A esperança de que ainda podemos resistir.

A esperança de que ainda podemos resistir.

“Hegel observa em uma de suas obras que todos os fatos e personagens de grande importância na história do mundo ocorrem, por assim dizer, duas vezes. E esqueceu-se de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa“ (MARX,  Dezoito Brumário de Louis Bonaparte, 1852).

Estamos no limiar de um grande desastre e todos os indícios de que ele vai acontecer estão dados. Tudo caminha a passos largos para o abismo, nenhuma voz de bom senso parece se levantar. Os radicais de extrema-direita, um Tea Party mambembe, e seus neo-aliados de direita (PSDB/DEM) estão prestes a provocar uma grave crise institucional. É clara a  tentativa de acabar com o governo de Dilma, que foi eleita democraticamente num duro segundo turno, há um ano e meio. E em caso de derrota do impeachment, a estratégia será criar todas as dificuldades possíveis para que ela não governe mais.

O foco é o PT e Dilma, como dizia um simbólico cartaz: “Cunha é corrupto, mas está do nosso lado!”. A frouxidão ética e moral pouco significa. Até os atores estranhos, que vão desde classe média alta revoltada pelo dólar caro, até extremistas do PSTU, passando por mesquinharia de traidores, como Marina Silva.

Há a gestação de um fascismo genuíno no Brasil, como escrevi antes: “O fascismo se instaura lentamente, ganhando corpo e almas, aos poucos; não é uma coisa imediata, é resultado de um estado de coisas. Mais precisamente ele explode e se torna força social viva e visível nas crises econômicas, pois essas elevam o nível de frustrações pessoais. E as ambições (pessoais ou coletivas) deixam de ser satisfeitas ou ficam distantes de serem atendidas”. (Fascismo Presente e sua Dimensão Psicossocial)

Vivemos um momento terrível com risco da volta às trevas, e o PT tem enorme responsabilidade, não há dúvida. Atingido por duros ataques na época do “mensalão”, que manchou profundamente a imagem do partido, apenas atenuado por dois bons mandatos e crescimento econômico. Até mesmo na mudança de ventos da economia mundial, Lula conseguiu ir em frente, sempre se comunicando diretamente com as pessoas, inclusive no pior momento da crise, em 2008.

A mudança crucial aconteceu ainda em 2010, com a perda de fôlego econômico do Brasil. A demora dos EUA e UE em saírem do atoleiro, acabou por minguar os espaços de manobras para maiores ajustes. Mas a piora se deu também na comunicação. Dilma e o PT perderam a capacidade de explicar os problemas que atingiam o Brasil, como Lula sempre fez. E com uma condução débil e sem transparência da economia, quase levando o PT a derrota em 2014.

Mesmo com números favoráveis, em particular os de empregos, as incertezas quanto ao crescimento – ou melhor, a ausência dele – rapidamente se generalizaram. Os graves problemas de corrupção no Estado – não iniciadas nesse governo, ao contrário – passaram a ser extremamente combatidos com ações da PF e MPF, com toda autonomia dada pelos governos petistas. Tudo isso foi rapidamente esquecido. Pois no momento de Crise Econômica pouco é reconhecido; qualquer racionalidade é abandonada por desespero, pânico (mesmo que sem justificação).

Criou-se, ainda em novembro de 2014, um “terceiro” turno, que vem sendo muito bem trabalhado pela mídia e pelos opositores nas redes sociais. Uma coleção de absurdos foi transformada em verdades definitivas, cristalizando uma visão de que o “mal” para o Brasil seria Dilma e/ou o PT. A cobertura midiática na forma de escandalização seletiva, investigações seletivas comandadas por um juiz identificado com o PSDB foi gerando um clima de indignação bem calculado, sem nenhuma resposta por parte do governo. Apressaram-se os fatos; veio a sensação de decepção e revolta, até daqueles que votaram em Dilma.

Nos últimos quarenta dias se estreitou ainda mais o espaço de manobra. Como um trator desgovernado, Cunha avançou de forma avassaladora. Em menos de um mês instalou e conduziu com mão de ferro um processo de impeachment, que se fechará no próximo domingo, com clima de final de copa do mundo, bem produzido pela Globo – a campeã do golpe de Estado – que nem esconde mais o seu desejo. Temer age abertamente com se fosse presidente (Os quinze minutos de Fama de Temer), sinal de que já consideram aprovado o impeachment mesmo cinco dias antes de ser votado.

A estratégia usada tem funcionado perfeitamente, mais uma vez volto ao texto sobre o fascismo, para buscar entender essa junção de política rasteira e a catarse: “Quando o processo de fascistização psicológico e social se torna majoritário e bestial, a comoção fascista justifica e legaliza qualquer ação, ainda que racionalmente seja repudiável, que em sã consciência jamais se tentaria esse caminho. Como, por exemplo, o rompimento com a democracia, ainda que ela se apresente como democracia formal.

Esse é o nosso drama, potencializado pelas redes sociais. O embrutecimento parece completo. Não se consegue mais qualquer debate honesto e mesmo os mais simples. A radicalização, em forma de adjetivos pejorativos, sem base ou consistência, venceu a argumentação substantiva. Avança escandalosamente pela sociedade a ignorância, o “baixo clero” e o desvalor humano, presa fácil nos momentos de crise e torpor”.

Game Over? Ainda não, mas o espaço é mínimo. Tem tempo de constranger publicamente Cunha, Temer e principalmente quem os patrocina, a Rede Globo e os interesses do EUA, fim último dessa trama.