Será que você é mesmo Alice?

 

 

A estória de Alice no país das maravilhas, ou melhor, a versão desta feita por Tim Burton tem suscitado polêmica sobre a qualidade do filme, da decepção causada devida à grande expectativa criada, desde quando se anunciou o filme. Gostei muito do filme, contrariando opiniões de amigos que viram e acharam-no fraco, sem roteiro, sem nexo e para algum enfadonho. Resolvi escrever algumas idéias sobre a obra.

A pergunta que se repete em todo o filme é esta: “Será que você é mesmo Alice?” é sem dúvida o caminho para ver com outros olhos a pequena grande ousadia do filme: fazer Alice sem ser Alice, usar os elementos de Alice e fazer outra Alice. Esta jogada de frases e imagens que constroem e desconstroem a obra de Alice é mensagem fundamental que consegui tirar do filme.

Para mim há três níveis em no filme sobre Alice:

(1) Rito iniciático clássico;

(2) Psique Menina/Mulher;

(3) Produção onírica;

Este conjunto é extremamente bem desenhado nas imagens de 3D, muito bem encaixadas para cada nível, o jogo das cores, as mudanças de conduta e atitude dos personagens e a variação das cores formam um todo que, a meu ver são grandiosos. Entrando em cada nível teremos a compreensão da obra:

  1. Rito iniciático clássico

 

Alice tem sua Catábase, ou catábasis (κατὰ do grego, “para baixo” βαίνω “ir”) é uma descida de algum tipo. Catábase pode ser um movimento para baixo, um afundamento de ventos, um recuo militar, ou uma viagem ao submundo. Pode significar também uma viagem do interior de um país ao longo da costa, e tem significados relacionados com a poesia, a retórica e a psicologia moderna(Definição Wikipédia baseada na psicologia).

Nos ritos iniciáticos gregos antigos a necessidade de se descer a outro mundo é compreendido como a necessidade de romper com um estágio de vida, não apenas na idade, mas fundamentalmente psicológica. Os ritos de Eleusis que foram sufocados pela religião cristã, era exatamente esta passagem. Notadamente estes ritos são relacionados aos homens, mas os mistérios de Eleusis eram compreendidos também às mulheres. O que nos sobra são os fragmentos destes ritos na peças “As Bacantes”.

Em outras culturas, como na judaica, homens têm seu Bar-Mitsvá aos 13 anos, passando de criança à Homem. As meninas se comprometem com Mitsvot aos 12 anos, relacionado com a Menarca (primeira menstruação), deixando de ser criança e virando Mulher.

Parece claro que a descida que Alice faz antes de aceitar ou não seu pedido de casamento com o rico asqueroso que lhe “compraria” a garantia de não ficar solteira, para ser apenas titia. Neste momento, ela, aos 19 anos, é posta à prova quando deve romper com seu mundo infanto-juvenil e virar mulher. Sua descida ao infernum (termo latim para mundo inferior) é um ato claro de revisão de vida.

As imagens são a combinação de alegria e apreensão, medo e felicidade, revisitar personagens que convivem com ela desde a tenra idade, e este sempre a lhe perguntar: Será que você é mesmo Alice?

 

2. Psique Menina/Mulher


Aqui entra a segunda parte do mesmo mito, a psique feminina. Tim Burton faz um filme de um universo feminino com grande sensibilidade, Alice vai oscilar entre A rainha vermelha e a branca, entre o Sexo, luxúria (vermelha) e a inocência, candura (branca). Por ambas ela será querida, a porção menina fala mais alto, a principio. Mas ambas propõe que ela mate seu dragão, a vermelha tenta lhe seduzir na convivência, porque ela detém o dragão, é mais sutil, pois tem certeza que logo ela será Mulher.

Já a rainha branca deixa-lhe claro, ela tem que matar seu dragão, libertar a si mesma. Alice vacila, tem repulsa a matar, questiona-se por que deve fazê-lo. Mas intimamente sabe que deve ser assim, e na última hora tem o significativo encontro com Absalem, a lagartixa, esta em transformação e mostra-lhe que TODOS deixam um corpo para ser outro, é a metamorfose natural da vida e da cabeça.

A luta é saída natural, a frágil menina é posta frente a frente com o dragão e tem que descobrir dentro de si como matá-lo, por mais improvável que seja ela o mata, a imagem é grandiosa, muito didática, bem construída.

A reflexão anterior à luta, os propósitos de menina, e depois o amadurecimento de mulher são evidentes, mais ainda o diálogo final dela com o chapeleiro, sua última reminiscência, pergunta-lhe se não quer ficar neste “mundo”? Óbvio que depois de matar o dragão não há mais volta

3. Produção onírica;

Talvez a grande crítica ao filme seja a questão do roteiro, que não há humor ou ação, que o andamento é caótico, não tem lógica e por ai desfiam-se as reclamações. Para esta questão, caberia perguntar: existe ordem nos sonhos? Controla-se o que se deve sonhar, como acontecer cada coisa?

