O (Não) Mistério do Corinthians.

Carille: A maior surpresa do futebol brasileiro de 2017

“Corinthians, Corinthians minha vida, Corinthians minha história, Corinthians meu amorrr”(Canto da Torcida)

No dia 02 de dezembro de 2007, por volta das 18 horas, após empate entre Corinthians e Grêmio, aparece com olhos inchados, falando um português atravessado, uma figura meio estranha, cara esburacada, mas diz com firmeza: “Podem rir muito de nós hoje, aproveitem bem, pois isso vai acabar. Amanhã começará um novo tempo no Corinthians”. Parecia muito louco alguém falar aquilo que Andrés Sanchez, então presidente interino do clube.

Aquele clube que terminou o campeonato sendo rebaixado, mesmo com pontuação acima de qualquer queda, estava completamente endividado, sem jogadores suficientes para formar um time, pois a maioria daquela “barca” era emprestada ou em fim de contrato. Naquele dia, o técnico do Grêmio, Mano Menezes, que decretou a queda final, assumiu a maior mudança da história do clube.

Desde o início de 2008 até metade de 2016, rigorosamente o Corinthians teve apenas 2 técnicos: Mano Menezes e Tite, ambos deixaram o clube para ir para Seleção Brasileira, Mano em 2010 e Tite em 2016. Entre eles por breves rodadas, Adilson Batista. Na verdade, é uma implantação de filosofia muito clara sobre futebol, com conceitos bem trabalhados, especialmente no setor defensivo e a saída de bola com um volante na proteção.

Esse método permaneceu ano a ano, persistiu na ideia mesmo nas derrotas mais ridículas, como a do Tolima ou Guarany do Paraguai. Atingiu picos inacreditáveis, como a vitória da inédita Libertadores, invicto, com todos os jogos vencidos ali na medida, sem arroubos e sem riscos. Montado centro de excelência, treinamento, pesquisa, estáticas e parte médica e de fisioterapia, um patrimônio inestimável.

Todos os times se caracterizavam por times-operários, sem nenhum grande craque, mas com bons jogadores que se sobressaíram em cada time, praticamente formados ou moldados no clube: Cassio, Ralf, Elias, William, Felipe, Paulinho, Romarinho, Balbuena, Pablo, Romero. Outros formados na casa: Dentinho, Marquinhos, Malcom, Arana, Maycon, Pedrinho. E os experientes que atingiram o auge: Emerson Sheik, Renato Augusto, Jadson, Danilo, Alessandro, Jorge Henrique, Guerrero e Fabio Santos. Até Ronaldo já no final da carreira brilhou intensamente por curto e importante período, em 2009 e ajudou imensamente na redenção do clube.

Exceto o espetacular time de 2015, o maior momento de Tite e de um time excelente com um campeonato brasileiro avassalador que não deu chance nenhuma a qualquer adversário. O meio de campo mais forte, só comparado ao de 1998 a 2000. Ralf, Elias, Renato Augusto e Jadson, fizeram um time de sonhos, que foi completamente desmontado no início de 2016.

Um erro grave em 2016 foi ter apostado em dois treinadores que nada lembravam os implantadores desse DNA, desse modelo: Oswaldo Oliveira e Cristovão Borges. Esse erro cobrou demais, que quase arrebentou o clube. Por falta de dinheiro e por uma tentativa de retomar as ideias anteriores, veio a apostar em Fábio Carille, que esteve em todas as comissões técnicas desde 2009 e foi interino algumas vezes. Era uma incógnita, parece óbvio.

Tudo conspirava para que desse errado, o elenco foi reduzido, pois não havia dinheiro para novas contratações, algumas que vieram no desespero da reconstrução de 2016, não tinha dado certo. Carille assumiu sob enorme desconfiança, maior cara de interinidade. Mas a experiência em montar as defesas, responsabilidade dele, desde 2009, falou mais alto. Ajustou o setor, com a volta da formação clássica.

A chegada de Gabriel, a promoção de Maycon, a volta de Jadson e a reafirmação de Rodriguinho, o único que se salvou em 2016. A grande surpresa, Jô, formado no Corinthians, mas que tinha andado pelo mundo, com mais problemas que grandes atuações.

Todos estão surpresos, claro que todos estamos, inclusive todos nós Corinthianos, mas parece que há uma lógica, mesmo que por vias tortas, a diretoria retomou, não importa as razões, a filosofia fundada por Andrés Sanches. Aqui Fabio Carille e Osmar Loss, grande comandante da base entre 2014 e 2017 que chegou a 4 finais da Copa SP, campeão de sub-20. Tudo acabou carreando para esse momento.

A melhor lembrança comparativa é aquele Santos de 2002, que era tido como time para lutar para não cair. Leão meio desacreditado, mas a resposta foi sensacional, apareceram Robinho e Diego, mais um conjunto de bons jogadores também se superaram: Renato, Elano, Léo.

Parece que nesses momentos limítrofe, a solução estaca ali, sob os olhos da diretoria, muitas vezes o medo, ou convicções errôneas não deixariam que algo tão bom florescesse. O desespero agora é tentar criar teses para explicar o aparentemente inexplicável sucesso.  A tabela que favoreceu, os outros times têm mais competições, que o time pratica o antifutebol, que uma hora isso tudo vai ruir, virou torcida, praga.

No fundo as coisas simples são melhores do que as caras e rocambolescas: Fabio Carille e Osmar Loss são acertos do passado, que agora tiveram a chance da vida. Estão aproveitando dignamente. Trabalho absolutamente fantástico, esperamos que mantenham essa mesma toada e a primeira missão, ficar na série A, já foi atingido, como eles mesmo dizem, é jogo a jogo, mano a mano, sem pensar muito longe.

Tudo nos parece um sonho lindo.

PS: Óbvio que houve erros terríveis, contratações por marketing, como Pato e Adriano, arrogância de se sentir novos ricos e gastar como se não houvesse amanhã. Relação promíscua com empresários que acabam ficando com boa parte dos jogadores. Sobre a Arena, melhor debater apenas ela, em outro momento.

GOL de Rodriguinho contra o Sport

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