2123: Direitos Humanos e o Silêncio para Ouvir o desespero dos sem direitos.


Na quarta a noite, volto tarde para casa, após mais uma manifestação coberta por um grupo de abnegadas (os) advogadas (os), da Comissão de Direitos Humanos do Sindicato do Advogados de São Paulo (SASP), que voluntariamente se apresentaram para acompanhar um grupo de militantes de entidades e movimentos negros no protestos “BASTA DE VIOLÊNCIA POLICIAL”, #JUSTIÇAPORGENIVALDO.

Pouco antes da manifestação fui informado por companheiros de Fortaleza do óbito da grande militante, Rosa Fonseca, uma referência para todas e todos, por sua imensa coragem, altivez e suas falas que agitavam as massas, explicando e chamando à luta, à resistência contra o sistema, contras as injustiças e pelos direitos fundamentais do povo.

A manifestação carregada de dores, choros, lamúrias, a violência cada vez mais forte e diversa contra os mesmos: Pretos, Pobres e Periféricos. A execução da Necropolítica é uma realidade nas grandes e médias cidades do Brasil, no campo, nas lutas pela terra, assim como acontece em várias partes do mundo, num Estado de Exceção Permanente, imposto pelo Ultraliberalismo.

A minha mente estava dividida em ouvir os discursos cheios de forças e lamentos, emocionados, ao mesmo tempo em que lembrava de Rosa, e de mim mesmo, quando empunhava microfones, ou megafones, em greves, manifestações, atos públicos, ocupações de reitorias, congressos estudantis, em que o uso da palavra era fundamental para os embates e convencimento de nossas propostas para ação.

Minhas reflexões me levaram a pensar sobre a minha trajetória desses últimos 3 anos e meio, desde quando fui membro da CDH da OAB/SP, agora CDH do SASP, Lá propus que atuássemos nas ruas, acompanhando as manifestações, como mediadores, no que denominávamos de Observadores Institucionais, que era uma iniciativa do Núcleo de Ações Emergenciais e Defesa do Direitos Ameaçados, em parceria com o Sindicato do Advogados (SASP). Nosso trabalho era mediar conflitos, evitar confrontos graves, prisões, violências e violações aos Direitos Humanos e constitucionais de livre manifestações.

Ao contrário da minha militância estudantil, partidária, em que o discurso, a fala era o centro, nesses novos tempos, nossa tarefa é o Silêncio, o Ouvir muito, falar pouco, apenas o necessário, a completa discrição. Estamos ali não para protagonizar nada, mas para que outros e outras, tenham direito de falar, dizer o que pensam, suas lutas precisam ser ouvidas pela sociedade, para isso eles têm direitos que devem ser preservados e garantidos.

A tensão que temos muitas vezes são muito maiores de quem está no púlpito, com o microfone, temos que observar tudo em volta, ter paciência com as imposições das autoridades, quase sempre autoritárias, como também tentar segurar os ânimos dos mais exaltados, para que não enfrentem uma repressão desigual.

Conhecer os vários pontos dos conflitos, ter segurança e firmeza, uma dose forte de coragem, quando descamba para violência, risco de inalar gás lacrimogêneo, spray de pimenta, tomar tiro (bala de borracha, o que se espera), receber empurrões, ou mesmo ter armas pesadas no peito ou no rosto, sem perder a calma e nem atos de heroísmos.

Defender causas, entender que os direitos humanos são como uma última fronteira dos direitos numa sociedade em ruptura, com explosões de violência, desprezo à vida, mesmo ainda que se tente ridicularizar, descaracterizar o que fazemos e devemos fazer mais e mais, nada importa, a força dos Direitos Humanos reside na consciência de que defendemos a vida, o direito à dignidade e a Democracia, igualdade racial e de gênero, a diversidade sexual, o meio ambiente, os povos originários.

Essa é uma razão de vida, o Silêncio como conduta, renunciar aos holofotes e autopromoção individual, muitas vezes feitas por quem nunca se arrisca em nada, compreensão de que a defesa dos Direitos Humanos é uma causa coletiva, e não se pode abandonar a luta por razões mesquinha, e procurar seguir em frente com força e coração.

Há braços!

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