Crise 2.0:Itália – O epicentro da crise

 

 

 

 

 

“Religionum animum nodis exsoluere pergo” (esforço-me por libertar o espírito dos nós das superstições) Tito Lucrécio Caro

 

Itália em chamas

 

Por uma incrível sucessão de crises anteriores, a Itália foi escapando do foco. Primeiro veio Irlanda, depois Portugal, logo a seguir Espanha e finalmente o “patinho feio”, os “maus” gregos, gastadores, fanfarrões, pródigos, de tudo o mais que vocês imaginarem eles foram apelidados – mas nada de a Itália aparecer como ator principal.

O grande medo de TODOS os analistas é que a situação italiana não chegasse as manchetes; Paul Krugman chegou a propor há menos de um mês que todos os recursos europeus fossem direcionados para comprar os títulos italianos e espanhóis, pois com a queda deles virá abaixo toda economia europeia e mundial.

No dia 12 de julho, há quase quatro meses, escrevi um artigo apontando as raízes dos problemas italianos:

Crise 2. 0 – Itália um case de insucesso

Aponto ali todos os elementos da crise, na verdade, da decadência a olhos nus do modo de vida italiano. Sua imensa dívida pública é de 1,9 (1,8, na época) trilhão de euros, que dá mais ou menos 120% de seu PIB, mas muito além do valor dela é sua incapacidade de refinanciamento.

A decadência italiana tem em Berlusconi a perfeita tradução da imagem do dirigente-empresário de negócios escusos tornado político de primeiro time de um partido de orientação neofascista, mimetizando a corroída sociedade italiana. Por mais que se busque é muito difícil encontrar palavras e adjetivos que qualifiquem o burlesco midiático; apenas numa sociedade decadente uma figura desta magnitude pode governar por tão longo tempo. Berlusconi com certeza faria parte da fauna dos retratos escritos por Suetônio sobre os césares.

Paralisada politicamente, aqui a crítica não pode ser moral, mas bem que merece, pois Berlusconi é o que de pior se pensa num dirigente, é a história fascista repetida como farsa. Bilionário que atrelou o Estado a seus mais baixos caprichos, com leis que impedem investigações sobre si ou suas empresas, envolvido em escândalos sexuais, com claros indícios de ligações com o submundo do crime, a prostituição de adolescentes, as drogas, um espetáculo de horrores amplamente encenado e repetido nas suas TVs como se fosse bom.

 

 

Economia no Epicentro da crise

 

A cambaleante economia italiana entra em coreografia com sua política, e neste “balé esquisito” só pode ser uma cena trágica. A dívida pública da Zona do Euro não podia ir acima do limite de 60% do PIB – a da Itália é de 120%. Comparando com a grega, em julho era o mesmo montante, porém, com a piora do cenário, hoje chega aos 180%. A grande diferença é que a economia grega equivale a 2% da Europa, enquanto a italiana é/era a terceira maior da zona do Euro, chega a quase 17% da EU, ou seja, 8 vezes maior.

Os números apontam para uma tragédia sem fim, pois, de novo comparando com a Grécia, a sociedade italiana é/era uma das mais sofisticadas do mundo, enquanto a sociedade grega teve seu auge no século V antes da era cristã. A Itália, depois do fim do império romano, voltou a se unificar na metade do Século XIX, voltou a figurar entre os grandes, foi arrebentada em duas guerras, mas se reafirmou no pós-guerra.

Quando da criação da União Europeia, estava entre as maiores e mais fortes economias, era parte principal do clube, com amplas possibilidades de crescer e suas empresas se expandirem para além de suas fronteiras. Mas tudo isto ruiu de forma relativamente rápida por uma sucessão de crise políticas e sociais, desde a confusa operação “Mãos Limpas”, que acabou redundando nas “mãos sujas” de Berlusconi e na volta do neofascismo burlesco ao poder.

O midiático Berlusconi hoje atrai a ira de todos os lados; é irônico ler o que diz Pablo Ordano, no El País de hoje:

“Ao encerramento desta edição, incrivelmente, Silvio Berlusconi continuava no poder. No dia em que, mais cedo que tarde, o primeiro-ministro italiano não tiver outro remédio senão dar o passo para trás que tantos lhe pedem, não haverá mais vontade nem forças para comemorar. A grande crise que a Europa atravessa deixou a Itália nua diante do espelho. Até agora, o que a opinião pública ia sabendo de Berlusconi eram suas saídas de tom, seus tristes desvarios sexuais, seus problemas com a justiça. Uma cortina de fumaça perfeita para ocultar uma gestão espantosa, um país em números vermelhos, uma classe política desprestigiada, um autêntico desastre envolto no belo papel da paisagem, da cidadania e da história.”

