Henrique IV: Parte II – O jovem Henrique

 

 

 

 

“Pelas línguas do Rumor chegam ledos e ligeiros, mais fatais do que males verdadeiros”.

 

 

Tema: Drama Histórico, luta pelo poder

Resumo: O jovem príncipe Harry, começa a assumir seu lugar no trono, a doença do pai o afasta da vida de fanfarra. O Velho Rei, doente faz uma mea culpa dos golpes que dera nos adversários para chegar ao trono.

 

Passado Anterior

 

A chegada da casa dos Lancaster ao trono inglês se dar com Henrique Bolinbroke, que entra em guerra com seu primo Ricardo II, que se corrompera no poder, tomando a herança de Henrique. A revolta é vitoriosa, graças a ajuda de Henrique Percy.

Bolinbroke obriga a Montmer abdicar do trono, assumindo ele mesmo como Henrique IV. Nova rebelião e mais uma vez com ajuda de Henrique Percy, Bolinbroke é vencedor. Tentando destruir de vez os adversários, o Rei exige a entrega por Percy dos mesmos, este se recusa provocando uma nova rebelião.

Os filhos de Henrique IV, o jovem fanfarrão Henrique e João vão para linha de frente da batalha lutar contra o temível Henrique Percy. A guerra que se prolonga por quase 100 anos está perto de chegar ao seu fim com a vitória da casa de Lancaster.

Ver mais aqui : Henrique IV: Parte I – Falstaff

 

O Livro


 

 

Na parte I de Henrique IV o primeiro rei da casa de Lancaster, Henrique Bolinbroke, chega ao poder, mas a guerra interna está longe de terminar, o seu grande aliado na primeira fase da luta, Henrique Percy, rompe com ele por não concordar com o massacre dos lordes rebeldes, Montmer e Glendower, nobres, inclusive o primeiro seria o legítimo herdeiro do trono, hora ocupado por Henrique IV.

Henrique IV, com a ajuda dos príncipes Henrique, João e Clarence, além do apoio amplo ao sei governo, vai ao campo de batalha enfrentar os nobres rebelados que buscara forças em Gales e Escócia. A morte de Henrique Percy enfraquece sobremaneira as forças contestadoras.

Mas a estratagema de João de Lencaster é mais decisiva para por fim a guerra, ele chama os lideres rebeldes para formalizar um acordo de paz duradouro que acabe com a guerra que dura quase 100 anos com longas perdas e instabilidade do trono inglês. Os rebeldes enfraquecidos aceitam, ao chegar ao encontro, aceitam dispersar suas forças, João os prende acusando-os de conspiração.

LENCASTRE — A paz foi anunciada; ouvem-se vivas.

MOWBRAY — Mais ruidosos seriam, se tivéssemos vencido.

ARCEBISPO — A paz é como uma conquista: com nobreza as duas partes se submetem; nenhuma delas perde.

LENCASTRE — Ide, milorde, e dispersai também o nosso exército.

(Sai Westmoreland.)

E, meu bom lorde, se acordais, façamos desfilar ante nós ambas as tropas, porque vejamos que homens nós teríamos de combater.

ARCEBISPO — Ide, meu bom Lorde Hastings, fazei-os desfilar antes de se irem.

(Sai Hastings.)

LENCASTRE — Espero, lordes, que hoje à noite havemos de dormir juntos.

(Volta Westmoreland.)

Primo, por que causa ainda se acha parado o nosso exército?

WESTMORELAND — Os chefes, aos quais destes outras ordens, não querem dispersar sem vos ouvirem.

LENCASTRE — Conhecem seu dever.

(Volta Hastings.)

HASTINGS — Milorde, nossas forças já se foram. Como novilhos livres, debandaram para este, oeste, norte e sul; ou como crianças depois da escola, correm todos em direção de casa ou dos folguedos.

WESTMORELAND — Boas novas, Lorde Hastings. Como prêmio, eu te prendo, traidor de alta traição; e vós, Lorde Arcebispo, e vós, Mowbray, por traição capital a ambos detenho.

MOWBRAY — Semelhante conduta é justa e honrosa?

WESTMORELAND — Vossa sublevação o é, por acaso?

ARCEBISPO — Faltareis, desse modo, ao juramento?

