Crise 2.0: Atores e seus roteiros limitados

 

 

 

“Inda enfim cá tornei. Visto quereres

saber por mim o que lá vai no mundo,

pronto; que antigamente (inda me lembra)

gostavas de me ouvir. É só por isso

que me tornas a ver entre esta súcia.

Tem paciência! Eu, retóricas sublimes,

é coisa que não gasto; e mesmo escuso

deste augusto congresso expor-me às vaias”.

(Fausto – Goethe)

A Crise 2.o pode nos ajudar a entender lance a lance como se desenrolam os bastidores das relações políticas e econômicas das economias centrais, na crise se despem os atores, eles agem com  mais medo, raiva e ódio, se mostram mais inteiramente, é assim que podemos notar alguns destes casos mais complicados de forma mais simples.

 

A Política por trás da Economia

 

A discussão mais central hoje na UE, na verdade entre Alemanha e França é sobre a emissão de Eurobônus, coordenado pelo BCE para resgate dos créditos podres dos países mais atingidos pela especulação dos CDS. Merkel resiste bravamente, abaixo algumas pistas do por que.

Mas para sentir o clima de que realmente a UE hoje não passa de uma união de países que se submetem a Alemanha, por enquanto a França também. Vejamos a vergonha declaração do Presidente da comissão europeria o português José Manuel Durão Barroso “Merkel não é contra o eurobônus; é contra discutir isso no momento errado”.

Mas a questão não se esgota na declaração do submisso Durão Barroso, semana passada em Estrasburgo, Merkel e Sarkhozy, sabatinaram o primeiro ministro italiano Mario Monti, apenas para lembrar, os dois já tinham dado ultimato ao eleito Berlusconi, de que se afastasse do governo, agora, mesmo com um tecnocrata de confiança, fizeram questão de chamá-lo para que não houvesse dúvidas do que se espera dele. Itália não é mais tratada como país, mas apenas uma capitania, com seu governador-geral.

Antes a dupla Merkhozy já humilhara o ex-premier grego, fazendo-o esperar por duas à porta de uma cúpula europeia, sem que lhe franqueasse o assento. Ainda o mandou de volta a Atenas como demissionário, com ordens de dar um fim na idéia de plebiscito e com novo primeiro ministro escolhido por eles. Agora a suprema humilhação: Todos os partidos gregos têm que assinar o plano de salvamento da dívida grega, senão as parcelas não serão liberadas, nem o FMI teve coragem para tanto no Brasil de FHC.

 

A Economia por trás da Política

 

Mas segundo OCDE com dificuldade para conter uma crise de dívida sem precedentes, a zona do euro já entrou em uma recessão e crescerá apenas 0,2% em 2012, disse a OCDE, cortando a previsão anterior de 2%”.(Via Estadão)

O artigo alarmante de Jamil Chade no sábado dá conta que a Itália já paga o maior “prêmio” aos seus títulos, inclusive superior aos pagos por Grécia, Portugal:

Ao emitir nesta sexta-feira € 2 bilhões com vencimento em dois anos, a Itália foi obrigado a pagar taxa de juros de 7,8%, a mais alta do país desde a criação do euro, no final de 1999. Outros € 8 bilhões foram emitidos, com prazo de seis meses, a uma taxa de 6,5%.

Na prática, o preço cobrado pelo mercado é um sinal claro de que os investidores não confiam na capacidade do governo de Mario Monti de superar a crise. Países como Grécia, Portugal e Irlanda tiveram de ser socorridos com a taxa próxima de 7%.

Na quinta-feira, a minicúpula entre Monti, a chanceler alemã Angela Merkel e o presidente francês Nicolas Sarkozy terminou com a constatação que a Alemanha não concordará com a criação de um mecanismo na UE para resgatar governos em dificuldade. Merkel também se recusa a aceitar a ideia de ter o Banco Central Europeu (BCE) atuando para salvar países, projeto apoiado por Itália e França”.