O filme é baseado em Alice, mas não é Alice, está claro desde o início é um sonho, uma produção onírica, que o compromisso com a “realidade” é puramente circunstancial. As imagens, as viagens ao submundo da psique de Alice, seus monstros e seus objetos de desejos estão lá, envoltas em névoas psicodélicas.

A dificuldade de entender esta dinâmica do filme, talvez nos leve a menosprezar a grandeza da obra, ou nos contentarmos apenas com um ou outro aspecto da produção.

As fantásticas imagens em 3D nos levam ao mundo dos sonhos, diretamente à mente daquela jovem, que por acaso se chama Alice, mas que pode ser que não seja Alice.

0 thoughts on “Será que você é mesmo Alice?”

  1. Confesso que fui uma das pessoas que acabou por se decepcionar com o filme. Talvez por ter me deixado levar por uma expectativa exacerbada.
    Certamente vou rever o filme, mas desta vez por outro prisma.
    Excelente avaliação. Parabéns!

    1. Livia,

      Imagino que o fascínio do desenho da disney tenha imprimido sobre todos nós um conceito sobre Alice, que muitas vezes inclusive nem corresponde com a obra original. Aqui apenas ressaltei por onde acho que Tim Burton partiu para criar sua visão de Alice,

      Abraços

  2. Ótima abordagem, Arnobio, muito original!

    A incursão pelo conceito de Catábase foi um achado, e a atenção à atenção que Burton dá à psique feminina uma prova de sua sensibilidade como espectador.

    Quanto à crítica de muitos ao aspecto truncado do roteiro, ela deve ser dividida com Lewis Carroll, pois é um aspecto inerente à própria obra, que nem o desenho da Disney (a cuja permanência no inconsciente coletivo do público eu atribuo parte considerável dessa recepção fria ap filme de Burton) conseguiu dirimir.

    Eu realmente fiquei fascinado com o uso do 3D – que a meu ver se presta bem mellhor a fantasias cinematográficas como Alice do que às explosões e perseguições dos filmes de ação.

    um abraço,
    Maurício.

    1. Maurício,

      Só tenho a agradecer teus comentários aqui e no twitter, confesso que escrevi pensando na tua observação no dia que assististes ao filme. Procurei ver sem me prender às críticas, quase todas negativas, pois conheço o universo do Tim Burton.

      Ele sempre acrescenta algo novo na hora de contar uma velha história. Suas cores, escuras, mundo gótico, um humor extraído do mau humor me atraí. Só assim consegui captar um pouco deste mundo particular.

      A conclusão que você chegou sobre 3D é exatamente o que penso, se bem usado você modifica a linguagem de comunicação, amplia a interação filme/espectador. Joga para tela as fantasias mais improváveis.

      Abraços

  3. Dileto Arno,
    Entrincheirado no noroeste paulista, não tanto a contra gosto (pós desenlace do matrimônio), estou-me a acostumar com a, possível, “flexibilidade temporal” e ver mais “tarde”, verificar o, sempre, “surpreendente” (bom/mal) trabalho de Tim Burton.
    Porém, como disse o companheiro Stockler, as “…tantas nuances …” que Voce possibilitou “enxergar”, atiçou-me a conferir.
    Abraços,
    ze_carlos

  4. Achei sua análise interessante, porém, escuto outras críticas que acabam ressoando o que penso: não acho que o filme seja caótico, pelo contrário, acredito que Tim Burton o organizou por demais, se fizermos uma comparação com o texto original. Foi aí que me incomodei. Na Alice de Carroll, ela é sempre solitária, sem poder contar com amigos que a guiassem, ao contrário do que acontece no filme. Nos livros, é como se ela em todo momento tivesse que matar um dragão e não somente em um momento específico. Lamento, porque tenho certeza de que o público conseguiria digerir uma heroína que não precisa de uma “fada boa”, ou amigo que chora a sua partida, como vemos em tantos, tantos, tantos filmes feitos para que todos gostem. Acho que somente o personagem da lagarta foi mantido em sua essência, no sentido de que a sabedoria está a nos perguntar constantemente se conseguimos encontrar uma resposta – ou melhor, a sabedoria não está em sabermos fazer perguntas a nós mesmos? – Por fim, gostei da experiência de ver Alice do Tim Burton, mas espero, sinceramente, que isso estimule as pessoas a ler as duas obras originais que inspiraram o filme: “Alice no País das Maravilhas” e “Alice Através do Espelho” para, aí sim, vivenciar o nonsense que não se restringe aos nossos sonhos, mas que permeia toda a nossa subjetividade interna.