LENCASTRE — Não jurei coisa alguma; apenas disse que iria corrigir alguns abusos de que vos lamentáveis. Por minha honra! com consciência cristã hei de fazê-lo. Mas vós, rebeldes, heis de ter a paga que se deve à traição e a atos quejandos. Com simpleza a esses homens aliciastes, e ora mais loucamente os dispersastes. Persigamo-los, pois! Toca a rebate! Não somos nós, é Deus que hoje combate. Para o cepo os traidores sigam breve, que é o leito onde a traição expirar deve.

 

Henrique IV, com pouco mais de 50 anos, a maioria deles vividos em meio às guerras, está muito adoentado, reúne os filhos e confessa-lhes os vários crimes que cometera, de como fora demagogo com o povo antes de se tornar Rei, como traíra seus aliados, com o objetivo de chegar ao poder. Logo a seguir morre, o jovem Henrique assume o trono como Henrique V.

REI HENRIQUE — Ó Deus! Se se pudesse ler o livro do destino e as mudanças ver do tempo: montanhas que se aplainam, continentes — enfarados da sólida estrutura — fundirem-se no mar! Ou, noutras épocas, ver a úmida cintura dos oceanos larga para as costelas de Netuno, e as chacotas da sorte, e a variedade de licores da taça da inconstância! Se se visse tudo isso, o mais risonho mancebo, ao contemplar a estrada ingente, os perigos passados, os desgostos em perspectiva, o livro fecharia e a chamar pela morte se deitara. Dez anos não passaram desde que Ricardo com Northumberland se regalavam juntos, como amigos. E, dois anos depois, se combatiam! Há oito anos esse Percy era a pessoa mais chegada à minha alma; em meus trabalhos, como irmão, me ajudava; punha a vida e a afeição a meus pés; foi mesmo a ponto de lançar a Ricardo um desafio. Qual de vós lá se achava? (A Warwick.) Primo Nevil, lembra-me agora, vós, quando Ricardo, com os olhos marejados, posto em xeque já por Northumberland, disse as palavras que proféticas ora se tornaram: “Northumberland, escada de que o primo Bolingbroke se serve para vir até o meu trono…” ainda que eu não tivesse — Deus o sabe — semelhante intenção; mas o infortúnio tanto o Estado abaixou, que eu e a gra
ndeza nos vimos compelidos a beijar-nos: “Há de chegar o tempo”, continuou, “há de vir tempo em que este crime hediondo romperá qual postema”. Desse jeito prosseguiu, predizendo os fatos de hoje e a divisão de nossos sentimentos.

(…)

REI HENRIQUE — Ó meu filho! Foi Deus quem te inspirou para levá-la, porque o amor de teu pai acrescentasses advogando tua causa desse modo. Chega-te, Henrique, assenta-te em meu leito e ouve — assim penso — os últimos conselhos que posso respirar. Deus é que sabe, meu filho, por que vielas e caminhos tortuosos eu cheguei até à coroa, não ignorando eu próprio quão pesada me foi sempre à cabeça. Bem mais calma desce ela para ti, com mais respeito da opinião, por estar ratificada, que as manchas da conquista irão comigo para o sepulcro. Em mim, se afigurava somente honra pilhada com mão forte; tive de suportar que muita gente me fizesse lembrado o havê-lo obtido com a ajuda que me deram, causa sempre de contendas, de golpes sanguinosos, numa paz ilusória. Esses temores arrogantes — tu o sabes — arrostei-os com assaz perigo, pois o meu reinado não passou de uma cena em que essa idéia fosse desenvolvida. Minha morte vai mudar isso tudo, pois o que era compra, te passa agora por maneira mais digna, por direito hereditário. Contudo, embora estejas mais seguro, não te achas ainda firme, pois as queixas não murcharam de todo. Os meus amigos — que teus deverão ser — somente há pouco se privaram de dentes e de garras; à sua ajuda brutal devendo o trono, receava sempre vir a ser deposto pela força que tinham. Dividi-os, a fim de evitar isso, e era meu plano conduzi-los agora à Terra Santa, para que o ócio e o repouso não lhes dessem vagar de examinar-me mui de perto. Toma por norma, Henrique, ocupar esses espíritos inquietos em contendas distantes, porque a ação longe da pátria perder faça a memória do passado. Mais te diria; mas tão gastos se acham meus pulmões, que falar não me é possível. A coroa… que Deus me perdoe à alma, e te conceda usá-la com mais calma.

PRÍNCIPE — Meu gracioso senhor, foi por vós ganha e usada; agora a obtenho; legítimo direito nela eu tenho. A defendê-la correrei primeiro, ainda mesmo que a ataque o mundo inteiro.

