Dioniso, Baco – Alegria, Êxtase e Entusiamo.

Midas and Bacchus (Nicolas Poussin)
Midas and Bacchus (Nicolas Poussin)

 

“Vate é ainda o deus. O êxtase báquico
e o delírio têm grande poder profético.
Quando o deus penetra bem no corpo,
aos alucinados o porvir permite anunciar”.
( As Bacantes – Eurípedes)

Os deuses gregos, seus arquétipos, que nos moldam, nos definem, quando dele nos aproximamos, obviamente que somos vários, em nós mesmo, nos identificamos, portanto, não com um, mas com vários deuses. Por exemplo, se Apolo representa a lógica, a forma apurada, o método, Dioniso nos legará o ócio criativo, o teatro, a sátira.

São irmãos que abriram ao homem ocidental a dualidade de sua alma, de sua psique. Compromisso, noção de responsabilidade e o outro lado prazer, desrepressão. Como longamente falamos de Apolo no post , Apolo – O Exegeta Nacional(Nova Versão), ficamos devendo, por longos anos um registro mais apurado de Dioniso ou Baco, ou ainda Iaco e Zagreu ( O Dioniso primitivo). Como sempre fazemos nosso guia será o fabuloso livro, Mitologia Grega de Junito de Souza Brandão (JSB).

Segundo ele, “DIONISO, em grego Διόνμσοζ (Diónysos), é palavra ainda sem etimologia. Quanto a Baco, em grego Βακχη (Bákkhos) e seus vários derivados, como Βάχχη (Bákkhe), Bacante e o Βακχξύξιν (bakkheúein), “estar em transe, ser tomado de um delírio sagrado”, também não possuem um étimo seguro, até o momento. Na realidade, Dioniso e Baco não pertencem a qualquer raiz conhecida da língua grega”.  Continua, Junito, explicando que “Trata-se, sem dúvida, de dois nomes importados, provavelmente da Trácia. Quanto a Baco, deus grego e não romano (o latim Bacchus que, à época da helenização de Roma e do sincretismo religioso greco-latino, suplantou o Líber dos latinos, é mera transliteração do grego Bákkhos); quanto a Baco, repetimos, que não aparece em Homero, Hesíodo, Píndaro e Ésquilo, somente surgiu na literatura grega no século V a.C, a partir de Heródoto e sobretudo no Édipo Rei de Sófocles, v. 211”.

A origem de Dioniso segue duas vertentes que se complementam. A primeira, de que era filho de Zeus com Perséfone, nascido com o nome de Zagreu. Por ser tão amado pelo pai, tido como seu sucessor, despertou a ira de Hera, a esposa de Zeus. Determinada a liquidar o pequeno “bastardo”, Hera, confia a missão aos seus irmãos Titãs. Esses, usando de uma artimanha “com o rosto polvilhado de gesso, a fim de não se darem a conhecer, os Titãs atraíram o pequenino Zagreu com brinquedos místicos: ossinhos, pião, carrapeta, “crepundia” e espelho. De posse do filho de Zeus, os enviados de Hera fizeram-no em pedaços; cozinharam-lhe as carnes num cadeirão e as devoraram. Zeus fulminou os Titãs e de suas cinzas nasceram os homens, o que explica no ser humano os dois lados: o bem e o mal. A nossa parte titânica é a matriz do mal, mas, como os Titãs haviam devorado a Dioniso, a este se deve o que existe de bom em cada um de nós” (JSB).

O rito iniciático a que Zagreu foi submetido, um deus não morre, mas do despedaçamento de seu corpo, lhe será conservado o coração, por Deméter ou Atena. A mortal princesa tebana, Sêmele, que seria uma Avatar da Grande-mãe, recebe de Deméter o coração de Zagreu, ela come o coração ainda “vivo”,  pulsante, ficando assim grávida de Dioniso. Noutra variante é Zeus que engole o coração de Zagreu e estando apaixonado pela mortal Sêmele ele a fecunda.

Hera, como sempre vigilante, descobre a amante de Zeus, transforma-se num ama que vai cuidar de Sêmele, ao mesmo tempo induz a moça a que ela peça uma prova de que seu amante é um deus, que se mostre em todo seu esplendor.  Para isso, Sêmele, mais uma vez seduz Zeus, fazendo com que ele jure que lhe concederá um pedido. Apalavrado, Zeus ainda tenta demover Sêmele da ideia, mas a jovem insiste no intento. A luz emanada dele a queima. Zeus salva o filho e o nutrirá em sua coxa.