    1. Gisele,

      ótima observação a tua de que Burton organizou demais, é por aí mesmo. Vejo que ele dialogou com a obra sem lhe tomar para si. É um exercício difícil pois é uma obra que existe um certo “domínio” , conhecimento dela, e qualquer ousadia é acusado de sair do script. À luz dos livros a visão fica mais interessante até para analisar o filme,

      Abraços

      1. Interessante q os 2 têm razão. Teria q rever o filme- que vi num dia em q não estava bem- p poder dizer mais. Apesar dos amigos do filme- e do personagem sedutor do belo ator- a gente torce por ele- o filme é lúgubre.
        Saí c esta sensação e pensando que não é filme para crianças pequenas. Não acham?
        Abs, Laura(virtual)-Elianne- eu aqui:)

  5. Em parte entendo a decepção com o filme, o que não dá pra aguentar é a argumentação fraca. O teu texto foi muito bem estruturado e tem tudo a ver com o que escrevi também (linkei teu post aqui: http://ernestodiniz.com/post/544752464/o-pais-das-maravilhas-em-alice). Os três níveis, sobre os quais você comentou, estão bem marcados na película é fácil entender porque o Burton decidiu por “simplificar” a história com um toque bem pessoal. Parabéns pelo texto!

    1. Ernesto,

      Acho que bebemos na mesma fonte, Campbell, que faz o corte pela via Jung dos mitos. Aqui no Brasil minha fonte principal é Junito de Souza Brandão, que a muito devo no estudo e dedicação aos mitos gregos. Seu texto é excelente bem pontuado na compreensão do filme.

      Abraços

  6. Eu também adorei o filme, a sua análise é muito interessante. Sem dúvida, a sensibilidade de Burton ao traduzir o universo feminino é fantástica. Ao final, Alice pode escolher o que realmente queria para a sua vida, ela rompe com o status quo criado ao seu redor para ela aceitasse de forma passiva o casamento. No mundo real, ela é uma marionete cujo noivado foi arranjado sem que ela sequer soubesse. No submundo/subterrâneo ela pode escolher o que quer ser. Vou colocar um link no meu blog para a sua postagem.

    Abraços,

    1. Beatriz,

      Nome grandioso da literatura, graças a Dante sou um pouquinho do que sou hoje. Este debate sobre Alice transcende ao filme e repercute na nossa visão de ver idéias e filmes. Pode usar a vontade o texto com a devida citação de fontes.

      Abraços

    1. Meu amigo Washington,

      Nossa alma da terrinha não nos trai, o filme é muito bonito e cheio de idéias e lições, lembro uma frase atribuída ao Chaplin: “num filme não importa a quantidade de realidade que ele traz mas sim de fantasia”

      Abraços

      Arnobio

  7. será que haverá “Através do Espelho” também? pois são histórias além de parecidas, complementares. Não vi o filme ainda, mas é uma obra-prima do non-sense o livro, espero que essa qualidade fundamental da literatura tenha se mantido na tela.

  8. Arnóbio

    Só hoje li seu texto, mesmo sem ter ainda assistido ao filme, brilhante análise. É claro que ele me instigou um pouco mais, vou pegar uma filinha e depois volto a comentar.
    Abraço,
    Maria Elisa

  9. Para Maria da Graça

    por PAULO MENDES CAMPOS
    DO LIVRO O AMOR ACABA

    Quando ela chegou à idade avançada de 15 anos eu lhe dei de presente o livro Alice no País das Maravilhas.

    Este livro é doido, Maria. Isto é: o sentido dele está em ti. Escuta: se não descobrires um sentido na loucura acabarás louca. Aprende, pois, logo de saída para a grande vida, a ler este livro como um simples manual do sentido evidente de todas as coisas, inclusive as loucuras. Aprende isso a teu modo, pois te dou apenas umas poucas chaves entre milhares que abrem as portas da realidade. A realidade, Maria, é louca.

    Nem o papa, ninguém no mundo, pode responder sem pestanejar à pergunta que Alice faz à gatinha: “Fala a verdade, Dinah, já comeste um morcego”?

    Não te espantes quando o mundo amanhecer irreconhecível. Para melhor ou pior, isso acontece muitas vezes por ano. “Quem sou eu no mundo?” Essa indagação perplexa é o lugar-comum de cada história de gente. Quantas vezes mais decifrares essa charada, tão entranhada em ti mesma como os teus ossos, mais forte ficarás. Não importa qual seja a resposta; o importante é dar ou inventar uma resposta. Ainda que seja mentira.

    A sozinhez (esquece esta palavra que inventei agora sem querer) é inevitável. Foi o que Alice falou no fundo do poço: “Estou tão cansada de estar aqui sozinha!” O importante é que ela conseguiu sair de lá, abrindo a porta. “A porta do poço!”. Só as criaturas humanas, nem mesmo os grandes macacos e os cães amestrados, conseguem abrir uma porta bem fechada e vice-versa, isto é, fechar uma porta bem aberta.

