Das Rupturas

O mar em revolta é a nossa alma em fúria (Foto: Kid Junior)

“Na minha desventura, contemplo um mar tão vasto de infortúnios, que nunca poderei salvar-me a nado, nem ao menos vencer esta vaga fatal que ora me assalta” (Hipólito – Eurípedes )

Constatação: Um dia nunca seremos aquilo que não estávamos destinados a sermos. Diante dessa terrível constatação, que só vem com o tempo, idade e alguma maturidade, que supera a nossa tola arrogância e os arroubos juvenis. Então mudamos as expectativas para viver uma realidade mais cinza, concreta e fatalmente pragmática.

Reverso: Nos últimos instantes podemos descobrir um fio de esperança de realizar algo novo e não mais esperado. Contraditoriamente ao que dissemos acima, a vida é sonho, mesmo no mar de desventuras (pessoal, intelectual, político) é necessário encontras alguma possibilidade de sonhar, pois sem isso para que viver?

Síntese: Exercemos esses dois extremos e quem saber achar o meio-termo, um equilíbrio entre sonhos irrealizados e uma realidade cruel. Muitas vezes vamos fazer um e outro caminho, o nosso humor e emoção é que determinam o que será mais apropriado para nossa existência e principalmente o conjunto de responsabilidades que vamos agregando às nossas vidas.

O mundo embaralhado de uma vida em fuga e que a palavra de ordem é seguir em frente. As fontes se ampliam e podem se esvaziar, também.

As redes sociais têm o condão de nos trazer pessoas novas e as do passado também, as memórias delicadamente guardadas em nossas vidas, meu caso em particular, de ter me tornado expatriado (dentro do meu próprio país), então são muito ricas, praticamente vivi dois momentos bem distintos, tanto de tempo, como de lugar.

O primeiro lugar me deu um grande suporte de ser o que sou hoje, apesar dos dissabores normais da vida. Mudar de estado, num país continental como Brasil é a mesma sensação de ser expatriado, falo também por ter vivido como tal no Japão (ver minhas Crônicas do Japão ).

Mas o rompimento, o corte fundamental entre estes dois mundos não se processa de forma simples, como se um não vivesse no outro, daí o impacto de ter visto esta janela aberta, mas infelizmente, a conclusão é bem clara, o tempo não ajudou a curar velhas feridas, velhas polêmicas agora transformadas em outras.

Para mim, não tenho como conviver com a mediocridade alheia, a pobreza de espírito. Acabou sendo uma lição, assim como quem desce ao inferno, jamais pode olhar para trás, Psiquê foi instada a seguir em frente, assim como Orfeu, sem olharem para trás. Lot também recebeu a ordem de não olhar para trás.

“Parabéns, bem-vindos ao cinismo ou ao conformismo canalha”, uma voz repete a sentença no meu cérebro, mais uma vez desobedecerei ao que está escrito. Todos os anos rompemos com as amarras, mas não nos tornaremos canalhas, assim espero.

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