Amy e o Páthos do Herói

Definição do Herói


“O herói é aquele que se exaure na sua missão, vive para a sua causa. Como seres que não são deuses nem humanos, são intermediários entre o mundo da consciência e o inconsciente. São “daímones”, são o traço-de-união entre o mundo dos homens e o mundo divino” (Junito de Souza Brandão)

A morte de Amy Winehouse  e o grande post do meu amigo Ricardo “Klaxon”( “don’t go to strangers” ) me fez entender melhor sobre ela, confesso que não a conheço com profundidade suficiente para admirá-la mais ainda, mas a visão do amigo colocou luz no meu caminho. Afora o grande vídeo que ele apresenta no final, que ele me diz no Gtalk: “Ela vivia num mundo paralelo, parece distante no dueto, mas aquilo era ela mesma”

Refletindo sobre isto neste fim de semana me fez lembrar um texto que escrevi não faz muito tempo em que descrevo A questão do Herói – Grécia sopra sobre nós , algum dos elementos essenciais do mito do herói foi incorporado por gênios nas artes, em especial cantores e atores, até a sua morte em tenra idade completa o arquétipo do mito.

Vejamos num dos trechos a citação de Angelo Brelinch na sua obra sobre os heróis,”Gli Eroi Greci”, ele nos ensina sobre estrutura morfológica dos heróis:

“virtualmente, todo herói é uma personagem, cuja morte apresenta um relevo particular e que tem relações estreitas com o combate, com a agonística, a arte divinatória e a medicina, com a iniciação da puberdade e os mistérios; é fundador de cidades e seu culto possui um caráter cívico; o herói é, além do mais, ancestral de grupos consangüíneos e representante prototípico de certas atividades humanas fundamentais e primordiais. Todas essas características demonstram sua natureza sobre-humana, enquanto, de outro lado, a personagem pode aparecer como um ser monstruoso, como gigante ou anão, teriomorfo ou andrógino, fálico, sexualmente anormal ou impotente, voltado para a violência sanguinária, a loucura, a astúcia, o furto, o sacrilégio e para a transgressão dos limites e medidas que os deuses não permitem sejam ultrapassados pelos mortais. E, embora o herói possua uma descendência privilegiada e sobre-humana, se bem que marcada pelo signo da ilegalidade, sua carreira, por isso mesmo, desde o início, é ameaçada por situações críticas. Assim, após alcançar o vértice do triunfo com a superação de provas extraordinárias, após núpcias e conquistas memoráveis, em razão mesmo de suas imperfeições congênitas e descomedimentos, o herói está condenado ao fracasso e a um fim trágico”.

Píndaro definia que existiam três categorias de seres: Deuses, heróis e homens, Platão acrescentou “Demônios” como uma quarta. Com esta visão, os heróis trazem em si algo dos deuses e muito de nós reles humanos, sua figura sobre-humana causa em nós espanto, amor, respeito, mas também uma profunda inveja de seus feitos e talentos.

Heróis cumprem aos nossos olhos missões de grande valor por sua força descomunal, sua arte apurada, mesmo na tenra idade ele já apresenta dotes jamais imaginados, Heracles no berço mata duas serpentes, Ártemis já era excelente caçadora. Mozart aos quatro anos já tocava com maestria e suas primeiras sinfonias ele contava com 11 anos. Michael Jackson cantava melhor que os irmãos quando ainda era criança.

A questão da morte do herói


A extrema precocidade na vida de um herói é uma espécie de antecipação pois em regra a vida é breve. As escolhas que fazem também são trágicas. Aquiles com vinte anos é perguntado por sua mãe:

“Se for a guerra de Tróia você morrerá muito novo, porém será eternizado por sua bravura heróica, mas se não for será um excelente rei e viverá longamente com larga prole. O que preferes?”

Aquiles, herói por excelência não vacila, prefere morrer jovem e brilhar intensamente, para que três mil anos depois ou louvemos.

Escrevi ainda no texto sobre a morte do Herói:

“Se o herói tem um nascimento difícil e complicado; se toda a sua existência terrena é um desfile de viagens, de arrojo, de lutas, de sofrimentos, de desajustes, de incontinência e de descomedimentos, o último ato de seu drama, a morte, se constitui no ápice de seu páthos, de sua “prova” final: a morte do herói ou é traumática e violenta ou o surpreende em absoluta solidão.”

Jonh Bonham com 5 anos já tocava em latas e caixotes, muito jovem se junta a Page e Robert Plant e ainda hoje é reverenciado como o maior baterista do Rock, é quase impossível não se mexer ao ouvir “Rock and Roll” e sua poderosa batida. Bonham morreu com apenas 32 anos asfixiado no próprio vômito, mas deixo o legado como se toca uma bateria.

Janis Joplin e Jimi Hendrix morreram como 27 anos no espaço de duas semanas, ela 4 d outubro e ele 18 de setembro de 1970. Foram absolutamente espetaculares ele com a guitarra que se incendiava em suas poderosas mãos. Janis com sua voz inconfundível e interpretações geniais. Noel Rosa o mais original dos sambistas com seus versos perfeitos, seus amores tórridos e sua boêmia, viveu no limite e também se foi aos 27 anos. Agora Amy na mesma idade também se vai.

