Da Invisibilidade Cotidiana

Nada do que vemos, é; Nada do que não vemos, pode ser. (getty Images)
Nada do que vemos, é; Nada do que não vemos, pode ser. (getty Images)

“Este é o homem de todo excelente: quem tudo compreende por si só;

Pensando no futuro e nas coisas que levam a um fim melhor.

Também é nobre quem é convencido por quem diz boas coisas;

Mas quem nem compreende por si só nem, ouvindo a outro,

Coloca no espírito seus conselhos, esse é um homem inútil”. (Os trabalhos e os Dias – Hesíodo)

“a felicidade, considerando-a, além disso, a mais desejável de todas as coisas, sem contá-la como um bem entre outros. Se assim fizéssemos, é evidente que ela se tornaria mais desejável pela adição do menor bem que fosse, pois o que é acrescentado se torna um excesso de bens, e dos bens é sempre o maior o mais desejável. A felicidade é, portanto, algo absoluto e autossuficiente, sendo também a finalidade da ação”. ( Ética a Nicômaco – Aristóteles)

 

Todos os dias acordo pensando como será a história dele, o que poderei fazer para que seja diferente para mim, para as outras pessoas. Por mais que sejamos apenas um piscar de olhos no relógio da História, teimamos em nos tornarmos os protagonistas, nem que seja apenas de nosso microcosmo. Claro que não seremos um Batman, ou Superman, a vida comum tem muito mais de heroísmo do que qualquer um deles, nem sempre percebemos.

Colher pequenos relatos, juntar umas poucas ideias, para encarar o duro/suave cotidiano, é quase uma obrigação para minha alma, muitas vezes carregada de dores incuráveis, de culpas e expiações, jamais completas. Parece que viver é, muitas vezes, sustentar a abóboda do mundo, que nem Atlas, isso simplesmente não funciona. Um dia virá para que se libertem todos os meus sentidos, apenas respire e viva plenamente.

Escolher letras e palavras para expressar uma ideia completa, a mais simples, nada complexo, já é muito difícil, imagine por a termo um conceito? Uma utopia? Essa é a dúvida hamletiana de agir ou pensar, pensar e não agir, se render ao estado das coisas, não interferir no curso dos acontecimentos, sentir-se impotente diante de um mundo tão grande e sermos tão diminutos.

Abro simultaneamente duas abas no navegador: A primeira, Ética a Nicômaco (Aristóteles), a felicidade, o bem, as coisas. Na segunda, Os trabalhos e os Dias (Hesíodo), as regras de viver e fazer o bem. Ambas dedicadas a aconselhar aos seus filhos sobre as regras da vida, uma profunda coincidência (será que foi?, ou uma simples busca de tais conselhos, apontamentos que inquietam minha tola existência. Avanço lentamente, as páginas, Hesíodo, já me foi muito familiar, enquanto Aristóteles é caudaloso, preciso de uma bússola.

Por mais que nos julguemos especiais, cheios de possibilidades e realizações, modernidades, são os velhos mestres que dizem (ou intuíram) o que realmente somos, pelos menos na busca de saber quem acreditamos ser.

Volto ao ponto inicial, o que será o dia de hoje? Recolher novas histórias, viver uma nova história, para permanecer vivo, consciente de alguma coisa, boa, acho.

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