Crise 2.0: A Guilhotina

 

O ambiente da Crise 2.0 levou, em menos de dois anos, à guilhotina, apenas na Europa,  dez governos: Islândia, Irlanda, Grécia, Portugal, Reino Unido, Eslováquia, Romênia, Espanha, Itália e Holanda. É uma verdadeira limpeza, não olhando se os governos são de Direita ou Esquerda, ninguém foi poupado, mas há uma crescente preocupação com a força que ganha a extrema-direita. Neste clima de queda, sem soluções de longo prazo, o desespero leva à saída de ruptura, inclusive as com violência.

 

A última queda de governo foi o da Holanda, uma coalização de Centro-Direita, liderada por Mark Rutte, com apoio decisivo da extrema-direita, esta rompeu com o governo devido ao plano apresentado ontem. As bases do plano são as mesmas de todos exigidos pela Troika: Corte no orçamento, mudanças nas aposentadorias. O último item comum, flexibilização do mercado de trabalho, já foi implementado na Holanda, algo bem similar ao feito pela Alemanha, na “Agenda 2010” de Schroeder.

 

Em ambos os países, as taxas de desempregos são as mais baixas da Europa, inclusive entre os jovens, mas por uma maquiagem bem simples dos dados. O mini-emprego, que se caracteriza por trabalho parcial de no mínimo 4 horas por semana é considerado Emprego, esta situação, permitida por lei, reduziu drasticamente as estatísticas de desemprego, dando a falsa ideia de pleno emprego, o que, por exemplo, não é permitido em países como Itália ou Espanha, que só agora rumam para esta extrema flexibilização, que deveria ser melhor caracterizada como Precarização do Trabalho. Mesmo assim a Holanda tem um deficit do orçamento na casa de 4,3%, a regra exigida pela UE é que seja de no máximo 3%. Comparativamente a Espanha hoje tem deficit de 8,2% e Portugal 6,9%.

 

O líder da Extrema Direita Geert Wilders, rejeitou o novo plano, segundo o Estadão: “Pelo pacote, a Holanda aumentaria a idade mínima de aposentadoria de 65 para 66 anos e reduziria de forma importante a ajuda que dá ao desenvolvimento de países mais pobres. Wilders alegou que não aceitaria porque temia que as aposentadorias seriam também afetadas. “Não queremos que os nossos aposentados sofram por causa dos ditadores de Bruxelas”, acusou, em referência à União Europeia (UE)”. (Estadão, 24/04/2012)

 

Percebam que o discurso sobre Bruxelas, sede do Governo Europeu, é o mesmo feito pela Extrema Direita francesa, que amealhou quase 20% dos votos, grande parte na juventude, o grosso dos desempregados na França. Esta facilidade de inflamar um discurso de ruptura é própria neste momento de crise acentuada, que, combinada com a perda de identidade local, aumenta a virulência. Hoje Sarkozy, para fazer a ponte com a extrema direita, diz que a França não pode receber tantos estrangeiros, uma contradição enorme, Sarkô é descendente de imigrantes.

 

As soluções apresentadas pela Alemanha e França, de ajuste fiscal radical, inclusive com cláusula de punição ao países que não cumprirem a regra, leva a mais tensionamento, não resolve o caos econômico, gera desconfiança sobre o real objetivo alemão. Mesmo os governos aliados, se sentem incomodados com esta insistência alemã, mas o medo de desagrada Frau Merkel é maior, o receio de perder as migalhas os tornou reféns da situação. O ponto de inflexão pode ser a derrota de Sarkozy, aí sim, com todas as contradições, as mudanças serão inevitáveis. O isolamento da Inglaterra imposto por Merkel e Sarkozy, pode ser revisto, por exemplo.

 

Outro problema grave, decorrente desta política de austeridade, imposta pela Troika, patrocinada pela Alemanha, é que os governos tecnocratas biônicos de Grécia e Itália não obtiveram sucesso algum, até agora. Os tecnocratas eleitos, Espanha e Portugal, também não, ao contrário, apenas aprofundam a sensação de derrocada e erro geral nos planos. Cada vez se alimenta mais o sentimento extremista, à direita, de ruptura com tudo, sem se saber o NADA que eles oferecem. Uma instabilidade não imaginada 5 anos atrás.

 

O articulista José Paulo Kupfer, do Estadão, hoje também analisa de forma similar ao que escrevi:

“Cortar gastos, principalmente no conjunto que produziu décadas de maior bem-estar social, é o centro da receita. Essa receita é completada pelas tentativas de flexibilizar as relações trabalhistas, abolindo ou suavizando regras e normas de proteção ao trabalhador, como forma de reduzir custos de produção”.

“A receita não tem dado certo. A crise não só mostra resistência como se aprofunda com o passar do tempo. O fato é que os programas de austeridade reduzem a demanda e demanda é tudo o que as economias fragilizadas necessitam”.

Ele, conclui:

“Programas de austeridade visam evitar o agravamento dos déficits e das dívidas. Mas podem, como no caso presente, produzir resultado inverso, agravando-os.  Estrangulando a demanda, seja pela contenção dos gastos públicos ou  pela contenção do crédito, não é possível estimular a produção. Sem produção, aumenta o desemprego e cai a arrecadação tributária Tudo isso torna mais difícil reduzir os déficits”.

 

Alguma dúvida para que serve a Guilhotina?

 

 

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