais e importantes para tensionar à esquerda o governo, mas devemos ter claro o que nos ronda, tão proximamente, os limites do próprio governo local. Os esforços de reativar a economia, as políticas de diminuição dos impostos, ao mesmo tempo que não há corte de despesas, pressionam as contas, mas são passos fundamentais, para voltar a ter ciclo virtuoso de crescimento, que permitam a volta e maior incremento às políticas sociais. O caminho é longo e tortuoso, mas fácil pular fora, achar que fomos traídos, mas pensar dialeticamente e com acuidade ajuda a não precipitar nossos julgamentos, sem uma reflexão mais maduro e menos emocional.

0 thoughts on “Brasil e a luta para não retroceder”

  1. Perfeito! A sua síntese do que foi o gov. FHC e os do PT. As vezes fico pensando, porque a turma da esquerda acredita que foi traido. Que o PT esqueceu suas lutas. A Frase mais emblemática é: ” As condições políticas e sociais, bastantes peculiares o levaram ao governo, não ao poder” – Lula trabalhou com as forças que tinha disponivel, ele não tinha o poder de fazer tudo e atender todas as reivindicações da esquerda.

    1. :Lucia, faço minhas suas palavras, posso?
      É isso aí. Lula náo teve o poder de fazer tudo que era e permanece sendo necessário. Mas ele fez muito, e provou, com todo aquele seu leiaute de Petista xiita, que ele tem jogo de cintura, sabedoria, paciëncia, é um diplomata nato.
      Se náo tivesse essas qualidades, náo teria dado certo.
      O sapáo como o chamavam, na verdade náo era ele, o sapáo é o que se interpóe entre o idealismo petista de lula e a corrupção centenária a que estávamos e ainda estamos sujeitos.
      Eu dou um bravo a Lula e outro bravo a Dilma.
      Que continuem em seu afã pelo Brasil, porque náo tem outro jeito, queremos os dois bem vivos por muitas décadas ainda.

      1. Carmen Regina Dias querida, eu compartilho do seu pensamento, e vou mais além, não é só o Brasil que precisa do Presidente Lula não, é o mundo. Um homem que tem o respeito que Lula tem, que é ouvido como é, se bem intencionado como é, pode mudar a face do mundo. A África não vai sair do estado da latência cruel em que sempre esteve, sozinha, nunca. O Bono Vox está querendo montar um projeto para a África com o Lula. Tenho um amigo aqui nos Estados Unidos, Lee Abell, não fala uma palavra em Português, quando há uma notícia má sobre os Estados Unidos, o que não muito raro ultimamente, ele olha para a TV e fica chamando Lula para vir ser Presidente dos Estados Unidos, para levantá-lo. É muito bom ser brasileiro para poder presenciar isso. Há alguns anos atrás isso era impensável…

    2. Acho que o ranço das esquerdas se dá pelo fato do PT, ou melhor Lula, não ter uma ideologia Marxista. Ora para que serve uma ideologia? Particularmente tenho grande simpatia por radicais, mas estes estão fadados a ser pequenos partidos, no Brasil, na Europa e no mundo. E eles têm que saber e se conformar com isso. Adianta fazer um governo “ideológico” e não conseguir tirar a população da miséria? Concordo com você, o FHC foi um fracasso e o PT transformou esse país em um outro Brasil. Respeitado, Líder da América Latina e Caribe, solidário e sem pretensões hegemônicas.

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