Dilma numa solitária, quase clandestina entrevista, reflexo do momento.

Dilma numa solitária, quase clandestina entrevista, reflexo do momento.

“Existe um povo que a bandeira empresta
P’ra cobrir tanta infâmia e cobardia!…
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!…
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?” ( Navio Negreiro – Castro Alves)

A Presidenta Dilma Roussef encarnou a figura de D. Quixote, a força e a luta solitária dela me comove profundamente. Abandonada por todos, por seu partido, o PT, por seus ex-ministros, de partidos “aliados”, que lhe deram/darão facadas na Câmara e no Senado. Ela monta em seu cavalo e desafia os moinhos de vento.

A imagem Quixotesca dela é de cortar o coração, pois só a fibra de uma grande mulher, o arquétipo da deusa-mãe, a mantém de pé e teima em  não se entregar. Ousa em lutar pelo seu direito, ainda que saiba que lhe será negado.

A decisão de ir ao Senado completará sua mais intensa jornada iniciática, pois a questão mais de fundo, em todo esse processo, sem dúvida, é sua luta contra o machismo reinante, da direita à esquerda, que não aceita a mulher como protagonista.

Aqui abrimos vários paradoxos desse momento canalha:

  • De peito aberto, Dilma enfrentou tortura bárbara na ditadura, as vaias e apupos, as traições e misoginia. Agora um grupo de fichas sujas lhe dará um ultimo julgamento;
  • Do outro lado, o golpista-mor, Temer, tão visceralmente ligado ao regime de exceção anterior, se esconde nos gabinetes, com medo de vaias, protegido por um malta de covardes. Nenhum dos golpistas tem UM por cento da honradez de Dilma;
  • Enquanto os bandidos se locupletam, uma mulher com as mãos limpas e honradez, vai para o cadafalso. Cadê os democratas do Brasil?
  • Ontem o Brasil, que podia ser grande, teve seu último ato digno, a festa da vitoriosa Olimpíada, trazida ao Brasil por Lula e viabilizada por Dilma. Hoje a realidade mesquinha do golpe de Estado se completará.

Acabou, ZERO chance de reversão do Golpe de Estado, aliás, venho falando sobre isso desde janeiro de 2015, apenas se cumpre ritual da morte lenta e profunda. A data, 30/08/2016, será lembrada como o início oficial da nova Ditadura, de um velho/novo tipo de  Estado de Exceção , a tal “pausa democrática”, nas palavras de Ayres de Brito, ex-presidente do STF.

Algumas perguntas incômodas, para todos nós:

  • Rui Falcão, presidente do PT, Cadê você? Vai ficar escondido, já negociando com golpistas? Você não honra sua história? Tenha a dignidade de se pronunciar;
  • Merecemos uma nova Ditadura? Nosso destino é sermos cordeirinhos de ditadorzinho de plantão? Escravos da Globo, do juiz, do procurador-geral;
  • Onde todos estão? Ninguém responde, nem os versos desesperados do Navio Negreiro, despertará alguém? Morte certa e silêncio covarde?
  • O Medo venceu a Esperança? Só sobra chorume de internet? Nem isso mais, covardemente, nos escondemos, ou apontamos o dedo, uns para os outros, e não reagiremos?
  • Silêncio que ensurdece.

O Golpe Final será dado daqui a uma semana e o Brasil voltará às trevas. A Democracia será enterrada, viveremos um simulacro de Democracia e a farsa institucional. Viveremos a criminalização da Política e dos movimentos sociais, assim, rapidamente, como fato normal da vida.

Enquanto isso, Dilma, em luta solitária, nem ao menos terá a companhia de um Sancho qualquer, irá ao senado, enfrentar a inquisição de cabeça erguida.

A sociedade ruiu.