Ponte dos Espiões, quase um Brasil depois de 2013.

A intensa a atuação de Tom Hanks no filme Ponte dos Espiões.
A ótima a atuação de Tom Hanks no filme Ponte dos Espiões.

Em janeiro de 2014, estava num churrasco na casa de uns amigos, quando começou um acalorado debate sobre o tal julgamento do “mensalão”, de repente me vi encurralado, seis contra mim, um deles exaltado quase a partir para o confronto físico, apenas porque disse que todos eles mereciam o direito de defesa, amplo e com todos os instrumentos legais possíveis. O mais exaltado proferia palavrões contra o Ministro Lewandowski, pois, segundo ele, era um “petista” no STF que defendia “bandidos”, que todos eles mereciam era a morte, sem defesa.

Aquele clima pesado, no distante janeiro de 2014, em ambiente privado, teoricamente que era possível conversar entre “amigos”, ganhou às ruas, os corações e as mentes, chegando ao que vivemos hoje, nessa histeria coletiva. 

Fui ao cinema domingo a noite para ver o novo de Steven Spilberg, Ponte dos Espiões (Bridge of Spies), com certa cautela, por se tratar de uma obra de autor americano, tão identificado com a ideologia dominante, mas o tema me atraía, encarei como uma “diversão”, principalmente depois de ver o tenso jogo Corinthians e Atlético, precisava relaxar e esquecer o nervosismo da tarde/noite do domingo.

Mas qual foi minha surpresa, o filme que trata da trajetória de James Donovan (Tom Hanks), um advogado de um grande escritório de Nova York, ele especialista na área de seguros de vida, é colocado num caso inusitado, defender um espião russo, Rudolf Abel (Mark Rylance) preso pelo FBI, mas que precisava de um “julgamento pró-forma”, pois a condenação era líquida e certa, sendo a defesa apenas para dar uma aparente legalidade.

Coitado do Dr Donovan, com uma carreira bem pavimentada na área de seguros, sócio de um grande escritório, um padrão de vida de classe média americana, no final dos anos de 1950, ter que assumir um caso distante da sua atuação, além de colocar em risco sua reputação e sua própria vida, pois os EUA viviam ainda sob o intenso Macartismo, um anticomunismo doentio e intolerante, que ameaçava as bases da liberdade de expressão, justamente o maior slogan da propaganda americana, contra a ex-URSS.

O julgamento totalmente contaminado pelo ambiente político se revelará a imensa contradição daqueles anos sombrios, mas que falará diretamente ao momento em que vivemos, onde um julgamento, não importa qual, seletivo (basta lembrar que apenas o “mensalão petista” foi julgado) ou não, expõe toda a doença e a neurose de uma sociedade autoritária, mesmo vendendo ser a campeã das liberdades. O reacionarismo cego não aceita nem as regras mais elementares do direito de defesa, tornando o clima irrespirável.

O filme é bem mais, mesmo vendendo a visão americana sobre o conflito e a bipolaridade do mundo, da guerra fria, não deixa de ser um marco no debate sobre a questão da liberdade, dentro de uma “sociedade livre”. O inimigo, na maioria das vezes, não é o espião externo, ou a nação “inimiga”, mas a própria sociedade que embarca na ideologia do confronto, do maniqueísmo doente, que muitas vezes corrói suas próprias bases fundadoras.

As atuações de Tom Hanks e de Mark Rylance são espetaculares, seguras e convincentes. Spilberg é um craque na reconstrução de época, cenário impecável, a construção do Muro de Berlim é especialmente bem mostrada. Ótimo roteiro, as histórias bem entrelaçadas e a sensação de ter visto um grande filme, em minha opinião, o melhor do ano, um dos melhores da década.

Vale a pena ir e refletir, pena que os zumbis das redes sociais dificilmente entenderiam a mensagem do filme.

2 thoughts on “Ponte dos Espiões, quase um Brasil depois de 2013.”

  1. Minha nossa, mocionei… Valeu demais esse texto, não vou perder esse filme!!!
    Olha, vou confessar: desde Amistad que sou fã incondicional do Spielberg. Mesmo que faça porcarias, Amistad já rende a ele o céu dos ateus, que é dormir sem culpa.
    Beijo, compa! Você tá nesse céu!!!

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