    Somos todos tão bobos, Maria. Praticamos uma ação trivial, e tens a presunção petulante de esperar dela grandes conseqüências.

    Quando Alice comeu o bolo, e não cresceu de tamanho, ficou no maior dos espantos. Apesar de ser isso o que acontece geralmente às pessoas que comem bolo.

    Maria, há uma sabedoria social ou de bolos; nem toda sabedoria tem de ser séria ou profunda.

    A gente vive errando em relação ao próximo e o jeito é pedir desculpas sete vezes por dia: “Oh, I beg your pardon!” Pois viver é falar de acordo em casa de enforcado. Por isso te digo para a tua sabedoria de bolso: se gostas de gato, experimenta o ponto de vista do rato. Foi o que o rato perguntou à Alice: “Gostaria de gatos se fosse eu?”

    Os homens vivem apostando corrida, Maria. Nos escritórios, nos negócios, na política, nacional e internacional, nos clubes, nos bares, nas artes, na literatura, até amigos, até irmãos, até marido e mulher, até namorados, todos vivem apostando corrida. São competições tão confusas, tão cheias de truques, tão desnecessárias, tão fingindo que não é, tão ridículas muitas vezes, por caminhos tão escondidos, que, quando os corredores chegam exausto a um ponto, costumam perguntar: “A corrida terminou! Mas quem ganhou?” É bobice, Maria da Graça, disputar uma corrida se a gente não conseguirá saber quem venceu. Para o bolso: se tiveres de ir a algum lugar, não te preocupes com a vaidade fatigante de ser a primeira a chegar. Se chegares sempre onde quiseres, ganhaste.

    Disse o ratinho: “Minha história é longa e triste!” Ouvirás isso milhares de vezes. Como ouvirás a terrível variante: “Minha vida daria um romance.” Ora, como todas as vidas vividas até o fim são longas e tristes, e como todas as vidas dariam romances, pois um romance é só o jeito de contar uma vida, foge, polida mas energicamente, dos homens e das mulheres que suspiram e dizem: “Minha vida daria um romance!” Sobretudo dos homens. Uns chatos irremediáveis, Maria.

    Os milagres sempre acontecem na vida de cada um e na vida de todos. Mas, ao contrário do que se pensa, os melhores e mais fundos milagres não acontecem de repente, mas devagar, muito devagar. Quero dizer o seguinte: a palavra depressão cairá de moda mais cedo ou mais tarde. Como talvez seja mais tarde, prepara-te para a visita do monstro, e não te desesperes ao triste pensamento de Alice: “Devo estar diminuindo de novo”. Em algum lugar há cogumelos que nos fazem crecer novamente.

    E escuta está parábola perfeita: Alice tinha diminuíndo tanto de tamanho que tomou um camundongo por um hipopótamo. Isso acontece muito, Mariazinha. Mas não sejamos ingênuos, pois o contrário também acontece. E é um outro escritor inglês que nos fala mais ou menos assim: o camundongo que expulsamos ontem passou a ser hoje um terrível rinoceronte. É isso mesmo. A alma da gente é uma máquina complicada que produz durante a vida toda uma quantidade imensa de camundongos. O jeito é rir no caso da primeira confusão e ficar bem-disposto para enfrentar o rinoceronte que entrou em nosso domínio disfarçado de camundongo. Mas como tomar o pequeno por grande e o grande por queno é sempre meio cômico, nunca devemos perder o bom humor. Toda pessoa deve ter três caixas para guardar humor: uma caixa grande para o humor mais ou menos barato que a gente gasta na rua com os outros; uma caixa médica para o humor que a gente precisa ter quando está sozinho, para perdoares a ti mesma, para rires de ti mesma; por fim, uma caixa preciosa, muito escondida, para as grandes ocasiões. Chamo de grandes ocasiões os momentos perigosos em que estamos cheios de sofrimento ou de vaidade, em que sofremos a tentação de achar que fracassamos ou triunfamos, em que nos sentimos umas drogas ou muito bacanas. Cuidado, Maria, com as grandes ocasiões.

    Por fim, mais uma palavra de bolso: às vezes uma pessoa se abandona de tal forma ao sofrimento, com uma tal complacência, que tem medo de não poder sair de lá. A dor também tem o seu feitiço, e este se vira contra o enfeitiçado. Por isso Alice, depois de ter chorado um um lago, pensava: “Agora serei castigada, afogando-me em minhas próprias lágrimas”.

    Conclusão: a própria dor tem a sua medida. É feio, é imodesto, é vão, é perigoso ultrapassar a fronteira de nossa dor, Maria da Graça.

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