Diz mais

“Uma pergunta que, por sua vez, é preciso dividir em duas. Quanto custa para Berlusconi e quanto custa para a Itália? A primeira não tem muita importância. Na Itália todo mundo dá por certo, e até por aceito, que a carteira de um dos homens mais ricos da Europa – segundo a revista “Forbes”, suas empresas estão avaliadas em US$ 9 bilhões – foi fundamental em sua ascensão ao poder e, sobretudo, em sua permanência. A pergunta fundamental, portanto, é quanto está custando ao país?”

Mas como de costume, o articulista culpa os trabalhadores, e joga em suas costas a responsabilidade pelo desastre italiano, porque depois de 40 anos de contribuição estes trabalhadores podem usufruir de pensão por aposentadoria e o governo Berlusconi não tem coragem de mexer com os 4 milhões de pensões ao custo de 73 bilhões de euros ao ano.

Aqui no Brasil Celso Ming desdenha dos defensores da soberania no caso grego, além de ironizar o fato de Merkel e Sarkozy terem dado duras ordens ao ex-primeiro-ministro grego e o deixar esperando por duas horas, numa demonstração de desprezo por ele e pelos “irresponsáveis” gregos. Vai além dizendo que Berlusconi foi desancado em Bruxelas por sua conduta inconsequente no governo italiano, necessitando de punição. Celso Ming usa as figuras de Hybris (falta de medida), Ate (loucura) e Nêmesis (castigo/destruição) para exemplificar a má conduta de gregos e italianos, e, para variar dos brasileiros. “Adoro” os moralistas, até os de direita.

A queda ou não do governo Berlusconi, assim como o de Papandreou, pouco ou nada muda no cenário de crise, mas está claro que a catástrofe italiana é bem mais funda: apenas em novembro os títulos da dívida italiana vencidos somam 30 bilhões de euros, e em dezembro serão 22,5 bilhões – as taxas de corretagem para rolagem chegam a 6,66% ao ano, muito superiores aos 4,5% de 3 meses atrás, que já eram altas demais para o padrão europeu.

A maior contradição de toda esta crise é que não se gestou uma saída à esquerda. Mesmo no caso de Berlusconi, com um governo fracassado, a opção a ele é diretamente o fascista Bossi, e o cenário mais pessimista colocado é a dissolução interna do país como grande possibilidade.

E pensar que há não menos de 20 anos um certo Fukuyama decretou o “fim da história”, pois, com a queda do muro de Berlim, as ideologias se dissolviam, o capitalismo era triunfante, não havia mais lugar para a “História”. Teimosamente, continuamos discordando, tanto à direita, como à esquerda, até dos “indignados” que negam a história, a nossa única e última fonte viva do homem.

 

0 thoughts on “Crise 2.0:Itália – O epicentro da crise”

  1. Começo a comentar o texto, mais uma vez preciso e extremamente relevante,
    relembrando que na Europa pre-EURO pesquisas de opinião pública
    apontavam que o ITALIANO era o povo com maior indice de satisfação
    com seu modo de vida, o italiano, não o suiço, não o alemão, não o francês.
    E ainda, toda a EUROPA apontava a ITALIA como o país com melhor qualidade de vida. Surgiram diversas piadas inclusive no contexto da Comunidade Européia
    que ilustravam isso.

    Passam-se os anos. Instala-se a EUROZONA, ou a ZONA do EURO,
    em todos os sentidos, com o perdão do trocadilho,
    e o que se assiste é uma ITALIA que beira o colapso e com fortes riscos
    de se tornar a proxima cena da ruptura institucional e nacional.

    Alguns detalhes levaram a ITALIA até ai, vc apontou muito bem vários deles.
    Mas há algo que escapa a muitos, Berlusconi, com seu estilo e seu discurso, infelizmente reproduz grande parte do italiano,
    da ITALIA de Mussolini à Operação Gládio. Por isso se mantém no poder.
    Por isso e porque a ITALIA que ele NÃO representa, a “sinistra”,
    não consegue se organizar de forma decente há décadas.
    Não consegue inclusive porque o grupo representado por Berlusconi controla a mídia com mãos de ferro. Existiu uma briga no passado entre a GLOBO e Berlusconi. Quem “ganhou”? Berlusconi. Isso dá a medida do poderio.

    Acrescente-se a isso o fato de que no coração da ITALIA há outro estado fascista, o VATICANO. E para entender a questão do VATICANO hoje relembre-se Pio XII, a Loja PII e o escândalo do Ambrosiano, com o fortalecimento do OPUS DEI, nesta ordem, chegamos a Ratzinger,
    totalmente coligado à sua pátria-mãe, a Alemanha, que quer porque quer impor pelo comando de MERKOZY sua vontade à EUROPA numa espécie de terceira guerra mundial econômica.

    POVERA ITALIA.

    1. E a direita toma a dianteira.
      isso também ocorre na ESPANHA no momento,
      o Zapatero conseguiu destruir o PSOE aos olhos do eleitorado
      que quer “castigar” o partido votando num preposto do OPUS DEI,
      candidato do PP, um proto-fascista que faz o Berlusconi parecer anjo.

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