Crise de Projetos e o Caso Jobim

 

 

 

 

Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é transformá-lo. (Teses sobre Feuerbach – K. Marx)

 

Crise dos Projetos políticos

 

A esquerda, em sua longa crise de letargia, ainda não forjou um novo paradigma na luta contra o capital; aqueles (trotskistas) que achavam que a revolução se abria com a queda do Muro de Berlim não conseguiram encontrar seus “novos/velhos Soviets”. Muito menos a direita achará seu “Estado mínimo” após a queda de Wall Street.

 

A questão é complexa para os dois lados. Buscar teoria já testada é necessário, porém mundo não é o mesmo de 1917 e nem dos anos do Pós-Guerra. Este é desafio da direita e o nosso, da esquerda: entender o mundo parece secundário, mas ambos (direita e esquerda) dão respostas com receituário velho para novas doenças. Agora empatamos o jogo, estamos sem armas e certezas absolutas.

 

Claro que a situação é melhor, já não sofremos o massacre político-ideológico dos últimos 20 anos, mas também não nos conforta saber que fomos incapazes de repensar nossos conceitos, nem o velho Marx conseguimos entender. Neste tempo todo não temos feito nada de concreto, alternativo – apenas resistir é muito pouco.

 

Inflexão do PT ao centro e do PSDB à direita

 

No Brasil, a esquerda brasileira (PT) ocupou um espectro mais amplo, tomou o centro do PSDB; sobrou apenas a direita mais raivosa, fundamentalista. Este deslocamento de forças e projetos ainda não se deu por completo no imaginário popular. O PT ainda é identificado como esquerda raivosa. Muitos “absorveram” Lula, mas é fato que ainda temem o PT. Isto foi reforçado por um discurso extremamente preconceituoso de Serra, que afaga a direita.

 

A mobilidade do PT rumo ao centro independeu de Lula. Foi assim porque a realidade o empurrou ao centro — para ter maior interlocução com outras forças que fazem o jogo político no Brasil, tirando do PSDB a hegemonia na sociedade.

 

Entender o que estava em jogo é a mais importante das tarefas de cada militante. Há que explicar pacientemente a cada um as questões subjacentes aos grandes debates, que novas e velhas demandas aparecem ou reaparecem com força, mas não podemos nos agarrar a este debate menor e esquecer a luta principal.

 

Durante a última campanha eleitoral, a partir de uma inflexão da candidatura de centro-direita, representada por Serra, à direita mais raivosa, com algumas nuances neofascistas, o debate foi empobrecido por temas de costumes (aborto, religião), e não políticas totalizantes – como a questão do Estado, da economia, perspectivas da relação do Brasil com o G20 e agenda para entrarmos noutro patamar de país que emerge do ambiente pós-crise de setembro de 2008.

 

Rebaixado o debate político, talvez pela leitura de que seria impossível derrotar a candidatura governista nos marcos de um debate programático mais elevado, mais ainda pela total falta de projeto alternativo ou que pudesse efetivamente se diferenciar, a opção foi reduzir e insuflar uma campanha que beirou o ódio, os temas relacionados aos costumes.

 

Esta campanha muito lembrou a sucessão Clinton nos EUA em 2000, em que Al Gore, representante governista, enfrentou dura campanha difamatória com estes temas moralistas, em particular o comportamento sexual de Clinton. A agenda política foi esquecida e um movimento esquizofrênico patrocinado pela direita “pentecostal” levou Bush Jr a “ganhar” a eleição no Supremo.

 

Aqui houve a tentativa de tornar público o passado de Dilma para demonstrar que ela fez a luta armada, que era terrorista, combinada à necessidade de dizer que ela era um “poste”, que seria manipulada por José Dirceu, por Lula – como se uma mulher não fosse capaz de assumir o poder e dirigir o destino do país. Criou-se um caldo de cultura reacionário, apelativo, que muitas vezes fez submergirem antigas forças de extrema-direita, que sempre existiram em SP, mas estavam condenadas ao gueto. A velha TFP, que auxiliou o bispo de Guarulhos com seus panfletos absolutamente vis, não por acaso impressos numa gráfica de membros do alto comando do PSDB, não deixa dúvida de onde partiu e se incentivou este caminho. É o que chamo de abrir a “Caixa de Pandora” do ódio, de preconceitos regionais e de posições sobre sexo, aborto e vida.

 

Agora, com o caso da Noruega, percebemos o verdadeiro fantasma que ronda a Europa: é uma onda neofascista de intolerância, agravada pela crise econômica, com piora no nível de emprego e de condições de vida. Os imigrantes, antes tão úteis aos europeus, agora são vistos com ódio por “roubarem” os subempregos.

 

Jobim votou no Serra? Qual novidade?

 

Desta parte é bem representativa a Folha de SP, com sua atitude quixotesca de lutar contra o PT, que virou sua bandeira. Isto se expressa em seu ataque ao ENEM, à CPMF e em sua atitude de tolerar e abrir espaço a manifestações neofascistas em suas paginas,em matérias com representantes destas posições – como se fosse democrático dar espaço a este tipo de gente.

 

Às vezes as coisas são mais simples do parecem, mas adoramos complicar, buscar soluções intricadas, mas elas estão bem na nossa frente. Para quem não sacou ainda: Jobim é um agente provocador, a mídia é a favor de golpes, “mais oito anos de governo do PT, mesmo meia-boca, não vai dar”; então, reflitamos:

1) Por mais que o governo do PT não toque nem de leve na questão do poder, a sua simples existência é uma excrescência para o grande capital;

 

2) Todo dia o PT pede a bênção aos banqueiros, capitães da indústria e mídia, mas todos os dias eles se “lixam” para o PT, notadamente via sua mídia;

 

3) Mas aqueles que acham que a luta de classes é feita no sofá em frente ao PC (não aquele PC, lembram?) não devem cobrar do PT, pois NUNCA, desde 1992, ele prometeu lutar pelo PODER: conforma-se em ser apenas GOVERNO – e confiável;

 

4) Que fique claro: o PT não quer o PODER, quer apenas fazer um bom governo, dentro dos limites do Estado burguês. E, mais: se conseguir aliança com parcela da burguesia, ótimo;

 

A questão que fica é: por que é maravilhoso sempre culpar o outro pelo que não fizemos? Chamar alguém de traidor parece mantra indicado em psicologia para aliviar nossas próp
rias limitações.

 

0 thoughts on “Crise de Projetos e o Caso Jobim”

  1. Arnóbio está muito bom o texto que traça um quadro parecido com o que vejo, é bom lembrar que estamos debatendo no momento uma reforma política que pode mudar a forma de se fazer, se for aprovado o voto em lista fechada e o financiamento público de campanha, fortalerá os partidos e a militância.

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