Crise 2.0: Há saída para a UE?

 

 

 

 

 

“Terra boa é sujeita a muita praga” ( Henrique IV,Parte II, W. Shakespeare)

 

 

Visão dos liberais

 

De muita valia tem sido ler o Estadão, para melhor alinhavar os artigos sobre Crise 2.0, em particular as colunas do Celso Ming, concordando ou não com ele, tem muito rigor, claro se não nos perdermos quando divaga na saudade liberal, mas as informações sempre são relevantes e os temas bem cadenciados.

Hoje a coluna dele “Trovoada lá fora”, corretamente ele aponta as três questões que provocaram temor no mundo inteiro, pela gravidade e relação estreita entre elas:

“(1) A Alemanha, economia mais sadia da Europa, não conseguiu comprador para todo o lote de seus títulos leiloados. Captou apenas 3,6 bilhões de euros, pouco mais da metade do volume pretendido.

(2) O Banco da Grécia (banco central) não só avisou que a dívida ficou insustentável, mas também que o Produto Interno Bruto (PIB) do país recuará ao menos 5,5% neste ano e outros 2,8% em 2012. E acrescentou que cresceu o risco de que a Grécia saia da área do euro.

(3) A Bélgica anunciou que ficou muito difícil garantir participação nas necessidades de capitalização do Banco Dexia, por exigir aumento proibitivo do seu endividamento.” (Estadão, 24/11/2011)

As analises que ele faz para cada item não são tão relevantes, usa muito lugar comum, mas a principal conclusão, sim, é mais que relevante, ela vai apontar para o mesmo caminho que Paul Krugman, que é de outro matiz, também o faz: O BCE tem que agir :

“O agravamento da crise deixa poucas opções aos líderes do euro. Parece cada vez mais próximo o dia em que o governo de Berlim terá, enfim, de admitir que o Banco Central Europeu opere como emprestador de última instância aos Tesouros nacionais e que, assim, trabalhe como bombeiro – como o Federal Reserve (Fed, o banco central americano), em 2008, depois da quebra do Lehman Brothers.”(Estadão, 24/11/2011)

Tanto liberais clássicos como Ming, ou “esquerdista” (seja lá que diabo signifique isto) tipo Krugman, convergem rapidamente para a mesma solução, clamam por racionalidade diante de um “mercado” insano. Querem que o BCE intervenha, ponha ordem “POLÍTICA” nos mercados, assuma uma função ativa e evite o pior.

Eles, certos ou não, já não crêem nas soluções políticas locais, de uma Zona do Euro que hoje se funda, apenas na Moeda comum, então raciocinam que o BCE é o único que pode gestar uma solução aceita por seus sócios.

Há alguma razão no que dizem, basta ver o choque ontem entre Merkel e Barroso, um Comissário Europeu menor, não por ser português, país mergulhado numa crise mais intensa, mas porque o modelo de governança já caducou.

Merkel e Sarkozy atropelaram a lógica de funcionamento. Impondo humilhação aos que estão em pior situação, derrubando e formando novos governos, comprometidos com os bancos deles (Alemanha e França) e não com a UE.

A Crise ontem atingiu a própria Alemanha, quando não conseguiu rolar seus títulos, mas atente bem, a taxa oferecida foi de 1,98, bem inferior aos dos outros países. O Wall Street Journal publica a tabela demonstrativa :

 

 

 

 

 

 

 

 

Visão Oposta

 

Meu amigo Sergio Rauber (Blog  [… A COISA TODA] ) traduziu um texto cortante e critico sobre a atual Crise, de autoria de Andrea Fumagalli, A experiência aberta da ditatdura finaceira, alguns pontos são cruciais para o correto entendimento da crise e suas conseqüências práticas no mundo, selecionei alguns trechos que venho repisando e o artigo o faz de forma brilhante:

A questão da  formação da UE

“Já vimos uma dinâmica semelhante, quando se construiu a união monetária europeia, ideologicamente apresentada como o coroamento do sonho de uma união europeia, política e social. Nada poderia estar mais longe da verdade e agora vemos seus perversos efeitos. Na época, era o início dos anos 90, a necessidade incontornável de cumprir os critérios de Maastricht (ou da “emergência de entrar na Europa”) marcou o decisivo ponto de viragem para a mudança nas políticas de distribuição de renda (a transferência “institucionalizada” dos rendimentos do trabalho para os rendimentos do capital) e para o início do processo irreversível de precarização do trabalho e da vida. Hoje, a emergência é chamada de crise da dívida soberana (ou de “emergência para permanecer na Europa”). E esta é uma situação que, ao contrário do início dos anos 90, encontra um vazio de ação em nível institucional europeu”.

O Poder Real (dos Bancos) x Poder Servil (dos Políticos)

“O biopoder dos mercados financeiros aumentou muito com a financeirização da economia. Se o Produto Interno Bruto mundial em 2010 foi de 74 trilhões de dólares, o das finanças o supera: o mercado de títulos, mundial, com o valor de 95 trilhões de dólares; o das bolsas de valores ao redor do mundo 50 trilhões, os derivativos 466 trilhões (oito vezes mais do que a riqueza real). Tudo isso é muito conhecido, mas o que muitas vezes esquecemos a notar é que este processo, de mudança do centro de valorização capitalística da produção material para imaterial e, da exploração do trabalho manual pelo cognitivo, deu origem a uma nova “acumulação primitiva”, que, como toda acumulação primitiva, é caracterizada por um alto grau de concentração.

No mercado bancário, de 1980 a 2005, verificaram-se cerca de 11.500 fusões, uma média de 440 por ano, reduzindo de tal modo o número de bancos para menos de 7.500 (dados do Federal Reserve). No primeiro trimestre de 2011, cinco holdings (JP Morgan, Bank of America, Citibank, Goldman Sachs, HSBC/EUA) e cinco bancos (Deutsche Bank, UBS, Credit Suisse, Merrill Lynch-CityCorp, BNP/Paribas) têm controle sobre 90% do total dos derivativos (dados OCC, Office of Comptroller of the Currency)”.

(…)

“A governança política real não está mais nas instituições políticas, mas na hierarquia financeira. Tendo sido a politica um servo fiel nos anos 90, durante a construção monetária e monetaristas da Europa, não permitiu que as instituições europeias pudessem manter uma voz. O servilismo da política, enfim, transforma
do em servidão”.


“Tecnocratas”


“As políticas econômicas impostas para Itália e Grécia, Portugal, Espanha não têm como objetivo a consolidação das finanças públicas, mas se destinam a estabelecer, explicitamente, a primazia do poder econômico-financeiro sobre a política (através do controle social, político e midiático feito pelo controle disciplinar financeiro). O caso emblemático é o da Grécia. Depois de quatro ajustes financeiros draconianos em nome de uma suposta recuperação, as previsões do PIB grego para 2011 são desastrosas (- 5,3%), com o resultado que a equação déficit/PIB, longe de ser reduzida é suscetível de aumentar”.

(…)

A mudança política na Grécia e Itália, de fato, confirmam a suposição implícita de que os mercados financeiros são intocáveis”.

(…)

“A natureza problemática da proposta não é “técnica”, mas política, ela é, de fato, a introdução de restrições à circulação no mercado de capitais e a criação uma nova agência com a função de manter os títulos “congelados”. E esta nova agência não pode nem deve ser o BCE, mas sim uma agência de “política” na Europa, visando a construção de uma política fiscal comum europeia destronando soberania fiscal nacional em matéria de tributação e gastos públicos”.

 

Fumagalli ao contrário dos outros  acima não ver solução no BCE, mas numa agência política, o que seria um “Estado Unidos da Europa”? Este é o debate fundamental: Qual a saída?

 

0 thoughts on “Crise 2.0: Há saída para a UE?”

  1. A saída, a meu sentir, é aquela preconizada pela Dilma em sua visita a Bruxelas: fomento estatal ao crescimento econômico, medidas anticíclicas, distribuição de renda, etc

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