Mito de Prometeu e as religiões

 

 

 

 

 

 

“Zeus te ocultou a vida no dia em que, com a alma em fúria, se viu ludibriado por Prometeu de pensamentos velhacos. Desde então ele preparou para os homens tristes cuidados, privando-os do fogo”  (Os trabalhos e os Dias – Hesíodo)

 

Introdução

 

Dois anos atrás postei no blog O Prometeu Acorrentado – Resenha e Análise um texto que escrevi tem quase vinte anos, mas não me senti satisfeito porque não cumpria as diversas facetas do Mito de Prometeu, várias vezes tentei reescrever, mas não gosto de mexer no que já foi escrito, resolvi então fazer uma nova leitura do mito, abrindo um novo enfoque.

Algumas das mais terríveis dores que atingiu Prometeu, hoje sinto e passo, as angustias e incertezas da vida, as agruras causadas pela doença de um ente querido provocam em mim, um misto de dor e impotência, a revolta de não aceitar já muito me consumiu e torturou, mas, agora, convivo mais com a necessidade de que o tempo passe logo e possamos ser libertado, assim como aconteceu ao Prometeu. Vamos em frente, sigamos nossa luta.

 

 

Prometeu Acorrentado revisitado

 

 

Zeus, o vencedor da guerra contra seus tios Titãs, graças à fundamental ajuda de seu primo, Prometeu (o Previdente – aquele que antever o futuro e age), que lhe dera o fogo, resolve dizimar a raça dos mortais que não lhe ajudara na sua luta pelo poder. Planejava uma nova raça, que lhe fosse fiel e submissa.

 

Prometeu ajuda os humanos a prestar culto a Zeus, o novo senhor dos deuses e dos homens, mas a ira não lhe fora aplacada, a desconfiança leva Zeus a impor terrível castigo: privou o homem do Fogo, quer dizer, simbolicamente dos nûs, da inteligência, tornando a humanidade anóetis, isto é, imbecializou-a.

 

Prometeu rouba o fogo sagrado de Zeus e dar aos humanos, este fogo é a sabedoria, ciência, matemática, medicina e as letras. De posse dele os homens já poderão enfrentar os males advindos da caixa de Pandora, mais ainda, não dependem de Zeus e suas vontades para sobreviverem. Aqui um paralelo bíblico, Jesus após subir aos céus envia aos apóstolos o “Espírito Santo” na forma de “fogo”, que por mera coincidência dar a eles: Sabedoria, Ciência, Filosofia.

A própria questão do Fogo faz parte de quase toda as culturas, mestre Junito de Souza Brandão nos lembra a sua importância em vários cultos e religiões:

Quanto ao fogo propriamente dito, a maior parte dos aspectos de seu simbolismo está sintetizada no hinduísmo, que lhe confere uma importância fundamental. Agni, Indra e Sûrya são as “chamas” do nível telúrico, do intermediário e celestial, quer dizer, o fogo comum, o raio e o sol. Existem ainda dois outros: o fogo da penetração ou absorção (Vaishvanara) e o da destruição, que é um outro aspecto do próprio Agni.”

“Consoante o I Ching, o fogo corresponde ao sul, à cor vermelha, ao verão, ao coração, uma vez que ele, sob este último aspecto, ora simboliza as paixões, particularmente o amor e o ódio, ora configura o espírito ou o conhecimento intuitivo. A significação sobrenatural se estende das almas errantes, o fogo-fátuo, até o Espírito divino: Brahma é idêntico ao fogo (Gîtâ, 4,25).”

“Os taoístas penetram nas chamas para se liberar do condicionamento humano, uma verdadeira apoteose, como a de Héracles, que, para se despir do invólucro mortal, subiu a uma fogueira no monte Eta. Mas há os que, como os mesmos Taoístas, entram nas chamas sem se queimar, o que faz lembrar o fogo que não queima do hermetismo ocidental, ablução, purificação alquímica, fogo este que é simbolizado pela Salamandra”

 

 

A vingança de Zeus

 

 

Zeus resolve punir de vez aos humanos e a Prometeu, seu primeiro intento foi dar a Epitemeu(aquele que sabe o futuro,mas não age,apenas lamenta -irmão de Prometeu) uma esposa Pandora ( uma mulher moldada por Hefesto, o Deus ferreiro, nos tempos de hoje ela seria uma Andróide) e uma Caixa de pmágica de presente, a caixa dos males. Dentro daquela caixa, se aberta, as doenças, a morte, a velhice, deformidades, seriam espalhadas para destruir aquela raça inferior. Aqui há um paralelo bíblico com a maçã, o fruto proibido, que Eva terá a sua frente.

A caixa de Pandora é aberta, assim como a maçã é comida. Para ambas as situações o mal absoluto é o castigo, Pandora liberta as doenças terríveis, os homens passam a conviver com a seca, estiagem, extremo frio, a morte à espreita. Adão e Eva, são expulsos do paraíso, terão que viver do trabalho, domar a natureza, para sua sobrevivência. (é apenas um paralelo, entre tantas que se estabelecem em religiões e crenças antigas).

 

 

O castigo de Prometeu é sua prisão no Cáucaso, as montanhas nos Urais, lá acorrentado por Hefesto, exposto ao Sol e às ondas do mar, ele ainda é atormentado por águia que lhe devora o fígado, depois espera que o mesmo de regenere e volta comer-lhe. Este terrível castigo é uma das mais fortes cenas da literatura que conheço, lembra o sofrimento continuo de que esta doente, com esperança vã de curar-se.