Como todo mito, o nascimento é dramático, assim como os primeiros passos, Junito descreve brilhantemente, assim:  “Tão logo nasceu o filho de Zeus, Hermes o recolheu e levou-o, às escondidas, para a corte de Átamas, rei beócio de Queronéia, casado com a irmã de Sêmele, Ino, a quem o menino foi entregue. Irritada com a acolhida ao filho adulterino do esposo, Hera enlouqueceu o casal. Ino lançou seu filho caçula, Melicertes, num caldeirão de água fervendo, enquanto Átamas, com um venábulo, matava o mais velho, Learco, tendo-o confundido com um veado. Ino, em seguida, atirou-se ao mar com o cadáver de Melicertes e Átamas foi banido da Beócia. Temendo novo estratagema de Hera, Zeus transformou o filho em bode e mandou que Hermes o levasse, dessa feita, para o monte Nisa, onde foi confiado aos cuidados das Ninfas e dos Sátiros, que lá habitavam numa gruta profunda”.

A intensa perseguição de Hera ao “novo” deus, gerará uma profunda cisão entre os adeptos de cada culto  como descreve Junito “ficamos sabendo que, em Atenas, e possivelmente na Beócia, se evitava cuidadosamente todo e qualquer contato entre os objetos que pertenciam ao culto de Hera e aqueles pertencentes ao de Dioniso. Até mesmo as sacerdotisas das duas divindades não se cumprimentavam. A verdadeira muralha que separava os dois cultos era certamente conseqüência das características muito diferentes desse par antitético: de um lado, Hera, a teléia, a saber, a protetora dos casamentos, de outro, Dioniso, o deus das orgias, dos “desregramentos”. 

De enorme poder, foi investido, Dioniso, seu duplo nascer, da gestação no úmido (o útero materno) como no fogo (queimado pelo fogo de Zeus e gerado em sua coxa), lhe dará uma infinidade recursos e força. Desafia os demais deuses com sua extrema ousadia, como o episódio em que vai ao Hades e resgata sua mãe, Sêmele, tornando-a imortal e dando-lhe um culto próprio.

Ainda de acordo com Junito, Dioniso, “foi levado para o monte Nisa e entregue aos cuidados das Ninfas e dos Sátiros. Pois bem, lá, em sombria gruta, cercada de frondosa vegetação e em cujas paredes se entrelaçavam galhos de viçosas vides, donde pendiam maduros cachos de uva, vivia feliz o jovem deus. Certa vez, este colheu alguns desses cachos, espremeu-lhes as frutinhas em taças de ouro e bebeu o suco em companhia de sua corte. Todos ficaram então conhecendo o novo néctar: o vinho acabava de nascer. Bebendo-o repetidas vezes, Sátiros, Ninfas e o próprio filho de Sêmele começaram a dançar vertiginosamente ao som dos címbalos, tendo a Dioniso por centro. Embriagados do delírio báquico, todos caíram por terra semidesfalecidos”.

Dioniso é um deus humilde, um deus da vegetação, um deus dos Campônios. Com seu êxtase e entusiasmo, o filho de Sêmele era uma séria ameaça à pólis aristocrática, à pólis dos Eupátridas, ao status quo vigente, cujo suporte religioso era os aristocratas deuses olímpicos.

Enquanto Apolo é o deus da cultura protetor das artes, da engenharia, das construções, do homem que cria cidades e civilizações, age politicamente, usa da força para dominar a natureza e aos seus. Surge como fonte para o esplendor da alta cultura grega. As cidades criadas, os templos, a lógica, a matemática inspiração do grande Apolo que vira uma espécie de primeiro-ministro de Zeus dando aos homens toda a criatividade para seu pleno desenvolvimento, é a ruptura com a sociedade matriarcal ligada umbilicalmente à agricultura, as deusas de amplos e fartos seios, da fertilidade dão espaço à cidade a beleza, as curvas o refinamento. O auge da alta cultura grega que se expande para Europa ocidental levando seus valores trazidos da Ásia e do Egito.

Dioniso nasce e fica na terra, portanto desconhece os valores divinos, sua função é a alegria, as odes, a festa e o prazer. Incorpora ao mundo grego a poesia, o verso, o teatro e principalmente o vinho, daí o nome Baco. Ele espalha para sociedade careta que não basta só construir cidades, templos, mas é preciso viver ter sonhos sem compromissos formais. As bacantes que são suas seguidoras devotas vão levar a luxúria e os mistérios de Elêusis para as ruas e dar outro colorido ao mundo Grego.

Baco, Deus do vinho, do mel, do sêmen, do prazer e  da diversão, os seus mistérios de Elêusis encontrou na passarela central do Teatro a mais lúdica de suas interpretações. As belas bacantes em êxtase, palavra grega que bem define o seu papel: “Sair de si”, por gozo e prazer. Embriagadas pelo vinho, das uvas de Dioniso e seu culto secreto e sensual.

Evoé, Baco.

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