 

A trama paralela, ficcional, é dominada por Falstaff que recebera como prêmio de ter lutado ao lado de Henrique contra os rebelados, o título de “Cavaleiro Real”. Com isto passa a usar o título para aplicar seus freqüentes golpes, além de dizer ser amigo o Rei que sobe ao trono.

FALSTAFF — Olá, gigante, que disse o doutor de minhas águas?

PAJEM — Disse, senhor, que, em si mesmas, as águas eram boas e sadias, mas que a pessoa a que pertenciam devia ter mais doenças do que ele suspeitava.

FALSTAFF — Homens de toda a espécie encontram prazer em zombar de mim. O cérebro desse estúpido composto de argila que se denomina homem não é capaz de inventar coisa alguma que provoque o riso, além do que eu invento ou do que se inventa a meu respeito; não somente sou espirituoso por mim mesmo, como também a causa de que outros venham a ter espírito. Andando deste modo diante de ti, pareço uma porca que houvesse esmagado todos os leitões, com exceção a um. Se o príncipe não te pôs a meu serviço apenas para que eu sobressaísse pelo contraste, é que careço completamente de juízo.

LORDE JUIZ — Sir John, eu vos mandei intimar antes de vossa expedição a Shrewsbury.

FALSTAFF — Com licença de Vossa Senhoria, ouvi dizer que Sua Majestade voltou indisposto do país de Gales.

LORDE JUIZ — Não estou falando agora de Sua Majestade; não atendestes à minha intimação.

FALSTAFF — Além disso, ouvi dizer que Sua Alteza ficou também atacado dessa infame apoplexia.

LORDE JUIZ — Bem; o céu dará remédio a isso. Mas permiti que vos fale, por obséquio.

FALSTAFF — Essa apoplexia, no meu fraco pensar, é uma espécie de letargia, com licença de Vossa Senhoria; uma espécie de adormecimento no sangue, uma zoeira dos demônios.

LORDE JUIZ — Mas a que vem isso, afinal? Seja ela o que for.

FALSTAFF — Provém de tristezas, do estudo e de perturbações do cérebro. Li em Galeno a causa de seus efeitos: é uma espécie de surdez.

LORDE JUIZ — Acho que é disso que estais sofrendo, porque não ouvis o que vos falo.

FALSTAFF — Perfeitamente, milorde, perfeitamente; mas, com vossa licença, o que me aflige mais é a doença de não escutar, de não prestar atenção.

LORDE JUIZ — Um castigo nos calcanhares faria melhorar essa desatenção dos ouvidos; não se me dava de ser o vosso médico.

 

Os irmãos de Henrique, João e Clarence, aconselham-no a se afastar do seu passado de farras e bebedeiras, rompendo com seus antigos amigos, pois a má-fama do jovem era conhecida por toda a corte. Henrique atende aos irmãos e renega publicamente Falstaff.

 

FALSTAFF — Deus salve tua graça, rei Hal, meu real Hal!

PISTOLA — Os céus te guardem e te preservem, augusto garfo da Fama!

FALSTAFF — Deus te proteja, meu doce menino.

REI HENRIQUE V — Falai a esse homem vão, Lorde Juiz.

LORDE JUIZ — Sabeis o que dizeis? Estais no juízo?

FALSTAFF — Meu rei, meu Jove! É a ti que eu falo, amor!

REI HENRIQUE V — Não te conheço, velho; vai rezar. Como vão mal as cãs num galhofeiro! Muito tempo sonhei com um homem destes, profano e velho, inchado pela orgia; mas, desperto, renego do meu sonho. Diminui o teu corpo, aumenta a graça, deixa a gula; compreende que o sepulcro vai abrir para ti boca três vezes maior que para os outros. Não repliques com uma dessas chalaças de bufão; não presumas que eu seja o que já fui, pois Deus bem sabe — e o mundo há de notá-lo — que me livrei de minha antiga forma e outro tanto farei com os companheiros.

 

Comentário sobre o Livro

 

A continuação de Henrique IV é um tanto quanto melancólica, o frescor da juventude rebelde de Henry, suas bebedeiras e chistes, são substituídas pelo rigor palaciano. Interessante ver como são feitos e preparados os golpes, a vilania de dar a palavra e logo trair o combinado.

Ainda as reflexões do velho Rei, que tanto lutara pelo poder, de forma a não respeitar os inimigos, muito menos os amigos. Agora, ainda cedo, chega ao leito de morte vencido pelas dores das guerras e solidão de não contar com os rostos dos amigos que, na sede de conservar a coroa, matara.

Henrique IV, Parte II

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