 

 

Sincretismo Religioso

 

Religionum animum nodis exsoluere pergo — esforço-me por libertar o espírito dos nós das superstições  (Tito Lucrécio Caro – De Rerum Natura, I, 932)

 

Outro paralelo obrigatório entre Prometeu e a Bíblia é a possível identidade dele com o Anjo da luz, aquele que desafia Jeová e é banido dos céus, do convívio dos anjos, arcanjos e querubins. O que nos remete a uma conclusão de que o sincretismo religioso, a absorção pela nova igreja das antigas religiões era fato comum e uma form
a de conquista de novos adeptos dentro das regiões “pagãs”. Absorviam os vários mitos dando-lhe novas conotações.

Aliás, o sincretismo foi a cadeia necessária para sobrevivência de vários deuses menores absorvidos em novos cultos na própria Grécia, mais ainda na cultura Romana, que em muito bebeu na fonte grega. Uma cadeia direta liga os vários mitos e religiões. Nas palavras de Junito: A religião homérica resulta de um vasto sincretismo e de influências várias, no tempo e no espaço.

 

 

9 thoughts on “Mito de Prometeu e as religiões”

  1. Existem muitos sincretismos entre a religião Judaico-Cristã, expressa mais precisamente na biblia, podemos destacar também a questão do Dilúvio

    Dilúvio grego: Que Poseidon tería inundado a terra no sentido de por fim à existência humana, devido aos homens terem aceitado o fogo cedido por Prometeu. Este teria avisado ao seu filho Deucalião (E a esposa Pirra) construir um barco. Assim este teria sobrevivido e após tocado em pedras e transformando em homens, e as tocadas por sua esposa Pirra teria transformado em mulheres.

    Diluvio Sumério, que relata a história de Gilgamesh, que teria contruido um barco para livrar-se do acontecimento:

    “Eu percebi que havia grande silêncio, não havia um só ser humano vivo além de nós, no barco. Ao barro, ao lodo haviam retornado. A água se estendia plana como um telhado, então eu da janela chorei, pois as águas haviam encoberto o mundo todo. Em vão procurei por terra, somente consegui descobrir uma montanha, o Monte Nisir, onde encalhamos e ali ficamos por sete dias, retidos. Resolvi soltar uma pomba, que voou para longe, não encontrando local para pouso retornou (…) Então soltei um corvo, este voou para longe encontrou alimento e não retornou.” (TAMEN, Pedro. Gilgamesh, Rei de Uruk. São Paulo: ed. Ars Poetica, 1992.)

    Dilúvio hindu: Nas escrituras de védicas sagradas da India Svayambhuva Manu – Rei – Teria sido avisado por Vishnu sobre o tal temporal em tempo hábil para construir um barco livrando-se da destruição.

    Temos ainda várias culturas antigas que já relatavam o dilúvio, dentre elas: Dilúvio mapuche, Dilúvio maia, Dilúvio pascuenses, Dilúvio asteca, Dilúvio inca, Dilúvio Uro etc.

    A hipótese que a História levanta é de que o Dilúvio teria origem no Degelo da última glaciação.

  2. Existem muitos sincretismos entre a religião Judaico-Cristã, expressa mais precisamente na biblia, podemos destacar também a questão do Dilúvio

    Dilúvio grego: Que Poseidon tería inundado a terra no sentido de por fim à existência humana, devido aos homens terem aceitado o fogo cedido por Prometeu. Este teria avisado ao seu filho Deucalião (E a esposa Pirra) construir um barco. Assim este teria sobrevivido e após tocado em pedras e transformando em homens, e as tocadas por sua esposa Pirra teria transformado em mulheres.

    Diluvio Sumério, que relata a história de Gilgamesh, que teria contruido um barco para livrar-se do acontecimento:

    “Eu percebi que havia grande silêncio, não havia um só ser humano vivo além de nós, no barco. Ao barro, ao lodo haviam retornado. A água se estendia plana como um telhado, então eu da janela chorei, pois as águas haviam encoberto o mundo todo. Em vão procurei por terra, somente consegui descobrir uma montanha, o Monte Nisir, onde encalhamos e ali ficamos por sete dias, retidos. Resolvi soltar uma pomba, que voou para longe, não encontrando local para pouso retornou (…) Então soltei um corvo, este voou para longe encontrou alimento e não retornou.” (TAMEN, Pedro. Gilgamesh, Rei de Uruk. São Paulo: ed. Ars Poetica, 1992.)

    Dilúvio hindu: Nas escrituras de védicas sagradas da India Svayambhuva Manu – Rei – Teria sido avisado por Vishnu sobre o tal temporal em tempo hábil para construir um barco livrando-se da destruição.

    Temos ainda várias culturas antigas que já relatavam o dilúvio, dentre elas: Dilúvio mapuche, Dilúvio maia, Dilúvio pascuenses, Dilúvio asteca, Dilúvio inca, Dilúvio Uro etc.

    A hipótese que a História levanta é de que o Dilúvio teria origem no Degelo da última glaciação.

    Adriano Leres
    @Adrianoleres

  3. Eventuais paralelos entre a Bíblia e outros testemunhos da cultura mediterrânea e oriental são fáceis de encontrar. Difícil é determinar a filiação entre os termos de comparação ou sua influência recíproca.

    Para o caso citado de Prometeu, a referência a Lúcifer é tênue, senão inexistente, pois a descrição da queda de Satã encontra-se mais nos tradicionais comentários à Bíblia do que no próprio texto sagrado.

    Por outro lado, a doutrina sobre o diabo tem sua origem na Sinagoga, não na Igreja. Além disso, não parece ter matriz sincrética, visto que contradiz abertamente as típicas visões sobre o mal presentes nas outras religiões.

    Em conclusão, parece-me que não devemos ver nas aparentes semelhanças mais do que as similaridades próprias da vida e das narrativas.

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