A estúpida agressão sofrida por Letícia Sabatella (Wagner Rosário/VEJA.com)

A estúpida agressão sofrida por Letícia Sabatella (Wagner Rosário/VEJA.com)

“Em nossa terra, disse o deus; o que se busca
encontra-se, mas foge-nos o que deixamos”. (Édipo Rei – Sófocles)

Devo retomar dois textos recentes, pois encontrei pontos de convergências, ainda que separados e tratando de situações diferentes, mas que incrivelmente se completam. Ambos tratam de “limpeza”, “higienismo” e Eugenia política, mas parece que juntos (talvez) conseguem captar a lógica da alma atormentada dos zumbis da ruas e redes sociais, a hipocrisia dos indignados seletivos, que fantasticamente se dizem “contra” a corrupção, mas não resistem a uma pesquisa pelo seus CPFs.

“Lady Macbeth, atormentada pelos seus crimes, lava desesperadamente as mãos, pois as vias sujas de sangue de suas vítimas. O ato de lavar as mãos com muita água corrente serve para limpar a verdadeira sujeira, a da alma, aliás, a água como purificação é amplamente vista na Grécia antiga como no juramento pelas águas do Estige (rio do Hades – sem a conotação do “Infernum”) ou o mergulho reparador no Letes, o rio do esquecimento, que faz limpeza das faltas, culpas ou pecados”.

Devo observar que nosso herói veste a camisa da CBF (ato falho contínuo) e passa a se sentir um puro, inflamado e campeão da ética, como se não houvesse amanhã, muito menos o passado/presente. Os exemplos abundam, a deputada que celebrou o marido prefeito no voto do impeachment, dia seguinte, ele, a imagem ética administrativa, foi preso por: Corrupção, fraude e desvio de dinheiro público.

Mas nosso campeão raivoso é capaz de vociferar e quase agredir uma atriz “vermelha”, mas esquecer de que seu nome e sobrenome, estão ali tão próximo do maior escândalo de evasão divisas do país, no caso Banestado, que, por mera coincidência, é a maior obra escondida do líder máximo do heroísmo tupiniquim, o presidente da República de Curitiba. A vida é pródiga em pregar peças, principalmente, nos mais desavisados.

Como observei ainda que “A tal “mãos limpas” ou a “Lava-jato” guardam, em si, uma visão perversa de sociedade, pois acredita que fará a “limpeza” das mãos sujas (corrupção) com processos tocados fora da Democracia e da Política“.  

Convergindo com o outro texto, assim disposto que “Viveremos o cinismo, de que limpamos os “políticos”, mas os beneficiários da tragédia, os tais não-políticos (tem coisa mais política, do que se declarar “não-político”?), terão liberdade para fazerem o que bem quiserem, em especial o judiciário com seus amplos privilégios, sem que a sociedade tenha mais para quem apelar, o poder judiciário viraria executivo e legislativo ao mesmo tempo”.

Sem democracia, não há vida possível em sociedades tão complexas e desiguais como a nossa, a farsa de hoje, rapidamente se transformará em tragédia, não a menor dúvida. Do advogado do PCC à destruidor de plantação de maconha, é como ir “do céu ao inferno, passando pela terra” (Goethe). Já vivemos sob a égide do Estado de Exceção, a um passo da repressão aberta e irrestrita.

Disse ainda que “O filósofo italiano, Giorgio Agamben, nos ensina que a base de fundação do Estado de Exceção, nos países centrais (EUA, UE), é a resultante do medo e da paranoia da Segurança (combate ao terror interno e externo). Aqui, sob meu ponto de vista, na América latina, o apelo é o “fim” da corrupção. Em ambos os casos, a promessa de limpeza do mal, se dará trazendo um mal maior: O fim da democracia”.

“Enquanto não nos dermos conta por aquilo que estamos lutando, pela democracia, ficaremos vacilando e comemorando as prisões de um lado ou de outro. Infelizmente, não há o que comemorar, pois os marcos fundantes de uma sociedade plural, contraditória, estão sendo destruídos por uma lógica bem urdida do Kapital, que usa o moralismo como fonte última de desagregação social”.

As vestes da CBF ou água do Letes, não lhe tornou melhor, no máximo um fanfarrão, de maus modos, que irracionalmente ataca, com a nítida ideia de que suas falhas serão acobertadas pelo “barulho”, esquecidas porque ele, agora, é contra corrupção (alheia).

Farsa e tragédias de mãos dadas, num espetáculo dantesco, medieval e bizarro, quase lembra à inquisição, melhor esquecer, pois depois da água, a ideia de purificação é o FOGO.