A Bélgica tinha anunciado na quarta que dificilmente cumpria o acordo de salvar o Dexie, pois sua dívida pública estava incontrolável, cerca de 97% do PIB, na Sexta a Em outro sinal da deterioração dos mercados, a agência Standard & Poor’s reduziu a classificação da Bélgica de AA+ para AA, sob a alegação que cresce a possibilidade que o governo de Bruxelas seja obrigado a usar mais uma vez recursos públicos para salvar seus bancos”.( Estadão).

 

The Oscar goes to … Alemanha

 

 

Com todos os percalços a Alemanha é grande “vencedora” deste estado de coisas que se encontra a Europa. Apenas nos últimos dois anos ela economizou 20 bilhões de Euros com suas emissões de bônus de títulos soberanos. Com a imensa exposição dos países em crise seus títulos passaram a ser o “porto seguro”.

Daí a resistência de Merkel resistir a emissão de Eurobônus, ela como CEO dos bancos alemães, não tem menor interesse em ter “concorrência” na especulação, a analise alemã é que a queda, decadência dos outros países não a atinge, facilita inclusive que domine com mais intensidade a Europa.

Mais ainda, a envelhecida sociedade alemã atraiu os melhores jovens cérebros europeus, pagando salários menores, facilitado pela zona do Euro. Virou o objetivo de trabalhadores gregos, espanhóis, portugueses é ir vencer na Alemanha.

Engraçado ler uma crítica, quase moral, de Celso Ming contra o “timing” de Merkel:

“Apesar dos renitentes nãos da Lady No (a chanceler da Alemanha, Angela Merkel), estão próximos os dias em que o Banco Central Europeu (BCE) não terá outra saída a não ser assumir sua até agora renegada função de emprestador de última instância para os Estados nacionais do euro”.

(…)

“A questão é mais profunda. A função mais importante de um piloto de navio não é mantê-lo limpo e abastecido, embora isso também seja importante. É garantir capacidade de navegação. Não se trata de garantir cenários de longo prazo de sustentação do euro, que implicam complicada costura de novos tratados. Trata-se, em primeiro lugar, de impedir seu naufrágio.

Se é que já não foi ultrapassado, o ponto de assegurar a sobrevivência do euro parece muito próximo”.

 

O “papel” coadjuvante da França

 

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Sarkhozy tem sido o fiel escudeiro de Merkel, mas na prática é um degrau abaixo, não só porque a economia francesa é menor, mas a situação dela é extremamente delicada, não desesperadora, ainda, como a da Itália, Espanha, por exemplo.

Mas Sarkhozy defende com unhas e dentes esta parceria com a Alemanha, não é só identidade ideológica com Merkel, mas a força dela, para cobrar aos outros países suas dívidas com os bancos franceses, bastante ameaçados. Apenas com a Itália os bancos franceses são credores de 400 bilhões de Euros.

A Revista “The Economist”numa longa reportagem  “Beware of falling masonry” , aponta que para o pânico e o risco de desintegração do Euro, num de seus gráficos  a relação das dívidas dos países com os bancos franceses( porcentagem do PIB) a Itália deve o equivalente a  21% do PIB francês, a Espanha a 7,6%. Uma situação explosiva dada à imensa crise que estes países estão enfrentando. O Default deles pode “matar” a França.

 

A separação Sarkhozy de Merkel pode se dar na questão do Eurobônus, pois é vital para França, por enquanto eles arrumaram um jeito de contornar, o BCE começou discretamente a comprar os papeis secundários da divida italiana, mas entre Janeiro e meados de Fevereiro a Itália tem renovar 96 Bilhões de Euros de sua dívida, o que afeta diretamente os bancos franceses. Veja gráfico da The Economist com os vencimentos até Fevereiro de 2012.

 

 

 

Grandes emoções no frio inverno europeu…mais uma pausa para os intervalos comerciais!!!

 

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