No momento que o herói se revela plenamente sua vida e alma não mais lhe pertencem. Eles passam a viver intensamente para que sua arte lhe dê crédito e vida posterior, no íntimo sabem e desejam profundamente a morte, que será sua própria libertação. Todos eles brilharam intensamente em breve espaço de tempo, que não se medirá jamais em anos, mas na sua arte, no que mudaram na sua curta passagem.

0 thoughts on “Amy e o Páthos do Herói”

  1. Texto maduro e que de maneira elegante junta o humano, o factual, com o filosófico, o literário…e é justamente esta congruência que se completa, se sustenta e dá conta da beleza da vida. Gostei.

  2. Muito generoso o seu post, amigo. Voltei a 1994, quando o Senna morreu e eu, que me julgava uma pessoa mais pro esclarecida, me vi por quatro dias diante da TV chorando sem parar. Agora com a Amy ficou longe disso, but still… É um alívio ver minhas emoções interpretadas assim, com razão e compaixão. Beijo!

  3. Se acredistasse nos deuses, diria que o texto é divíno. Mas como acredito que são os homens que criam os deuses (sejam unos ou coletivos) e os mitos, diria que o texto é profundamente humano. O ser humano é o criador do seu mundo. E sem esta gente que exptrapola os limites da criação artística, definitivamante não seríamos humanos.Deuses e mitos são parte da nossa própria criação, que alguns rejeitam e outros não entendem. Quando houver a reconciliação definitiva entre o saber e a fé que gera mitos e deuses, chegaremos a plenitude.

  4. Querido, acabei de ler seus posts, e adorei! Um melhor do que o outro. Gostei de todos, mas o do Midnight in Paris e o da copa de 82 em especial, me emocionaram. Parabéns pela sensibilidade, e continue escrevendo e inspirando muitos como eu. Um grande beijo.

  5. Não sei não, heim, se o herói, o teu herói do post, ao morrer se liberta. Tua imagem de herói é muito poética, elegantésima, horra a Amy contada entre os grandes heróis.
    Só tenho a impressão que romantizamos muito a morte. A morte É. Ela nos faz repensar muitas coisas, inclusive estrutura e molda silenciosamente nossas vidas. Na linha da amiga ali de cima, sou mais crua com a morte porque não vejo sentido nela a não ser o de regular e controlar muitas de nossas escolhas, sobretudo pra quem fala da posição da Racionalidade; a morte é perfeita porque fecha um círculo que se abriu; a morte é perfeita porque nos liberta de sermos imperfeitos e por aí vai…
    Já pensou se algum dia ser racional e produtivo caem de moda e, em seu lugar, tomam lugar os zoombies, como infelizmente foi o final da Amy? Um zoombie drogado, é assim que hoje olham pra ela, como diz uma matéria da Folha. O que me preocupa é a ideia de produtividade, racionalidade e perfeição andarem quase sempre juntas, daí tudo se torna um duelo entre o bem e o mal e por mais que pareçam opostos, eles têm várias faces, vários níveis e complexos avatares entre as nuances do que classificamos como bem/bom e/ou como mal/bom. A palavra não fecha o ‘conceito’. A Amy, que adorava, simplesmente morreu, agora vamo combinar, antes com posts como o teu e o do teu amigo do que com receituários de “boa família”.
    Beijo,

  6. Que texto lindo, sensível e generoso e como acredito que o autor se projeta na sua obra reconheço facilmente essas qualidades em você, ainda que não fosse assim. Honrou o dia do escritor.Parabéns e obrigada.

  7. Lindo texto, Arnobio, como sempre. Perfeita a associação de Amy aos heróis míticos, “condenado ao fracasso e a um fim trágico” em que sua morte “ou é traumática e violenta ou o surpreende em absoluta solidão”.
    Como disse a @Luisa_Stern , “Ela morreu de ser Amy, o resto não importa”.

  8. Muito lúcido seu texto.
    Como todo herói trágico. Amy se jogou fundo na sua ὕβρις (hybris), livrando-se das contingências para se tornar
    a essência do que era -voz-, agora planando autônoma e (tragicamente) irrepetível. A nós resta o que a tecnologia permitirá resgatar, o que já é muito em se trantando de performances que (cada uma e todas) se desenrolaram no limite do suportável. A vida ganhou, não a morte. Foi a vida que impôs a Amy os seus limites.
    Acho que ela sabia disso toda vez que entoava Back to black,
    Diferentemente de Elis (também trágica), que confessava a dificuldade de continuar vivendo quando o “público ia embora” e o espetáculo terminava, Amy me parece mais radical: eu a vi cantat ao vivo e a impressão que passava era a de quem não estava no palco, mas estava vivendo seu transe (com ou sem droga) na soludão mais absoluta, com a certeza de que só metade (talvez enos) do seu canto era compreensível para os humanos. Basta perceber que a cada audição percebemos novas nuances, às vezes a mera articulação de uma sílaba, que iluminam o todo. Isso não se esgota nunca apenas nos que estavam já do outro lado. Amy morreu, viva Amy.

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